Crónica para lamentar...

Nº 1707 - Primavera 2009
Publicado em Cultura por: Manuel Veiga (autor)

Conforme os anais da vida política dos dias recentes, na Assembleia da República, dois deputados do bloco central, cada um em defesa da sua dama, que é como quem diz, cada um do outro lado da barricada da promissora (e subsidiada) indústria dos painéis solares, travaram-se de razões. Anónimos e anódinos, os deputados. Mas grandes os interesses e nada desprezíveis os subsídios. E, quando assim é, nesta coisa parlamentar, já se sabe, palavra puxa palavra, os brios até então encobertos na discrição das últimas filas do plenário, vêm ao de cima e... sai insulto mútuo. E, então, quando a Assembleia da República extravasa o Palácio de S. Bento e a rua e o bairro que lhe estão associados para chegar aos cafés e aos noticiários, o País pasma e divide-se. Uns tantos na gargalhada. No moralismo bacoco tantos outros. Na insídia contra a democracia, a maior parte das vezes – uns malandros os deputados!... Ao que parece, porém, foi um estardalhaço desmedido por parcas razões, pois que, no caso, é duvidoso que o desaguisado parlamentar acrescentasse algo de glorioso ao insulto português. Na realidade, conforme relatam fontes informadas, parece que o insulto não passou de uma pífia, de um assobio mudo, que apenas experts em leitura labial ou as legendas da televisão puderam revelar a sua épica dimensão. Garantem, assim, as fundadas fontes que, no seu estilo e brado, o desacerto parlamentar terá tido o colorido de um pátio de escola, em que adolescentes exacerbados teimam em que o seu esguicho chega mais longe que o do adversário, bem se sabendo que, em matéria de mijaretes, cada um fica com o seu... Pois bem. Coberto de incertezas e de cinzas da Quaresma, venho, perante fazer o elogio público do insulto político, cuja

nobre ascendência sobe ao tempo do Senado romano e que, nos tempos modernos, tem tido eméritos cultores. Não há política sem retórica, onde a Palavra é uma arma, sem nunca perder a beleza e o seu poder encantatório. Na história do nosso parlamentarismo existem, aliás, palavras vigorosas que fazem as delícias de quem percorre, por hábito de leitura, as “Farpas” do nosso Ramalhão Ortigão. E no circunspecto mundo anglo-saxónico, de democracias antigas e consolidadas, residem algumas das mais geniais bengaladas parlamentares. Winston Churchil e Clement Atllee, por exemplo, foram ferozes cultores do género, como ornamento da sua aura política. Mas quem, nos dias de hoje, no nosso pequeno mundo político, assume o (bom) gosto da Palavra afiada e do elegante insulto? E, no entanto, talvez no caso, se justificasse o arremesso mútuo de um insulto que fez história, proferido no séc. XIX, pelo senador americano John Randolph, dirigindo-se a um adversário político: “nunca uma competência tão medíocre foi tão bem recompensada desde que o cavalo de Calígula foi nomeado Cônsul ”.

E para que não se diga que é apenas “má língua”, que nada se faz em prol da Pátria, imbuído da mais empenhada participação cívica, após operosa e atenta pesquisa, oferece-se aos senhores deputados, protoganistas da cena em causa, alguns banais insultos, de que poderão lançar mão com proveito e, assim, dispensar o País (quiçá o Mundo) da excelência das suas banalidades e vulgaridades. Ora vejam...

”Uma língua afiada não significa que tenhas o espírito interessante.”

”És mesmo estúpido ou estás a fazer um grande esforço hoje?”

”Cérebro não é tudo. No teu caso não é nada…”

”Eu insultava-te mas acho que não irias notar”.

”Não, não te chamei estúpido. Isso seria insultar os estúpidos deste mundo"

”Podes parecer um idiota e falar como um idiota, mas não deixes que isso te engane - és mesmo um perfeito idiota”

“Se alguma vez te vir a afogar, prometo que te atiro uma corda, ambas as pontas e tudo.”

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