O MUNDO NUMA ENCRUZILHADA, O IMPÉRIO EM XEQUE

O mundo chegou a uma encruzilhada. Ou os Estados Unidos, à cabeça da NATO e da União Europeia, o chamado “Ocidente”, aceitam perder o estatuto de império colonial numa ordem global que escapa ao direito internacional; ou aceitam uma ordem internacional multipolar, sob a égide do direito internacional, que vem fazendo o seu caminho nos últimos anos; ou tentam desesperadamente impedir uma transformação geopolítica criando condições para um confronto nuclear. Neste último caso, como está abundantemente demonstrado, as duas primeiras opções da encruzilhada extinguem-se, tal como provavelmente desaparecerá a vida na Terra, pelo menos como a conhecemos hoje.

A situação militar na Ucrânia precipitou a criação deste cenário. Ele tornar-se-ia realidade de qualquer maneira, imposto por esta ou outras circunstâncias de confronto internacional entre o desgastado poder dominante e a pujança dos poderes ascendentes. É a ordem natural das coisas quando as opções militares para tentar resolver diferendos e conter as mudanças se sobrepõem aos meios pacíficos.

Quando o secretário da Defesa norte-americano e chefe do Pentágono, Lloyd Austin, declarou que o objectivo pretendido por Washington com o conflito na Ucrânia é o de “enfraquecer a Rússia” limitou-se a confessar o óbvio e a admitir que a sorte dos ucranianos, do Ocidente ou do Oriente do país, é a última coisa que o preocupa.

Ordem unipolar, ordem imperial

O estabelecimento de uma ordem unipolar, imperial, no limite à escala global, foi consequência directa da queda do muro de Berlim, em 1989, e da extinção da União Soviética – sabe-se hoje que muito bem trabalhada pela CIA à sombra da perestroika e da glasnost e tirando proveito da estagnação, da degradação social e da descaracterização do regime socialista agravadas pelo desgastante apoio militar ao governo progressista do Afeganistão.

O aparelho político-militar de Washington criou na viragem da década de oitenta para a de noventa um conjunto de circunstâncias funcionando como pilares de um novo quadro geopolítico que os dirigentes norte-americanos passaram a definir como “ordem internacional baseada em regras”. Isto é, um sistema de poder imperial arbitrário, casuístico e belicista guiado unicamente pelos interesses dos Estados Unidos. Tratava-se, como ainda hoje continua a acontecer, de contornar o direito internacional e também o papel da ONU, entidade ainda assim cada vez mais submetida a Washington, através de decisões e imposições com impacto tanto possível global, sem constrangimentos legais ou jurídicos. Em suma, o poder inquestionável da força.

Por exemplo, em Agosto de 2002 o presidente norte-americano George W. Bush publicou uma lei, conhecida vulgarmente como a “de invasão de Haia”, mediante a qual tropas norte-americanas têm “o direito” de libertar pelos meios considerados necessários quaisquer “militares, funcionários eleitos e funcionários do governo” que sejam detidos e acusados de crimes de guerra na capital holandesa, sede do Tribunal Penal Internacional (TPI), uma entidade da ONU à qual os próprios Estados Unidos não aderiram.

Entre os instrumentos criados para sustentar a ordem unipolar avultam, por exemplo, o chamado Consenso de Washington de 1989, a cartilha que define e impõe o regime económico neoliberal sem fronteiras; a “doutrina Wolfowitz”, segundo a qual Washington não pode permitir a ascensão de uma qualquer nova potência capaz de rivalizar com os Estados Unidos, objectivo que se aplica – como agora se percebe de maneira ainda mais evidente – até à própria União Europeia; e outras medidas entre as quais se inserem a acção R2P (Responsability to Protect, responsabilidade de proteger) e o conceito de “guerra humanitária”, que serviram de “argumentos” para as guerras expansionistas e de rapina dos Estados Unidos/NATO/União Europeia por exemplo na Jugoslávia, Afeganistão, Iraque, Líbia, Síria, Somália, Sudão, Iémen, sem contar com os intermináveis dramas da Palestina e do Sahara Ocidental, as várias “primaveras árabes” e “revoluções coloridas” distribuídas por vários continentes.

