CINEMA - Gran Torino

Nº 1708 - Verão 2009
Publicado em Cultura por: Dulce Rebelo (autor)

O nome de Clint Eastwood avulta de novo ao surgir neste filme como realizador, actor e criador musical, deslumbrando-nos mais uma vez com a qualidade das suas imagens e da sua actuação. Excelente na manipulação da câmara, que enquadra rostos e ambientes, o realizador conta uma história simples, plena de emoções de grande intensidade, onde se equilibra o dramatismo com uma serenidade contida. O actor, no papel de Walt Kowalski de origem polaca, está em plena forma e compõe uma personagem singular, cujo comportamento vai evoluindo conforme a ocorrência dos acontecimentos, dando-nos no final um magnífico exemplo de como é sempre possível aprender ao longo da vida e mudar de atitude. Habituámo-nos a ver Clint Eastwood nos westerns de Sergio Leone (1964 – 66), onde interpretava o enigmático Homem Sem Nome, mas tornou-se inesquecível na figura de Harry Callahan ( A FÚRIA DA RAZÃO - Don Siegel, 1971), o duro inspector que perseguia implacavelmente os criminosos. Em 1992 realiza o filme IMPERDOÁVEL, para o qual compõe a música, contracenando com o seu filho Kyle. É um western triste, onde o actor veste a pele dum cantor country durante a Grande Depressão dos anos 30, que no final acaba por morrer. O filme recebeu na cerimónia dos Óscares quatro estatuetas, incluindo a do melhor realizador. Outro filme de referência é MILLION DOLLAR BABY – SONHOS VENCIDOS (2003), em que se destaca a interpretação de Clint Eastwood numa personagem cheia de humanidade num mundo cruel, que se confronta com uma dolorosa situação perante a qual é difícil decidir. No seu último filme, estreado recen- temente entre nós, o actor encarna a figura de Walt Kowalski, um mecânico reformado, veterano da guerra da Coreia, que habita o bairro de Detroit, e cujo bem mais precioso é um carro Ford Gran Torino 72, um símbolo dos tempos em que era útil e sabia como viver. Homem solitário, amargurado, mal refeito da perda recente da mulher, zangado com o mundo que não entende, racista, detesta o bairro, “invadido” por imigrantes asiáticos, e não tolera a presença do padre que insiste em trazê-lo à igreja. Desanimado com a indiferença dos filhos, empenhados em despachá-lo para um lar, apesar do seu excelente físico, para tomarem posse dos seus bens, Walt guarda junto de si a espingarda, símbolo da guerra, à espera do “ inimigo”, e marca o seu território com uma enorme bandeira americana que ondula ao vento. Um dia Thao (Bee Vang ), o jovem vizinho da comunidade asiática “hmong”, tenta roubar-lhe o Gran Torino, pressionado por gangues delinquentes, mas vê- se ameaçado pelos canos da espingarda de Walt. A mãe de Thao, para o punir da tentativa do roubo, obriga-o a trabalhar para o vizinho o que não agrada ao rapaz nem ao ex-combatente, que não quer ninguém próximo.

Mas a partir daqui Walt estabelece uma relação com Thao, assim como com a irmã mais velha deste, Sue (Ahney Her). Aos poucos, o homem solitário vai descobrindo nesta família numerosa, onde os mais velhos são tratados com o maior respeito e carinho, a prática de valores de união e inter-ajuda, de honestidade e de responsabilidade que não encontra na sua própria família, nem na “sua” sociedade. Os preconceitos racistas começam a ser revistos e o velho rezingão torna-se dialogante. Um dia liberta Sue das mãos de três rapazes negros e, de pistolão em riste, não os poupa com palavrões duros, assim como ao namorado branco de Sue, que não a defende e tenta antes captar a simpatia dos agressores para o seu lado. Walt passa a proteger os dois irmãos. Arranja um emprego para Thao, por intermédio dum amigo, e procura apetrechá-lo para a vida. Com Sue tem longas conversas, esclarecedoras sobre os costumes e princípios da comunidade “hmong”, encontrando grandes afinidades com a família vizinha, sempre pronta a convidá-lo para reuniões festivas. Mas os gangues que controlam o bairro não largam os seus protegidos e desafiam constantemente com desacatos quem os defende. A situação complica-se cada vez mais e Walt vai tomar uma atitude. O homem isolado, taciturno, desencantado com o mundo, vai revelar-se uma pessoa bem diferente, solidária, capaz de uma enorme generosidade, indo até ao sacrifício para que se faça justiça. Sobre a sua obra declara o realizador: «Esta película é como um western urbano crepuscular, onde o pistoleiro com passado acaba por redimir-se como um xerife respeitado». É um belíssimo filme a ver, a rever e com ele aprender. É uma obra prima do cinema moderno. O realizador escolheu alguns ama- dores para dar maior verosimilhança à história. É o caso dos jovens asiáticos Bee Vang e Ahney Her, numa excelente interpretação, assim como todo o elenco, sob a orientação sábia do grande mestre. Recorde-se que GRAN TORINO foi apresentado no último Festival de Cannes e o Júri atribuiu a Clint Eastwood a Palma de Ouro Honorária pela sua carreira. Gilles Jacob e Thierry Frémaux, da direcção do Festival, enalteceram o trabalho do actor e realizador, por representar «a síntese do classicismo e da modernidade do cinema americano» O seu nome foi ainda comparado com o de outros grandes realizadores do cinema mundial, tais como John Ford, Roberto Rossellini ou Robert Bresson, que marcaram gerações de cinéfilos. Por tudo quanto foi dito, é inexplicável que uma obra desta qualidade não tenha recebido qualquer nomeação para a gala dos Óscares. É bem certo que a fama nem sempre está do lado da justiça.

Ver todos os textos de DULCE REBELO