Sem semear ilusões

Nº 1708 - Verão 2009
Publicado em Editorial por: Revista Seara Nova (autor)

"A derrota dos partidos social-democratas no poder (do PSE que perdeu 100 eurodeputados), que resulta da sua subordinação às políticas liberais, objecto de intensa contestação popular e que, em boa verdade, justificam que tais partidos passem a ser designados por partidos social-liberais."

 

 

 

"A estrondosa derrota do PS e do Primeiro-ministro José Sócrates (perdidos mais de 550 000 votos relativamente a 2004), que é indesmentível condenação da política retrógrada e subordinada às orientações europeias e do grande capital, prosseguida ao longo de toda a legislatura."

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 


"Mesmo que existam alguns sinais de abrandamento da crise internacional, o que não é seguro, a crise portuguesa prosseguirá o seu caminho próprio, como já acontecia antecedendo a crise internacional."


"Uma mudança de política é indispensável e parte do povo português mostrou disso ter consciência. Não uma mudança qualquer, mas uma que propicie condições para uma ruptura com as políticas neoliberais, de direita."

 


"As eleições legislativas que aí vêm não serão por si só o meio definitivo de suster esta degradação da sociedade portuguesa. Mas serão certamente uma boa oportunidade de acentuar o descontentamento com as políticas de direita que os portugueses acabam de manifestar nas europeias, de fazer crescer eleitoralmente as forças com projecto progressista e de elevar o tom das exigências de real conteúdo democrático."

Diminuição do PIB, do Investimento, da Exportação, da Procura Interna; milhões de euros por utilizar dos fundos comunitários; aumento do défice externo, da dívida pública, do défice orçamental; agravamento do desemprego, do número de desempregados sem subsídio, da precariedade, do encerramento de empresas, do lay-off, da pobreza, das desigualdades sociais; degradação do sistema educativo, do serviço nacional de saúde, da segurança social; acentuação da descrença, da mediocridade do poder, do espanto com o esvaziamento da democracia … e ainda 2009 só vai a meio!

É este quadro deprimente que envolverá as eleições do ano, a primeira das quais já se realizou, com resultados que têm leituras distintas, a nível europeu e a nível nacional.

No plano europeu duas conclusões são relevantes:

- A participação novamente muito baixa (43% dos eleitores), a mais baixa de sempre, apesar dos apelos desesperados das instâncias comunitárias e dos poderes nacionais. A escassa participação vem mais uma vez comprovar a ausência de identificação dos povos com o processo de construção desta UE, cujo apoio vem principalmente dos sectores empresariais e das camadas sociais de rendimentos superiores.

- A derrota dos partidos social-democratas no poder (do PSE que perdeu 100 eurodeputados), que resulta da sua subordinação às políticas liberais, objecto de intensa contestação popular e que, em boa verdade, justificam que tais partidos passem a ser designados por partidos social-liberais.

No plano nacional são de sublinhar:

- O elevado nível de abstenção, que significará uma manifestação de desinteresse e descrença e, simultaneamente, uma manifestação de protesto contra as políticas que têm vindo a ser prosseguidas, a que se associa a percentagem de cerca de 5% de votos brancos, indício claro de um voto de protesto.

- A estrondosa derrota do PS e do Primeiro-ministro José Sócrates (perdidos mais de 550 000 votos relativamente a 2004), que é indesmentível condenação da política retrógrada e subordinada às orientações europeias e do grande capital, prosseguida ao longo de toda a legislatura.

- O avanço do PSD, enfatizado pela comunicação social como o grande vencedor das eleições, que não poderia ter deixado de beneficiar do desastre socialista, mas a fraca percentagem com que se distanciou representa uma vitória de Pirro.

- A subida de votação à esquerda, que somou 21,5% dos votos expressos. A CDU, com uma subida de 70 000 votos, pela sua afirmação ideológica clara, pelas suas propostas alicerçadas no trabalho dos seus eurodeputados e pela participação e mobilização de milhares de activistas na campanha eleitoral, alargou e consolidou a sua força eleitoral.

- O BE, beneficiado pelo carinho que a comunicação social lhe tem dispensado (por méritos próprios do BE e por interesse objectivo de alguma comunicação social pouco isenta) e tomando posições políticas pontuais, mas sempre populares, teve assinalável subida eleitoral, que lhe valeu três eurodeputados. O BE terá aberto caminho para ocupar de forma significativa um espaço eleitoral que pertenceria à social democracia (dita socialista, em Portugal).

