O mundo suspenso do efeito Obama

Nº 1708 - Verão 2009
Publicado em Internacional por: Carlos Santos Pereira (autor)

(Entrada) Um discurso profundamente inovador, a promessa de mudanças em todos os quadrantes fizeram já de Barack Obama um verdadeiro fenómeno político. Depois dos traumas da “era Bush”, o novo presidente americano anuncia-se como um sinal de esperança e mobiliza expectativas por todo o Mundo. Mas as interrogações começam igualmente a surgir. Para além do marketing político e da capacidade de sedução do novo presidente americano, só o teste das crises que se avizinham dirá do alcance real do “efeito Obama”.

O fenómeno começou a ganhar corpo ainda durante a campanha para as presidenciais de Novembro de 2008. A eleição de Barack Obama foi aclamada em todo o Mundo num clima de euforia sem precedentes. O carisma do novo presidente americano, os seus traços africanos, os ascendentes muçulmanos e a sua juventude prenunciavam desde logo um verdadeiro virar de página na América e no Mundo.

O já célebre discurso da tomada de posse do novo presidente, a 30 de Janeiro deste ano, mobilizou uma vaga de entusiasmo e de esperança por todo o Mundo. A América assumia-se de novo como pioneira da mudança.

Barack Obama encarnou todo um imaginário de mudança, de uma nova atitude da América no Mundo, de um “novo começo” (“a new begining”) capaz de transformar todo o quadro internacional.

“Venho ouvir” e “ partilhar ideias” - eis a mensagem que tem pontuado os discursos de Barack Obama, sublinhando que doravante a América estava tão decidida a ouvir como a falar.

Em menos de meio ano de mandato, o novo presidente americano prometeu fechar Guantanamo, admitiu a existência de tortura e revelou os relatórios da CIA, propôs-se desbloquear do diálogo com Teerão e com a Rússia, estendeu a mão ao Islão e multiplicou sinais de uma nova atenção às sensibilidades religiosas e culturais ao lidar com os movimentos extremistas e terroristas.

América is back!” – reconhecem mesmo os mais cépticos. A “Obamomania” é já uma dado novo da cena política planetária. Os mais optimistas falam numa “nova era” ou mesmo numa “revolução” nas relações internacionais.

Recuperar o prestígio da América

A romagem do novo inquilino da Casa Branca pelo Velho Continente, no final de Abril-início de Maio deste ano, veio consolidar e amplificar as expectativas em torno do novo presidente americano. Barack Obama transformava-se num verdadeiro fenómeno político, um dado inteiramente novo na cena política política americana e no quadro internacional.

Mal desembarcado em Londres (28 de Abril), o encontro com Dmitri Medvedev, a promessa de um relançamento das relações russo-americanas depois do clima de autêntica “guerra fria” precipitado pela crise russo-georgiana de Agosto de 2008, e o anúncio do reinício do desarmamento nuclear, virtualmente interrompido desde a conclusão do START I de 1991 por George Bush e Mikhail Gorbatchov.

Era o arranque de cinco dias de ofuscante glamour pessoal e diplomático. Na cimeira do G20, Obama liderou uma série de iniciativas destinadas a sacudir a crise e a relançar a economia mundial. Em Estrasburgo e nas margens do Reno prometeu uma nova vida à NATO e uma nova era nas relações transtlânticas para o século XXI. Em Praga prometeu uma nova era nas relações com a Europa e em Istambul lançou um novo apelo ao Mundo islâmico repetindo que “os EUA não estão nem jamais estarão em guerra com o Islão” .

Barack Obama cumprira a 100 por cento os objectivos desta exímia operação de “diplomacia pública”. O novo presidente americano transformara-se já num fenómeno de popularidade, dera passos decisivos para restabelecer o prestígio dos EUA no Mundo e dava provas de um estilo de liderança sem paralelo nos anais da Casa Branca.

A América de Barack Obama estava mais empenhada em consultar os seus aliados, mais disponível para trabalhar com outras nações e a ONU e mais atenta às sensibilidades religiosas e culturais dos adversários, em particular dos movimentos extremistas e terroristas.

Ruptura com a era Bush

A cada palavra, a cada gesto, Barack Obama marca um vincado contraste com a “era Bush”. Certo efeito de deslumbramento e a ausência de recuo histórico amplificaram ainda esse sentimento de uma ruptura definitiva com os traumas herdados do seu antecessor.

Em rigor, e mesmo se o novo presidente americano assume esse processo com uma coerência inteiramente nova, as mudanças ligadas a Obama inscrevem-se num processo que ultrapassa o render da guarda em Washington.

A revisão da política americana no Iraque e a perspectiva de uma retirada vinham amadurecendo já desde o segundo mandato George W. Bush. Tal como o reforço do contingente americano no Afeganistão e a adopção de uma nova táctica no terreno ou as promessas de relançamento da relação transatlântica.

As tensões que confrontam a América têm razões que extravasam largamente a política da Administração Bush, mesmo se decisões como a guerra do Iraque vieram agravá-los de forma dramática. Os dossiers mais espinhosos do relacionamento com Moscovo vêm da era Clinton, não do mandato Buch.

