O capitalismo global e o Império do Mal

Nº 1707 - Primavera 2009
Publicado em Internacional por: Ulpiano Nascimento (autor)

Podemos dizer que a crise actual gerada na economia norte-americana envolveu todo o mundo.

Procuremos pois analisar esta crise em linhas muito gerais, com origem no mundo financeiro, e com centro nos Estados Unidos.

E para melhor compreender esta crise global acompanhemos a evolução do sistema capitalista nas últimas décadas, o qual potenciou e diversificou as operações económicas e financeiras, em que a pressão dos estímulos do lucro e do poder atingiram níveis tais que permitiram desmandos e arbitrariedades várias, sem que a regulação e a supervisão do sistema se fizessem sentir, sobretudo no quadro financeiro, impedindo a crise em referência.

Os desmandos, as alavancagens com pouca transparência, ferindo éticas de comportamentos estão na origem desta crise financeira, na gestão do capitalismo que hoje afecta todo o planeta.

De facto, são influências, alianças, pressões políticas, fomento do individualismo e do poder militar, sempre com sentido de dominar, acções estas e outras que começaram a surgir com clareza a partir do fim da II Grande Guerra, motivadas pelos fortes interesses da economia norte-americana em crescendo a qual, temos de reconhecer, beneficiava da experiência colhida anos antes, através das suas relações com os países vizinhos da América Latina, os quais se tornaram praticamente extensões da sua economia, como resultado da grande superioridade do seu desenvolvimento económico, cultural e também do seu poder militar.

Domínios estes que foram quase sempre acompanhados por uma espécie de “cultura de ditadores”, em que os Estados Unidos se especializaram e dela se serviram para concretizar a sua prática de domínio sobre esses povos latino – americanos, sem necessidade de recorrer à ocupação territorial.

Tudo começa, verdadeiramente, em plena “Guerra Fria”, com a descolonização no seu termo, em que os Estados Unidos de parceria com a Inglaterra estabeleceram a paridade entre o padrão ouro e o dólar e a seguir promoveram a liberalização internacional das relações comerciais de bens, serviços e capitais, através sobretudo da Organização Mundial do Comércio (OMC).

O mercado que se abriu então ao mundo, à livre e intensa concorrência, que se tornou bastante mais alargado em participações, diversificações e em valores que despertaram novas forças e interesses, mas tudo sob o poder dos Estados Unidos, agora transmitindo claramente uma política global imperialista.

Esta visão global, cuja competitividade no sector financeiro foi e é notoriamente pouco controlada e desregulada, encerra riscos para uma estabilidade sócio-económica que se impõe defender ao transe, tendo em conta a força das tentações do individualismo instalado, o qual como se sabe cede às permissividades, às promiscuidades, à corrupção, etc. etc., correntes na sua dinânmica.

Arbitrariedades, pressões que podem ainda ser agravadas, no frente a frente da concorrência entre as grandes potências por ferir, eventualmente, valores nacionalistas, patrióticos das mesmas, como a China, a Rússia, o Japão e a Índia, por exemplo.

Outro aspecto deste processo imperialista dos Estados Unidos que vem de longe, é a sua presença militar no Médio Oriente, através da qual procuram defender os seus interesses energéticos, naquela área, mas também dar ajuda a Israel, pressionados pelo poder que o “lobie” judeu desfruta no seu país.

Aliança exigente e sempre activa, que tem vindo a afectar o povo árabe e que por ventura é uma das causas do terrorismo anónimo que hoje se faz sentir no mundo Ocidental e que, por sua vez, serve de argumento justificativo da presença bélica norte-americana naquela área.

E neste sentido, mais recentemente, esta mesma política como reacção ao acto terrorista de 11 de Setembro, em New York, por via de um comportamento delirante de poder, invadiu o Iraque e logo depois o Afeganistão, com todo o seu poder militar, violentamente.

Guerras deploráveis que já mataram milhares e milhares de iraquianos e de afegãos e também alguns milhares de soldados norte-americanos e da NATO – guerras que prosseguem e que continuam a matar. E a matar agora em nome do terrorismo.

E tudo isto sucede sem que as instituições competentes internacionais como é o Conselho de Segurança das Nações Unidas, por exemplo, tivesse intervido com a devida autoridade.

E cheios de poder, os Estados Unidos prosseguem na sua política imperialista, procurando envolver, cercando os países seus potenciais inimigos, com bases militares, espionagem que tudo vigiam em defesa da sua política, em especial, com relação à Federação Russa e à República Popular da China, países estes que por sua vez reagiram a tal cerco, fortalecendo-se militarmente, com alianças entre si e países vizinhos.

Tenha-se presente que este domínio norte-americano, já no ano de 2001 contava para cima de 200 bases militares, espalhadas pelo mundo.

