Notas de Leitura: E se Obama fosse africano? de Mia Couto

Nº 1707 - Primavera 2009
Publicado em Cultura por: J. C. (autor)

No actual panorama da literatura africana, que merece sem dúvida, e devido à qualidade de muitos dos seus prosadores e poetas, ser muito mais divulgada do que tem sido, sobressai um nome bem conhecido em Portugal. Trata-se de Mia Couto, escritor moçambicano que ultrapassou rapidamente as fronteiras de África para passar a ser considerado uma referência literária, não apenas daquele Continente.

Ler Mia Couto torna-se um exercício extremamente saudável que nos prende a atenção através de um estilo literário muito próprio que utiliza uma linguagem surpreendente, nova, rica, sedutora. Agora, que tanto se fala de acordos ortográficos, é bom que se analise a riqueza da escrita deste autor o qual concorre para ajudar a destruir alguns falsos mitos dos que se arvoram em “puristas”, que se rebelam contra o enriquecimento do nosso idioma proporcionado por talentos como o deste escritor de Moçambique e de outros bem relevantes oriundos de países onde se fala e escreve português.

Com regularidade publicou, em relativamente pouco tempo, mais de vinte obras importantes para se compreender a realidade de povos que foram sacrificados por um colonialismo implacável. As suas obras, ao serem enaltecidas são-no, não só pelo valor documental que encerram, mas também, pelas críticas que formula, e pela exposição de vivências africanas que nos desperta, em alguns momentos e, mesmo que não queiramos, emoções fortes pelo envolvimento a que somos levados pelos diálogos, pelas descrições que revelam situações dramáticas que chocam com os sonhos, os anseios de libertação de cidadãos que durante tantos séculos foram impedidos de exprimir os seus sentimentos, subordinados que foram a tratamentos cruéis e desumanos – mas que, apesar de tudo, mantiveram sempre as suas extraordinárias formas de expressão, como a linguagem oral, de notáveis obras populares de pintura, de escultura e, claro, de música. Isso, os colonialistas nunca puderam impedir!

Escritor que põe em evidência, com inquietação, o mundo que o rodeia, expressa o seu pensamento com uma tal sensibilidade que cedo descobrimos vir de alguém muito, muito, solidário com o seu semelhante. É um homem, também biólogo com constante trabalho de campo, intrinsecamente ligado à sua Terra que, ao pensar sobre a sociedade do seu País, de África, sobre a sociedade em geral, nos transpõe inevitavelmente para a necessidade de pensarmos seriamente sobre o que se passa na Humanidade. Mia Couto obriga, assim, o leitor, com suavidade e simultaneamente com dureza, a uma profunda reflexão.

Estas palavras vêm a propósito do seu último livro, numa edição da Caminho, que reúne uma serie de textos resultantes de intervenções proferidas em actos públicos e que abrangem temas múltiplos de caracter político, social e cultural.

Destacar alguns deles não é fácil. Contudo salientamos o Guardador de Rios, logo na nota introdutória e o artigo E Se Obama fosse Africano? a justificar o título da obra e que reflecte a emoção que Mia Couto sentiu quando um mulato, descendente de África, derrotou a clique inculta e das mais reaccionária que governou os Estados Unidos e impôs ao Mundo guerras, violência e violações sistemáticas da Carta das Nações Unidas e dos mais elementares direitos humanos. Mas ao referir-se àquela eleição o autor não perde o sentido das realidades e a visão crítica sobre o comportamento de certos políticos africanos como podemos observar por estas transcrições.

... Sejamos claros: Obama é negro nos Estados Unidos. Em África ele é mulato. Se Obama fosse africano, veria a sua raça atirada contra o seu próprio rosto. Não que a cor da pele fosse importante para os povos que esperam ver nos seus líderes competência e trabalho sério. Mas as elites predadoras fariam campanha contra alguém que designariam por um «não autêntico africano ».

... No mesmo dia em que Obama confirmava a condição de vencedor, os noticiários internacionais abarrotavam de notícias terríveis sobre África. No mesmo dia da vitória da maioria norte-americana, África continuava sendo derrotada por guerras, má gestão, ambição desmesurada de políticos gananciosos. Depois de terem morto a democracia esses políticos estão matando a própria política. Resta a guerra, em alguns casos. Noutros, a desistência e o cinismo.

Sem dúvida, um livro para se ler com urgência.

Ver todos os textos de J. C.