25 de Abril na Seara Nova, Maio de 1974, edição especial da Seara Nova

Nº 1707 - Primavera 2009
Publicado em Memória por: Redaccao Seara Nova (autor)

Com a manchete a ocupar um terço da primeira página - “O Povo Unido Jamais Será Vencido” -, a edição de Maio de 1974 da Seara Nova chegou com algum atraso, devidamente explicado aos seus leitores e assinantes. Ao tempo, Rodrigues Lapa era o director da revista e Vasco Martins o director-adjunto, mas foi José Saramago quem escreveu o emblemático editorial que, agora, 35 anos passados sobre a madrugada libertadora, se recorda.

Uma foto mostra o povo na rua e por baixo a explicação para o atraso com que a edição de Maio de 1974 chegou aos seus leitores: “A verdade é que os inesquecíveis acontecimentos de 25 de Abril e o que se seguiu nos colheram com a revista praticamente concluída, colocando-nos perante duas opções: publicar na mesma o número, ou elaborar um novo”. A segunda opção vingou e daí que a edição tenha sido refeita, contendo depoimentos dos que integravam o seu corpo redactorial, nomeadamente de Lopes Cardoso, Fernando Correia, Sottomayor Cardia, Adelino Gomes, Pedro da Silveira, Ulpiano Nascimento, Albano Lima e um artigo de António Reis intitulado “Uma via portuguesa para o socialismo?”.

Nas páginas da edição especial figura ainda o programa do MFA e dois textos sobre a situação vivida, um subscrito pelo Partido Comunista Português, outro pelo Partido Socialista. Porém, é o editorial, da autoria do Prémio Nobel da Literatura de 1998, José Saramago, que agora se destaca, porquanto, escrito “em cima do momento” reflecte o sentir do colectivo seareiro.

Escrevia Saramago: “O tamanho do desastre português dos últimos quarenta e oito anos avalia-se melhor na surpresa causada pela ousadia do programa do Movimento das Forças Armadas. Sujeito a todas as repressões e violências, dominado por um obscurantismo ideológico sistemático, explorado até ao sangue pelos filhos e afilhados do fascismo, desprezado todos os dias pela hipocrisia da família salazarista e marcelista, - o povo português, mesmo nos seus sonhos mais desligados da realidade, não esperava ver-se, em vinte e quatro horas, liberto de uma polícia criminosa, de uma censura criminosa, logo, de um governo criminoso”.

Saudando o compromisso das Forças Armadas com o povo português, o editorial de Maio de 1974 espreita também o futuro com o autor a interrogar “e agora?” e a prosseguir: “A revolta está feita, a revolução está por fazer. O País atingiu o nível mais baixo do vexame e da miséria, e vai ter que sair disso, ou morrerá de vez. É agora ao Povo que compete tomar o destino de Portugal nas suas próprias mãos. De uma vez para sempre. Acabou-se o tempo dos «patriarcas políticos», dos «chefes carismáticos», das «venerandas figuras». Agora todo um Povo terá de ser responsável ou aprender a sê-lo. Uma colectividade escravizada terá de transformar-se num povo de gente livre, capaz de construir o futuro a partir deste presente de ruínas”.

Por sua vez, o colectivo da Seara Nova - “órgão de doutrina e crítica” - assegurava estar “presente no processo político, como sempre o esteve enquanto foi vítima do arbítrio fascista” e apelava aos seus leitores, ao “povo inteiro” para que fossem “igualmente intervenientes em todos os momentos e circunstâncias”. E exigia “o cumprimento integral do programa do Movimento das Forças Armadas” e o “cumprimento integral do compromisso assumido pelo Movimento perante o País, quer na sua latitude, quer nos prazos fixados. O mínimo adiamento, o mínimo desvio, serão aproveitados pelas forças da reacção fascistas, pois deverá ser claro que não podemos ter a ilusão de que o fascismo desarmou”.

Porta-voz do sentir seareiro, José Saramago criticava ainda a reunião de Marcelo Caetano, Américo Tomás, Moreira Baptista e outros ex-ministros no Funchal, “como se de um governo no exílio se tratasse”, considerando ser “absurdo facultar-lhes condições a este ponto, propícias à conspiração, a que certamente vão entregar-se, com o apoio daqueles que ficaram no Continente para nos apunhalarem pelas costas. O Movimento das Forças Armadas deverá reflectir sobre os riscos que tal decisão comporta. É, desde já, responsável por eles”.

Viva e actuante, fiel depositária dos ideiais democráticos, a Seara Nova afirmava o seu apoio ao programa do Movimento das Forças Armadas (MFA) por o considerar “um primeiro e na verdade ousado passo no caminho da dignificação cívica do País”, bem como reafirmava “a certeza de que o Povo Português, senhor enfim do seu destino e obreiro dele, construirá aqui a sociedade socialista, única capaz de varrer definitivamente as desigualdades, as opressões económicas e políticas, a exploração do homem pelo homem”.

A via para o socialismo justificava, segundo o editorial de Maio de 1974, o seu apoio “exigente” ao programa do MFA, porquanto “a Seara Nova não passa cheques em branco, nem hipoteca a sua liberdade de julgamento”.

Na contra-capa da revista um cartoon de Sam, chumbado pela censura no dia 10 de Abril de 1974, glosava o patronato português. Em Liberdade, a Seara Nova pôde publicá-lo, mostrando que o mesmo havia sido cortado pela censura fascista.

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