Ao mesmo tempo, os Estados Unidos completaram a aniquilação da União Soviética assumido o controlo governamental sobre a Rússia, país à cabeça do qual instalaram Boris Ieltsin, um notório colaborador da CIA, alcoólico e corrupto, instaurando a ortodoxia neoliberal, o saque do aparelho de produção socialista e proporcionando a criação de uma casta oligárquica cleptocrata devastadora. Uma hipotética potência concorrente da ordem unipolar estava arrasada.

Henry Kissinger, no Fórum Económico Mundial de Davos

A construção dessa estrutura de poder de tendência global foi acompanhada pela promulgação propagandística do conceito de “globalismo” – a globalização imperial político-militar conduzida pelos Estados Unidos arrastando o chamado Ocidente e processada em termos económicos neoliberais caminhando para um governo mundial único. Este seria o objectivo último, aliás já definido há décadas pelo estratego e guru Henry Kissinger, agora através da estratégia do “great reset” ou grande reinício do capitalismo neoliberal, enfeitada com o pendor “verde” e sobre a qual trabalha o Fórum Económico Mundial (de Davos), uma espécie de cúpula das oligarquias estatais e dos bilionários do círculo das “democracias liberais”. Por Ocidente, na perspectiva geopolítica, entende-se o conjunto de nações, alianças e comunidades transnacionais que seguem, de acordo com a linguagem tecnocrata e autocrata, os “valores partilhados” e obedecem à “ordem baseada em regras” imposta pelo diktat de Washington.

O papel da guerra na Ucrânia

Na década de noventa do século passado, quando foi instaurado o sistema internacional de poder vigente, incluindo a criação da União Europeia em termos rigidamente neoliberais, oligárquicos e não-democráticos nas suas cúpulas, a Rússia praticamente não existia e a China estava longe de atingir os poderes económico, tecnológico e militar – que significam crescente influência geopolítica – de hoje.

A subida de Vladimir Putin ao poder em Moscovo, em 2008, foi um erro de casting de Ieltsin e dos seus patronos norte-americanos que alterou a história da Rússia. É de facto um anticomunista virulento, insuspeito de qualquer tentação de reactivar a União Soviética, profundamente reaccionário em termos sociais mas que restaurou gradualmente um sistema de poder formalmente democrático assente na restauração de um nacionalismo mobilizador de inspiração czarista e tradicionalista, capaz de cativar vastíssimos sectores da população que repudiam a casta dirigente corrupta nascida dos escombros da União Soviética. Putin manteve o neoliberalismo em grande parte da estrutura económica mas extraiu-lhe os sectores estratégicos, principalmente o de energia. E restaurou o aparelho militar dotando-o com meios e inovações que, segundo os especialistas, garantem um confronto de igual para igual com a NATO nos terrenos convencionais. E, digamos, o empate técnico prolonga-se quando se aborda a questão nuclear.

A China, entretanto, teve em 30 anos a evolução fulgurante que está à vista de todos. Acresce que estas alterações qualitativas nos poderes de Moscovo e Pequim conduziram a aproximações entre as duas partes, complementando-se nas frentes económica e militar e atingindo o nível de parceria estratégica assinada em 4 de Fevereiro último pelos presidentes Vladimir Putin e Xi Jinping.

Vladimir Putin e Xi Jinping

Os Estados Unidos, a NATO e a União Europeia foram enraizando o sistema unipolar e acompanhando as mudanças nos potenciais rivais, ou em simples países “dissonantes”, multiplicando guerras, golpes e tentativas de golpes de Estado, chantagens e sanções asfixiantes. Este comportamento expandiu dramaticamente a miséria e a fome, que hoje atingem centenas de milhões de pessoas, provocou milhões de desalojados e refugiados, além de devastações de infraestruturas em numerosos países e vastas regiões.

