RETRATO DE ESCULTOR. ESCULTOR DE RETRATO – NO CENTENÁRIO DE JOSÉ DIAS COELHO

Meus braços cresceram árvores

nos frutos há o sangue que te ofereço[1]

Há 100 anos nascia em Pinhel, a 19 de Junho, José António Dias Coelho. Em 1961, A Morte Saiu à Rua, como cantou José Afonso, e o Artista Militante foi baleado pela PIDE numa rua em Lisboa. Tinha 38 anos.

Ler as palavras testemunhais de José Cardoso Pires, seu ‘companheiro de sonho’, na homenagem feita ao artista 13 anos depois, na Sociedade Nacional de Belas Artes (SNBA), no aniversário de Dias Coelho pós 25 de Abril[2], leva-nos ao tempo obscuro de um “país muralhado” em que já não se ‘suportava mais isto’: prisões e torturas, repressão e censura, pobreza e segregação. Mas oferece-nos sobretudo um retrato “voltado para a luz” de um camarada de lutas e anseios, de sonhos e escolhas, de um revolucionário que defendeu a Vida até ao último sacrifício, de um homem “que se repartia e estava inteiro no bom e no difícil, no prazer e na coragem”, e de um artista norteado pela “Comunidade. Amor”, que é como quem diz, por um ideal colectivo humanista e por uma partilha social na compreensão e no afecto que pode “libertar o homem e a arte”. Comunhão em que a Arte teria uma função de elevação pelo conhecimento e desenvolvimento do ser humano, mas também de protesto, denúncia e testemunho contra a injustiça e a desumanidade.

Premissas comuns a uma geração que pretendeu uma intervenção cívica e cultural transformadora num país repressor, mas com os olhos postos num mundo novo. Uma ‘geração rebelde’, de jovens artistas, escritores, intelectuais, que se foi construindo num movimento cultural designado por neo-realismo, e a nível internacional por realismo social.

Nesta geração de jovens, impetuosa e generosa, o caso de Dias Coelho, tal como o do escritor Soeiro Pereira Gomes, destaca-se pelas consequências extremas da sua escolha consciente pela acção política em clandestinidade, por um ideal, com o conhecido desfecho trágico, em detrimento de uma vocação artística que se afirmava. Pela sua vida e percurso interventivo e pelo assassinato, Dias Coelho tem lugar indubitável na história política e cultural do século XX.

Morte de Catarina Eufémia, 1954-1961, linogravura em papel. Colecção Museu do Neo-Realismo

Até aos 32 anos, quando entra na ilegalidade, o seu projecto de vida era a criação artística, e chamam-no de Pintor. Nas Artes Plásticas, mais que pintura, José Dias Coelho foi desenhador e escultor, embora também tenha feito gravura – lembre-se a conhecida Morte de Catarina Eufémia, ou as ilustrações no jornal Avante, como Prisioneiros políticos -, e experiências em artes decorativas (vidro e cerâmica).

A figura e a face humana

Fez algumas paisagens, mas a obra de Dias Coelho, nas diversas modalidades artísticas que abraçou, centra-se na figura humana, e em particular no retrato. São representações adentro do Realismo, mas com características muito próprias, a delicadeza e a sensibilidade, um enformar suave mas firme, nos traços apurados que delineia no papel, na serenidade dos tons da pintura ou na moldagem do barro ou gesso. Como afirmou Cardoso Pires, há na sua vida e na sua arte uma “constante lírica que não é mais do que a exaltação do amor e do entendimento”.

Paisagem com aqueduto, 195?, aguarela e tinta da china s/ papel. Colecção Museu do Neo-Realismo

A figura humana, do Ser seu semelhante, como eleita para as suas representações em desenho e escultura – como foi também certa distinção do realismo social, nomeadamente as figurações relativas a actividades de produção –, e mais frequentemente, o retrato da face humana – afinal o que é mais singular em cada ser humano –, que atravessa todo o seu percurso artístico, não é mero ‘objecto’ de representação. É sobretudo revelador desse modo de estar/ser na vida, da compreensão e do afecto pelos outros.

