Cinema: A troca (Changeling)

Nº 1707 - Primavera 2009
Publicado em Cultura por: Dulce Rebelo (autor)

Clint Eastwood, veterano independente dos estúdios de Hollywood, que nos habituámos a ver como actor em papéis inesquecíveis nos western de Sérgio Leone, é igualmente um realizador de enorme mestria, revelando-se um notável criador de imagens únicas, com domínio absoluto da câmara.

A TROCA” reconstitui a história real do rapto duma criança e dos esforços desenvolvidos pela sua mãe para a encontrar, apesar de todos os obstáculos que a sociedade lhe levanta no caminho.

O argumentista J.Michael Straczynski, convidado pela Câmara de Los Angeles a inteirar-se deste acontecimento antes de proceder à destruição de numerosos documentos, interessou-se vivamente pelo assunto e recolheu todos os depoimentos e documentos da época para contar a história. O produtor Brian Grazer e o realizador Ron Howard enviaram o argumento a Clint Eastwood que aceitou fazer o filme, fascinado pela profundidade do tema.

A acção decorre entre 1928 e 1935 em Los Angeles, uma cidade minada pela corrupção, que se alastra ao aparelho político e aos representantes da Justiça de que é exemplo o Departamento de Polícia.

Christine Collins (Angelina Jolie) é uma mãe solteira que dum momento para o outro vê desaparecer o seu filho Walter de 9 anos.

Alguns meses depois da apresentação da queixa às autoridades, a Polícia de Los Angeles comunica-lhe que encontrara a criança sã e salva.

No entanto, quando Christine descobre o rapaz que devolvem num grande aparato publicitário, com a presença de numerosos jornalistas, verifica que não é Walter. Ao tentar explicar exactamente isso, desencadeia-se um escândalo, uma reacção inexplicável, uma verdadeira ofensiva contra a sua dignidade física e mental, com o objectivo de obrigá-la a aceitar “outro filho”.

Vários filmes se conjugam na narrativa num contraste de espaços.

Há o cenário duma cidade acolhedora com vizinhos simpáticos, que vivem o seu quotidiano normal na família, no trabalho, entre amigos e pequenos prazeres, e há o outro lado oculto das mentiras e cumplicidades criminosas, abuso do poder sobre os cidadãos e particularmente sobre as cidadãs. Num espaço de inferno as mulheres são claramente discriminadas, desacreditadas, submetidas a um autoritarismo masculino e musculado, corrupto e cruel.

Mas sobressai também a figura da protagonista, a luta desta mãe, resistente, firme, apoiada pelo Reverendo Gustav Briegleb (numa excelente composição de Malkovich), que não desiste de procurar o seu filho.

É a força e a determinação de Christine, a sua persistência, numa época em que é atribuído às mulheres um papel menor, que vão fazer frente à polícia, confrontando-a com as suas próprias mentiras, conseguindo alterar a lei e levar a uma tomada de posição para repor a justiça.

A história, densa e real, desenrolando-se num tumulto de emoções, é filmada com sensibilidade, delicadeza e humanidade pelo grande cineasta que se pronuncia nestes termos sobre o trabalho de A.Jolie:

«Ela é única. Relembra-me imenso as actrizes da Era Dourada dos anos 40-Katharine Hepburn, Ingrid Bergman, Bette Davies, Susan Hayward, todas elas. Eram todas distintas e tinham uma enorme presença. Ela é uma actriz tremenda».

O filme muito bem recebido no festival de Cannes, foi classificado pela crítica como filme de qualidade superior, pelo que é estranho ter recebido apenas uma nomeação. Mas há sempre alguém que não quer ver…

Os cinemas têm estado repletos de bons filmes, pelo que se citam aqui alguns: «A Valsa com Bashir» de Ari Folman sobre os horrores da guerra vividos pelo próprio realizador, que em 1982 combatia por Israel na Guerra do Líbano; «O Silêncio de Lorna» dos irmãos Dardenne, que filmam o percurso duma emigrante de Leste europeu na Bélgica e os casamentos de conveniência para sobrevivência no país de adopção, que acarretam lutas de poder, ou ainda «O Estranho Caso de Benjamim Button» de David Fincher, uma reflexão sobre o tempo, a velhice, a morte, na história dum homem que vai viver no sentido inverso da evolução humana, de velho para novo, com breve encontro para uma história de amor, quando há coincidência de idades entre os protagonistas.

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