Soeiro Pereira Gomes

Nº 1708 - Verão 2009
Publicado em Cultura por: Redaccao Seara Nova (autor)

Joaquim Soeiro Pereira Gomes nasce um ano antes da implantação da República e vive num período conturbado não só a nível nacional – Primeira República – como a nível mundial - I Guerra Mundial, Revolução de Outubro de 1917, o advento do fascismo em Itália, a crise económica que culmina com o crash da bolsa de Nova Iorque, a chegada do nazismo ao poder na Alemanha e, mais tarde, a guerra civil espanhola e a II Guerra Mundial. Todos estes acontecimentos vão marcar de forma indelével a vida e as opções de Soeiro Pereira Gomes.

Natural de Gestaçô, concelho de Baião, aos seis anos de idade, Soeiro Pereira Gomes abandona a terra natal para ir estudar para Espinho e fica entregue aos cuidados da madrinha e tia – a família, embora não sendo abastada, decide proporcionar aos seis seis filhos a oportunidade de estudar; Alice Gomes, irmã do escritor é também ela uma reconhecida escritora, para além, de professora e pedagoga, e o matemático Alfredo Pereira Gomes é outro dos seus irmãos.

Terminada a instrução primária, Soeiro Pereira Gomes ruma a Coimbra, onde se matricula na então chamada Escola Nacional de Agricultura, no curso de engenheiros agrícolas. Como aluno interno passa oito anos na escola, concluindo aos 19 anos o curso. Em Coimbra, a disciplina e severidade do internato não o impedem de frequentar os cafés e as tertúlias literárias. É um amante do desporto e do convívio social e na festa de formatura conhece a sua futura esposa, Manuela Câncio Reis.

No final da sua formação académica, a situação económica da família obriga-o a procurar um emprego com o qual possa sustentar-se. Na metrópole não encontra nenhum compatível com a sua formação e decide responder a um anúncio para uma colocação em Angola. Durante um ano excerce a sua actividade profissional naquela ex-colónia portuguesa, mas o cargo que ocupa não vai de encontro às suas expectativas e convive mal com o tratamento dado aos angolanos, contraindo ainda paludismo. Regressa a Portugal em pior situação económica do que aquela que tinha ao partir, mas mesmo assim decide não adiar o casamento.

Já casado, fixa-se em Alhandra, concelho de Vila Franca de Xira, onde o sogro lhe arranja emprego na Fábrica dos Cimentos Tejo. Soeiro Pereira Gomes integra-se facilmente naquela vila operária e, em pouco tempo, passa a frequentar o Alhandra Sporting Clube onde conhece e faz muitos dos amigos que o irão acompanhar vida fora.

Durante os primeiros anos em Alhandra, Soeiro Pereira Gomes participa activamente na vida local, participando na preparação de peças de teatro que são levadas ao palco do Teatro Salvador Marques. Amante das tertúlias literárias, frequenta em Lisboa as do Café Portugal e do Chiado. Entretanto, colabora na revista “Carnaval”, dirigida pelo sogro e, em 1935, escreve o seu primeiro conto, “O Capataz” que envia para publicação no “Diabo”; a censura impede a sua publicação. O texto adivinha já a consciência política de Soeiro Pereira Gomes, abordando o ambiente na fábrica e a exploração a que os trabalhadores estavam sujeitos.

As crianças, nomeadamente as filhas de famílias desfavorecidas, são outra das preocupações de Soeiro Pereira Gomes. Daí dois dos seus projectos: aulas de ginástica que ele próprio ministra aos filhos dos operários da fábrica em que trabalha e obras na Charca da Hortinha para que os meninos e meninas – novidade para a época, o desporto feminino – possam praticar natação. A mesma preocupação leva-o a um intenso trabalho com vista a criar bibliotecas nas colectividades de Alhandra, bem como cursos de alfabetização.

A sua consciência cívica e política obrigam-no a colocar-se ao lado dos desfavorecidos e a participar nas suas lutas. Em 1937, adere ao Partido Comunista Português, depois de ter granjeado a amizade e o respeito das gentes alhandrenses que nele reconhece a enorme solidariedade que o move. A sua participação nessas lutas obriga-lo-á a passar à clandestinidade em 1944. Quatro anos mais tarde torna-se membro do Comité Central do PCP.

Quando, com apenas 40 anos de idade, Soeiro Pereira Gomes morre, em Dezembro de 1949, a família decide levar o corpo para Espinho. Mas uma enorme manifestação de solidariedade para com o escritor obriga o cortejo fúnebre a ser desviado da estrada do Norte e a percorrer as ruas de Alhandra. Apesar de há quatro anos estar a viver na clandestinidade e afastado daquela que já considerava a “sua gente”, os alhandrenses não tinham esquecido o homem que em tantas ocasiões lhes desmontrara a sua solidariedade e amizade.

Um escritor neo-realista

É quando se fixa em Alhandra que Joaquim Soeiro Pereira Gomes inicia a sua vida literária. Primeiro foram as crónicas publicadas no “Diabo” que lhe publica também o conto “O Pàstiure”

A sua obra mais conhecida, “Esteiros”, é publicada em 1941 pela Editora Sirius e ilustrada por Álvaro Cunhal. É um romance assumidamente neo-realista, no qual Soeiro Pereira Gomes retrata a vida de um grupo de meninos de Alhandra que trabalham nos telhais, pequenas fábricas que utilizavam o barro dos esteiros para fabricar telhas e tijolos.

A realidade socio-económica que o rodeia influencia profundamente a escrita de Soeiro Pereira Gomes. Os seus contos reflectem o quotidiano difícil de quem trabalha, como são exemplo, “Pesadelo” (1940), “Coisas quase inacreditáveis” (1942), ou “Alguém” (1942).

O escritor deixou ainda um outro romance, “Engrenagem”. Uma obra inacabada dado que a sua construção foi interrompida com a passagem à clandestinidade e que reflecte sobre o impacto da implantação de uma fábrica num ambiente rural, abordando igualmente os impacto ambiental da insdustrialização.

Na clandestinidade, Soeiro Pereira Gomes escreve “Contos Vermelhos” em que narra a história da vida política clandestina, dedicando-os aos seus camaradas do PCP.

Na sua curta vida literária, o escritor impôs rigor à sua escrita, respeito pela forma e conseguiu o seu principal objectivo: colocar a sua arte ao serviço da causa do povo. Da sua escrita disse o cunhado Adolfo Casais Monteiro: “ Porque Pereira Gomes, se, socialmente, estava muito longe dos seus vagabundos e miseráveis, estava perto deles, bastava-lhe abrir os olhos, como abriu, para ver essas misérias e muitas outras à sua volta. Quero eu dizer que não fez expedições para 'colher material', não andou a escolher um tema com as características convenientes para levar a cabo a sua intenção de fazer 'arte social”.

Embora curta, a carreira de escritor permitiu a Soeiro Pereira Gomes escrever sobre a dura realidade social, fazendo retratos de uma de época em que, como o próprio disse, os homens e as mulheres não chegavam a ter tempo de serem crianças.

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