O retrato, pelo traço do lápis, do pincel, da goiva, ou pela modelação do barro ou gesso, era expressão da sua necessidade de comunicar e de dar testemunho, era “o protesto vincado ou o instante de um amigo na sua expressão mais íntima, pessoalíssima”[3].

A matriz da sua obra reside sem dúvida no Desenho, como aliás o era nas Belas Artes em geral. Dias Coelho cedo começa a desenhar, retratando familiares e amigos. Na adolescência, no Colégio Académico, em Lisboa, desenvolve as suas capacidades artísticas e na primeira exposição tem referências elogiosas. Nessa época faz inúmeras caricaturas, enfatizando humoristicamente atributos faciais de colegas, já indiciando versatilidade e perspicácia na captação imediata dos traços essenciais de um rosto.

Nos primeiros retratos é notória uma matriz académica e naturalista; após o curso nocturno na Escola António Arroio, e especialmente com a frequência da Escola de Belas Artes, o traço vai-se depurando, o tratamento plástico diversificando-se e aprofundando soluções modernistas, sem perder contudo a correspondência identitária dos retratados e a força expressiva. Também se auto-retrata, sendo conhecidos diversos ao longo da sua vida.

Em 1947, Dias Coelho decide mudar do curso de Arquitectura para o de Escultura, para a sua verdadeira vocação. É na escultura, tal como no desenho, que mais explora e desenvolve a representação figurativa de rostos e cabeças.

Mãe do artista [2], 1951, carvão s/papel. Colecção Museu do Neo-Realismo
Cinco anos antes entrara pela mão do colega Castro Rodrigues para a Federação das Juventudes Comunistas Portuguesas, respondendo ao apelo de luta e união em defesa da cultura, e desde então desenvolvia acção militante. Aquando da criação do MUNAF – Movimento de Unidade Nacional Antifascista, e nos finais da II Guerra Mundial, do MUD – Movimento de Unidade Democrática, milita activamente nestes movimentos, assim como integra a Comissão da organização da Associação Académica de Belas Artes, sendo Delegado das Escolas de Lisboa. Em 1949, apoia a candidatura de Norton de Matos, na sequência da qual é detido para averiguações, pela PIDE.

Escultor de retratos

Dias Coelho participa também na Comissão de Escritores, Jornalistas e Artistas Democráticos, cuja iniciativa mais importante foi a organização das Exposições Gerais de Artes Plásticas (EGAP), inicialmente liderada por Mário Dionísio. Logo na 1ª EGAP, em 1946, na SNBA, Dias Coelho envolve-se activamente, e a partir da 2ª exposição apresenta-se como expositor em todas, sendo que na 10ª, já em situação de clandestinidade, são os companheiros que decidem exibir uma obra sua, já exposta.

Participantes da 7ª EGAP, 24 de Maio de 1953, na SNBA. José Dias Coelho é o sexto a contar da esquerda, em pé

Exposições de resistência política e modernidade artística, valorizando todas as artes e a interdisciplinaridade de linguagens, Dias Coelho faz jus a estas intenções e apresenta nas nove EGAP mais de três dezenas de obras, principalmente na modalidade de Escultura (16+1), mas também na de Desenho e na de Cerâmica e Decoração, sendo o 16º artista que mais expôs dos 281 participantes. A recepção crítica é positiva, sendo as suas obras destacadas e consideradas meritórias, nomeadamente por Lima de Freitas e Júlio Pomar em textos publicados na Vértice.

Maternidade, 1951, gesso pintado (patinado). Colecção Museu do Neo-Realismo

Cabeça – Natália, [194?], Cabeça da Mãe [1947], Cabeça de meu Pai [1948], Cabeça de rapariga (ou Cabeça de Sofia) (1948), Família (1949), Cabeça de Rolando Sá Nogueira (1949), Retrato de Margarida Tengarrinha (1950), Retrato de Alves Redol (1951), Retrato de Fernando Namora (1951), Retrato de Maria de Lurdes Freitas (1951), Retrato de Teresa de Sousa (1952), Retrato de Maria Eugénia Cunhal (1953), Retrato de Isabel Aboim Inglez (1954), O Pastor (1954), Ceifeira (1955), Retrato de Tomás de Figueiredo, Retrato de Maria Antonieta [David], são alguns dos retratos de familiares e de afectos, de amigos intelectuais e resistentes, em esculturas que mostrou nestas e noutras exposições.