Uma das principais opções estratégicas foi, porém, a expansão da NATO para as fronteiras da Rússia e de forças militares norte-americanas para a região da Ásia-Pacífico. Em relação a Moscovo, o cerco assim montado representa uma histórica e traiçoeira negação da palavra dada no princípio dos anos noventa ao então presidente soviético Gorbatchov por altos dirigentes norte-americanos e da Alemanha Ocidental, entre eles o secretário de Estado de William Clinton, James Baker. De acordo com a sua promessa, a NATO não se expandiria sequer “uma polegada” para Leste da linha Oder-Neisse depois de a República Democrática Alemã ser extinta e integrada numa Alemanha unificada. Hoje, todos os países do antigo Tratado de Varsóvia, alguns da antiga União Soviética (Estados bálticos) e da ex-Jugoslávia, integram a Aliança Atlântica. No Ocidente que temos as promessas dos agentes do poder político no quadro da “ordem baseada em regras” valem zero.

A Ucrânia tornou-se uma peça fundamental na engrenagem ofensiva. A integração deste país na NATO fecharia o cerco na frente ocidental da Rússia e permitiria a instalação de mísseis com capacidades nucleares a poucos minutos de Moscovo e São Petersburgo. A Rússia, naturalmente – tal como a China – nunca confiou nas intenções “defensivas” da Aliança Atlântica ao avançar para as suas fronteiras de maneira massiva. Quão “defensiva” os Estados Unidos considerariam a Rússia se instalasse mísseis com capacidades nucleares por exemplo em Cuba e no México?

A integração da Ucrânia da NATO tornou-se, portanto, uma “linha vermelha” para Moscovo.

Em 2013/2014 uma estrutura operacional dos Estados Unidos, com a cumplicidade da União Europeia, promoveu um golpe de Estado na Ucrânia para derrubar um governo democraticamente eleito. Para isso socorreu-se de grupos de choque nazis inspirados nas figuras de nacionalistas que colaboraram com as tropas hitlerianas nos massacres de polacos judeus, ucranianos e soviéticos no início dos anos quarenta do século passado. Na coordenação do grupo de operacionais golpistas norte-americanos esteve o então vice-presidente e hoje presidente, Joseph Biden.

O governo nascido do golpe integrou dez representantes dos grupos nazis e acabou por moldar toda a estrutura político-militar ditatorial que hoje controla o poder em Kiev. É o caso de organizações como o Sector de Direita, o Svoboda e sobretudo, movimentos paramilitares incluídos na Guarda Nacional como o Azov, Aidar, C-14, Dnepr 1 e 2.

Batalhões nazis na Ucrânia, em baixo o Batalhão Azov

A influência desses grupos xenófobos, entretanto treinados, financiados e armados pelos Estados Unidos e a NATO, foi determinante nos ataques às minorias russófonas e de origem russa – maioritárias no Leste da Ucrânia – instaurando um processo de limpeza étnica para garantir, designadamente, o acesso de Kiev, dos seus oligarcas e de máfias económico-financeiras transnacionais aos imensos recursos naturais – principalmente carvão, petróleo e metais estratégicos da bacia do rio Don (Donbass).

Os batalhões nazis e as tropas de Kiev acabaram por sofrer uma derrota em 2015 frente à mobilização popular e militar das populações das regiões de Donetsk e Lugansk. O conflito foi suspenso mediante os Acordos de Minsk assinados pelas partes sob responsabilidade e garantia de França, Alemanha e Rússia. Kiev, porém, foi protelando e negando sempre a aplicação dos acordos, que davam autonomia ao Donbass no quadro da legislação ucraniana, perante a complacência de Berlim e Paris. A recusa da aplicação desses acordos manteve a guerra sempre latente e a situação acabou por degenerar no início deste ano.

Os Estados Unidos e a NATO, sempre arrastando uma União Europeia sem vontade própria nem coluna vertebral, foram esticando a corda tirando proveito da situação indefinida. A Ucrânia, entretanto, concentrou 140 mil efectivos militares na frente do Donbass para “reconquistar” esses territórios numa operação relâmpago prevista para o início de Março, o que iria deixar as populações de origem russa totalmente à mercê do regime xenófobo e nazi a funcionar em Kiev. Este tomara, entretanto, medidas para consolidar a ditadura político-militar proibindo o uso de língua russa, impondo a censura, ilegalizando todos os partidos políticos da oposição, dando carta branca à polícia política, pondo em circulação uma lista de denúncia e extermínio dos “inimigos da Ucrânia” e instaurando um sistema de ensino xenófobo, com treinos paramilitares para crianças e adolescentes e livros de estudo nos quais os russos são considerados geneticamente inferiores, “sub-humanos”. Mais do que uma ditadura, um sistema de apartheid.