Meio ano passado. Outro tanto por vir, contendo ainda as eleições legislativas e as autárquicas de Setembro/Outubro.

Que perspectivas?

Não vale a pena semear ilusões …

É espectável que, com o pico sazonal do turismo, possa haver alguma animação económica (ou aparência de), mas no pós-férias a situação de vida dos portugueses vai agravar-se.

E mesmo que existam alguns sinais de abrandamento da crise internacional, o que não é seguro, a crise portuguesa prosseguirá o seu caminho próprio, como já acontecia antecedendo a crise internacional.

Uma mudança de política é indispensável e parte do povo português mostrou disso ter consciência. Não uma mudança qualquer, mas uma que propicie condições para uma ruptura com as políticas neoliberais, de direita.

Uma ruptura com a submissão à eurocracia e às instituições e orientações europeias. Uma ruptura com a subordinação aos interesses económicos dominantes nacionais e internacionais. Uma ruptura com a complacência (não digamos mais) perante a corrupção política e económica. Uma ruptura com o esvaziamento das funções sociais do Estado e com a inépcia para assegurar o funcionamento da máquina estatal (incluindo os “estranhos” critérios na opção dos investimentos públicos).

Um governo como o de Sócrates, por muito que agora tente alterar o estilo para uma aparência de humildade e respeito democrático, será incapaz de romper com a política realizada ao longo de toda a legislatura, porque não lho permitem os interesses a que está ideologicamente enfeudado.

A alternância política entre os partidos do chamado “arco do poder” ou “centrão” já mostrou sobejamente que permite alternar mas não alterar.

A sociedade portuguesa foi defraudada nas esperanças e potencialidades que a Revolução de Abril criara. Domesticada nos limites de uma democracia formal esvaziada de visão libertadora, desliza perigosamente para um alheamento dos valores da solidariedade, da cultura, do amor pátrio, da repugnância ao oportunismo e ao primarismo. Foi neste quadro que se criaram grandes fortunas de origens obscuras e que chegaram ao topo das responsabilidades públicas indivíduos sem horizontes colectivos.

As eleições legislativas que aí vêm não serão por si só o meio definitivo de suster esta degradação da sociedade portuguesa. Mas serão certamente uma boa oportunidade de acentuar o descontentamento com as políticas de direita que os portugueses acabam de manifestar nas europeias (bem como em grandiosas manifestações populares), de fazer crescer eleitoralmente as forças com projecto progressista e de elevar o tom das exigências de real conteúdo democrático.

Seara Nova, pelo seu lado, continuará firme na defesa da cultura, da democracia, da inteligência, do progresso. O presente número, com artigos que são autêntica pedrada no charco dos valores dominantes, é disso honroso exemplo.


É desesperante a situação em que Portugal se encontra.

São preocupantes os aspectos e indicadores financeiros, económicos, sociais, mas é limitativo confinar a tais planos a gravidade da situação actual do nosso País. No entanto são tais indicadores que em primeira análise dão a exacta medida das nefastas políticas que têm sido adoptadas e da fraca qualidade dos governantes que têm estado à frente dos destinos deste País, bem como das distorções do sistema económico em que estamos inseridos.

Dizemos que é limitativo, porque a degradação da sociedade portuguesa – e igualmente da europeia – é grave noutros planos, como o político, em que a democracia está restringida a aspectos formais, sempre mais limitados; como o cívico, onde o envolvimento das populações e dos cidadãos individualmente considerados nos destinos do País é cada vez menor, porque menos estimulado ou menos apoiado (caso do movimento associativo); como o cultural, onde apesar de muitas e interessantes manifestações, estas se destinam predominantemente a elites e os estímulos junto dos mais jovens são muito reduzidos; como o ético, com os exemplos pouco edificantes dos representantes dos poderes em casos de corrupção conhecidos ou suspeitados, com o desprestígio da justiça, provavelmente consequência principal de legislação inadequada, mas cuidadosamente elaborada para discreto benefício dos poderosos; e com os valores dominantes do sucesso individual sem olhar a meios, do individualismo exacerbado, da aceitação propagandeada de uma sociedade de injustiça e desigualdade social, temperada de uma caridadezinha quanto baste.

Haverá uma saída a curto / médio prazo?