Retrato de Margarida Tengarrinha, 1955-1961, óleo s/ papel. Colecção Museu do Neo-Realismo

Nestas obras pode-se observar as potencialidades artísticas de um escultor em pleno desenvolvimento, pelo tratamento sensível, comedido, mas revelador de conhecimento técnico e de pensamento plástico diversificado, mas simultaneamente, com um cunho próprio pela expressividade, originalidade e modernidade que distingue os verdadeiros criadores.

Após uma 1ª exposição colectiva no atelier de Abel Manta, em 1946, Dias Coelho participa noutras. Nos salões anuais da SNBA, como o Salão da Primavera de 1949, onde lhe é atribuída a Medalha em Escultura pela “Cabeça da irmã Sofia”; no ano seguinte, assim como nas edições de 1953 e 1954, que se seguiram ao fecho compulsivo da SNBA pelo governo, após a polémica em que se vê envolvido indirectamente. Em 1955, antes de entrar na clandestinidade, é vogal suplente no Júri deste Salão.

Um dos intuitos desta geração rebelde era aproximar a arte e a cultura do povo, e para tal organizam, em colectividades, exposições e outras iniciativas.

São exemplos destas mostras em que Dias Coelho participa, a 1ª Exposição de Divulgação de Artes Plásticas no bairro operário da Ajuda em 1950, a Primeira Semana de Arte, na Casa da Comarca de Arganil, em 1951, ou em 1953, a Exposição de Artes Plásticas, na Caixa Económica Operária. Em 1951 e 1952, participa nas Exposições de Artes Plásticas, organizadas pela Associação de Estudantes do Instituto Superior Técnico. Esta década constitui um período de desenvolvimento e de sólido amadurecimento como escultor.

José Dias Coelho, anos 50

Depois de demitido em 1952 do ensino técnico por razões políticas, colabora em programas no espaço público a convite de alguns arquitectos. Concebe uma grande escultura para a Escola Primária do Vale Escuro, dois grupos escultóricos para a Escola Primária de Campolide, e ainda para o Café Gelo, para a Fábrica Secil no Outão, para uma moradia na Praia da Rocha, e uma pintura para a Casa Africana em Lisboa. Estas parcerias poderiam ter constituído uma oportunidade para um maior reconhecimento, abrindo perspectivas para a sua carreira de escultor, a que renuncia em 1955.

Ficha da PIDE de José Dias Coelho, 1949

Na clandestinidade, a actividade artística de Dias Coelho, se bem que esparsa, não desaparece; com menos recursos, faz desenhos, pequenas pinturas e gravuras.

Ficou por cumprir-se um Retrato de Escultor.

Bibliografia:
SANTOS, Luísa Duarte
– “José Dias Coelho – Desatando um a um os nós do silêncio”. In O desenho na obra de José Dias Coelho [Catálogo]. Vila Franca de Xira: CMVFX / Museu do Neo-Realismo, 2008.
– Raízes de uma colecção: Alves Redol e (seus) ilustradores [Catálogo]. Vila Franca de Xira: CMVFX / Museu do Neo-Realismo, 2019.
– Realidade, Consciência e Compromisso Humanista na Arte 1936-1961. Lisboa: Caleidoscópio, 2021.
Notas:
[1] Minha canção nasceu de ser ouvida por teus lábios: Poemas de José Dias Coelho, [s.l.], 1949-1951, MNR-Espólio Dias Coelho.
[2] http://www.urap.pt/index.php/histria-mainmenu-37/antifascistas-mainmenu-46/75-jos-dias-coelho-pr-frente-meu-corao
[3] Ibidem.