Ao mesmo tempo, o presidente Volodymyr Zelensky declarou na Conferência de Segurança de Munique (19 de Fevereiro) a sua disposição de dotar novamente a Ucrânia com armas nucleares.

As “linhas vermelhas” foram ultrapassadas; Moscovo acabou por fazer o que Washington realmente desejava e programara “para enfraquecer a Rússia”, e enviou forças militares para a Ucrânia, entre outras coisas para se antecipar ao ataque de Kiev ao Donbass. Foi o início da segunda fase de uma guerra desencadeada pelos Estados Unidos, a NATO e com a anuência da União Europeia em 2014, depois de um golpe de Estado que apenas pode ser considerado “legítimo” pela “ordem internacional baseada em regras”.

Os pés pelas mãos

Ao fim de mais de três meses de invasão a Rússia está em vantagem militar, o exército ucraniano entrou em desagregação mas os Estados Unidos e a NATO, com a submissão absoluta da União Europeia, insiste em mandar mais armas para Kiev e multiplicar sanções apenas respeitadas pelo Ocidente e que, em grande parte, se voltam contra os países que as impõem – muito ao de leve os Estados Unidos. Trata-se, como disse Austin, de “enfraquecer a Rússia” e de prolongar o conflito “até ao último dos ucranianos”. O Ocidente não quer realmente saber das populações ucranianas.

Até ao momento as sanções impostas pelos Estados Unidos a numerosos países através do mundo, incluindo mais de 60 anos de bloqueio a Cuba, nunca provocaram a queda dos respectivos governos. Provavelmente tal não acontecerá também com a Rússia, já envolvida há muitos anos em processos de integração asiática, vários deles em parceria com a China, o Irão, o Paquistão e a própria Índia, além de países de outros continentes como o Brasil, a África do Sul e, em breve, a Argentina e mesmo a Arábia Saudita. Os países que não aderiram às sanções contra a Rússia e parecem abertos a formas alternativas de cooperação, designadamente abrindo outros circuitos energéticos internacionais e dispensando o dólar, representam muito mais de metade da população do mundo, por sinal a mais jovem, a mais dinâmica, beneficiando em muitos casos de desenvolvimento tecnológico de ponta. Assistimos a afirmações práticas e sustentáveis de multipolaridade.

Presidentes dos países que compõem os BRICS no seu 13º encontro, Índia, 2021

A aposta dos Estados Unidos e do Ocidente global – que representam menos de 15% da população mundial – na carta da Ucrânia para desenvolverem uma guerra de procuração com a Rússia está a revelar-se arriscada, até dramática para o conjunto da população mundial se a tentação nuclear não for posta definitivamente de parte pelos dois lados. As hipóteses de realização de negociações sérias de paz são ainda remotas, pelo menos enquanto Zelensky for obrigado por Washington a continuar a guerra, imolando os seus militares.

É muito cedo para ter uma ideia precisa da configuração do mundo quando e se a névoa da guerra começar a dissipar-se na Ucrânia e a loucura esquizofrénica das sanções que afecta os nossos desumanos e irresponsáveis dirigentes amainar. Quanto tempo aguentarão os povos hipnotizados pela asfixiante propaganda de guerra depois de começarem a sentir a sério uma crise sem memória, os rombos profundos na sua qualidade de vida e até nos seus direitos provocados pela insistência na guerra e em sanções suicidas?

Sejam quais forem os desenvolvimentos, o mundo do qual parecem ter desaparecido as ideologias humanistas e socialmente progressistas não voltará a ser como antes do golpe de pendor nazi-fascista de que a Ucrânia foi vítima em 2014. O império e o Ocidente, porém, podem ter metido os pés pelas mãos numa fuga para a frente da qual não sairão ilesos.