E as desigualdades sócio-económicas na vida das comunidades nacionais, mas também no plano internacional, não deixaram de se agravar, por via deste neoliberalismo económico, conduzido pelos Estados Unidos.

É evidente que esta pressão imperialista à base de neoliberalismo global começa a provocar legítimas reacções, as quais tendem a intensificar-se e, aqui e ali, surgem já movimentos de protesto, em espacial na América Latina, aproveitando as debilidades e o mal estar da economia dos E.U.A., que levaram alguns dos seus países a libertarem-se, tais como a Venezuela, a Bolívia e a Nicarágua, o que está animando outros países sul-americanos.

Entretanto, na dinâmica deste capitalismo global começam a surgir sinais de crise fi8nanceira na economia dos Estados Unidos com efeitos desastrosos e praticamente sem controlo, dada a forte presença do sector financeiro na sua economia, devido nele participarem os grandes operadores financeiros, cujos fundos, porém, movendo-se com escassa visibilidade e regulamentação e, portanto, permitindo a especulação.

Tudo indica que este importante sector do sistema se tornou o mais atractivo para a política expansionista norte-americana, através do qual penetrou noutros mercados. Sobre esta questão Daniel Strachman, chamou a atenção para o facto dos mercados terem depositado demasiada confiança neste sector, quando o mesmo se estima ser 50 vezes superior ao valor da economia real e não ser totalmente conhecido e muito menos estudado.

E os grandes problemas surgiram com a crise hipotecária naquela super potência ou seja no mercado do crédito imobiliário ( subprime), com várias repercussões no país e no mercado mundial, como se está a assistir com muita preocupação e alvoroço.

Assim, as condições de acesso ao crédito agravaram-se atirando desde logo para a falência do grande banco Lehman Brothers e o gigante de seguros American International Group ( AIG). Mas com estas falências e outras que todos os dias estão a aparecer, não se conhece ainda, verdadeiramente, qual a grandeza dos efeitos da crise, a qual se encontra em trânsito.

Ter presente também os efeitos desta crise sobre o sector social, na área do desemprego, de consequências imprevisíveis e de difícil contenção e que estão a atingir altas taxas de desemprego de 10% e mais.

Mas independentemente dos males aportados por esta crise, com origem nas relações financeiras, centradas nos Estados Unidos, movem-se outras mais antigas, ligadas à economia real, embora todas elas sejam produto do mesmo sistema em curso.

E, assim, quando o sistema cresce ou se agrava, automaticamente, gera mais desemprego, o que implica inevitáveis turbulências nos sectores público e privado, que ameaçam sobretudo a estabilidade económica-financeira, social e, naturalmente, política.

Que se pondere pois muito seriamente sobre as condições em que se processa o sistema, gerador de comportamentos menos éticos e morais.

A crise que se vive agora, sendo algo complexa, requer terapêuticas urgentes e rigorosas, ainda que as suas implicações económicas, sociais e políticas, não estejam suficientemente identificadas, sendo um dos seus mais irresponsáveis gestores, George W. Bush, com a sua prepotente governação, que alguém classificou como de “Império do Mal”.

“Império do Mal” que nestas eleições para a Presidência da República, ergueram Barack Obama como o grande salvador da crise, através das múltiplas e gigantescas manifestações que lhe dedicaram, contendo ideias, reivindicações, etc. etc.

Obama apareceu assim apoiado e aclamado pelos povos do mundo inteiro, desde a América até à Ásia, desde a Europa até à África e à Austrália, e algo prisioneiro a essas calorosas manifestações.

Caso único na política eleitoral, envolvendo tantas adesões e esperança para um presidente que iria enfrentar uma situação caótica deixada pelo seu antecessor no domínio sócio-económico, mas também em relação à defesa do meio ambiente e da Paz no mundo.

Neste enfrentamento entre os dois candidatos, um democrata e o outro republicano, desde logo Obama adquiriu uma certa vantagem, vencendo a sua rival no Partido, a Senhora Cliton, muito embora fosse negro. Mas logo depois foi muito favorecido em relação ao seu adversário republicano, pela deplorável crise financeira deixada por Bush, mas também pelo seu próprio prestígio, pela qualidade das suas conferências e intervenções e livros que escreveu.

Presidente este que pelas manifestações, recepções e honras que colheu tão espontaneamente, parece ter vindo do outro mundo, cheio de virtudes e de poderes disposto a enfrentar e a corrigir o estado caótico da situação do País. Um País densamente capitalista e fortemente marcado pelo individualismo e uma classe média e alta dominante, um Estado instrumentalizado ao serviço do grande capital e com notória ausência de ideologias.

Grandes obstáculos e resistências vai enfrentar Obama, em nome de um capitalismo global ético e moral, que não será fácil, por ser algo utópico…

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