Olhemos sucintamente os planos financeiro, económico e social: uma dívida externa elevada, pública, mas principalmente privada, com a banca descapitalizada (apesar das ajudas); um aparelho produtivo a ser extensa e servilmente destruído, desde o primeiro governo de Cavaco Silva; um mercado interno em retração, provavelmente cada vez mais acentuada dado o ataque aos direitos laborais e o crescimento do desemprego; a errada opção de privilegiar as exportações, constrangidas pela estagnação europeia; as dificuldades e ausência de apoios suficientes às pequenas e médias empresas, cujo peso é determinante no tecido produtivo do país; um desemprego descontrolado; a diminuição da parte dos salários no rendimento nacional; o nível muito baixo das reformas e o crescimento das manchas de pobreza.

A culminar tudo isto, uma política cega pela vulgaridade do neoliberalismo, sob a inadequação e malvadez das receitas da troika FMI/UE/BCE, condicionada pela inexperiência dos governantes e submetida às ordens das maiores potências europeias e a um patronato que ainda vegeta em ideias do século XIX.

Mas o descontentamento vai aumentando. Seria impensável que assim não fosse: a política em curso ofende as expectativas e os direitos de trabalhadores, de jovens e de idosos, dos estudantes, das forças de segurança e das forças militares, dos pequenos e médios empresários e de todos os sectores do funcionalismo público.

O que há de novo é que a resignação vai dando lugar à contestação e ao protesto.

Aí estão a comprová-lo as manifestações, concentrações, vigílias, abaixo-assinados e petições, vaias aos governantes e ao PR nas suas deslocações, contestação crescente na blogosfera. E acima de tudo a enorme manifestação sindical de 11 de Fevereiro, que no dizer da CGTP-IN transformou o Terreiro do Paço em “Terreiro da Luta” e a coragem desta em convocar uma greve geral para 22 de Março.

Esta luta alargada pode impor que a política nacional responda às reais necessidades do nosso País, na correcção dos desequilíbrios antes assinalados, em vez de estar subordinada à troika - instrumento do grande poder financeiro.

É isto possível na União Europeia e no espaço do euro?

A integração europeia sempre foi um projeto do grande capital europeu. Mas incorporou ideais democráticos e a defesa dos valores da liberdade, instituiu o modelo social europeu, inscreveu como seus princípios a coesão económica e social e a harmonização no progresso. Outros povos europeus – gregos, espanhóis, franceses, irlandeses, ingleses, belgas – lutam contra a actual política retrógrada imposta pela UE e respectivos governos. Os portugueses não estão sós na sua luta; e hão-de estar determinados a não seguir o caminho que nos esperará se continuarmos a deixar que aqui se reproduzam as selváticas medidas impostas ao povo grego.

Por cá, na Seara Nova, vamos dando o contributo possível na defesa dos valores democráticos, na promoção da cultura, na exigência de justiça social, na denúncia da política que não olha aos interesses do povo, tudo em respeito das tradições nobres desta revista de 90 anos.

Estamos a comemorar o 90.º Aniversário em justa homenagem aos que construíram e mantiveram esta revista, sempre num plano elevado que a colocam como uma referência da nossa democracia e da história portuguesa do século XX.

Dentro das comemorações “90 Anos Seara Nova” este é o terceiro número da revista que dá destaque ao 90.º Aniversário. Já realizámos duas Conferências Seara Nova, sob os temas “O Projecto Seara Nova” e “Leituras da Crise”, que foram assinaláveis êxitos, pela qualidade das intervenções dos oradores, pelo número de presenças e pela elevação dos debates. Inauguramos no Palácio Galveias, gentilmente cedido pela Câmara Municipal de Lisboa, a Exposição Itinerante que tem por título “90 Anos de Intervenção Cívica e Cultural”, onde se manterá até ao final de Abril.

Entre outras iniciativas, está em preparação a 3.ª Conferência, sobre Comunicação Social, prevista para finais de Maio e organiza-se a lista das entidades e locais por onde circulará a Exposição. Esperamos contar com a presença dos nossos assinantes e leitores.

Nestas ações temos o apoio de uma Comissão de Honra, identificada noutro local desta revista e o patrocínio institucional da Câmara Municipal de Lisboa, Fundação Calouste Gulbenkian, Casa Museu Abel Salazar, Fundação Mário Soares e Fundação José Saramago.

As comemorações do 90.º aniversário da Seara Nova têm igualmente servido para divulgar a revista e é com agrado que registamos o número crescente de visitas ao sítio da internet inaugurado no âmbito destas comemorações e os quase 2.000 amigos que nos seguem no facebook.

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