As manifestações deunilateralismo” dos EUA e de actuação à margem da legalidade internacional e dos próprios parceiros datam em rigor do ataque da NATO à Jugoslávia, na Primavera de 1999. O Iraque limitou-se a retomar essa prática no contexto específico do pós-11 de Setembro.

A campanha das alegadas “armas de destruição maciça” com que Washington procurou justificar o ataque ao reino de Sadam Hussein, em Março de 2003, limita-se a retomar as técnicas de manipulação dos dados do conflito entre sérvios e albaneses e dos argumentos humanitários contra a “limpeza étnica” que “legitimaram”, quatro anos antes, a campanha de bombardeamentos contra a Sérvia e a ocupação do Kosovo.

Mas o “fenómeno Obama” era já imparável. A “cruzada contra o terrorismo”e as campanhas de “exportação da democracia” eram coisa do passado.A juntar à sedução da palavra, Barack Obama assinava já uma série de iniciativas indiciadoras de uma nova visão estratégica e de um sentido do realismo e de pragmatismo que marca forte contraste com a política do seu antecessor.

Mão estendida ao Islão

“Vim aqui procurar um novo começo entre os EUA e os muçulmanos de todo o Mundo, um começo baseado no interesse e respeito mútuo”. Um mês depois da triunfal romagem à Europa, Barack Obama escolhia o Cairo para estender a mão aos muçulmanos de todo o planeta, e em particular ao mundo árabe, onde se situam alguns dos desafios estratégicos mais delicados da América

Um notável exercício de eloquência e de sedução. Obama invocou o “sagrado Corão” e pontuou o seus discurso de evocações de um Islão civilizador, patrono da álgebra ou da medicina. Numa nota pessoal, recordou os chamamentos do Muezzin à oração durante a sua infância na Indonésia, lembrou que o Islão, tal como o cristianismo ou o judaísmo, é “também parte da América” e prometeu lutar contra os estereótipos anti-islâmicos.

Fiel às tradições da América, não se coibiu de evocar os “valores universais” como a democracia, mas sublinhou a convicção de que “uma nação não a pode impor a outra”. Uma atitude que marca de novo a ruptura com a “era Bush” e os métodos de implantação da democracia derrubando e refazendo regimes ao sabor dos interesses dos EUA.

Uma mensagem que constituiu ao mesmo tempo um delicado exercício de equilíbrio e emitiu sinais de uma nova abordagem dos conflitos do Médio Oriente.

Obama fez um novo gesto em relação a Teerão, não hesitando mesmo em admitir o peso da História nos contenciosos entre os EUA e o Irão, do papel dos EUA no derrube do primeiro-ministro Mossadegh ou os reféns americanos durante a revolução iraniana de 1979.

Não se esqueceu, ao mesmo tempo, de sublinhar que os laços entre os Estados Unidos e Israel são “indestrutíveis” e de evocar a memória da Shoah contra todas as tentações revisionistas.

Ciente de que um discurso não basta para ultrapassar anos de “medo e de confronto”, Obama quis juntar os actos à palavra. Lembrou as profundas humilhações sofridas pelos palestinianos sob a ocupação israelita, assumiu de novo o compromisso com a criação de um Estado palestiniano viável e insistiu que Israel devia parar com a expansão dos colonatos israelitas na Margem Ocidental.

Face aos bloqueios no diálogo israelo-palestiniano, Barack Obama empenhou-se de novo no regresso ao “quadro israelo-árabe” – um Estado palestiniano em troca do reconhecimento e de relações diplomáticas dos países árabes com Israel – que evocara na véspera em Riade com o rei Abdallah, um dos patronos da iniciativa de paz com Israel adoptado pela Liga Árabe em 2002.

Os dilemas da aposta iraniana

Quando, dias depois, a coligação pró-ocidental encabeçada por Saad Harir bateu a aliança pró-iraniana e pró-síria liderada pelo Hezbolah, analistas sauditas falaram de “efeito Obama” ou seja de um primeiro resultado do discurso do Cairo.

Na realidade, nas opções do eleitorado libanês terão pesado outros factores como as ameaças de corte do auxílio militar e financeiro americano (e provavelmente saudita) e o espectro de um isolamento do país.

Só o tempo dirá dos “efeitos” reais deste esforço de reconciliação com o Mundo muçulmano lançado por Barack Obama. E as novas iniciativas prometidas pela nova Administração Americana no Médio Oriente não tardariam a ver-se confrontada com dois testes cruciais.

De início, Washington reagiu com prudência e notória contenção aos confrontos que marcaram as manifestações de protesto da oposição nos dias a seguir ao anúncio da vitória de Amadinejad, nas presidenciais iranianas de 12 de Junho.

O vice-presidente Joe Biden não escondeu as dúvidas dos EUA sobre a legitimidade dos resultados e a inquietação perante a violência e as limitações à liberdade de expressão em Teerão. Mas Obama apostava claramente na prudência, evitando gestos que pudessem ser percebidos como uma ingerência na vida interna do Irão e virar-se contra Mousavi e os seus fiéis.

Esse exercício de contenção não resistiria ao agravar da crise. As autoridades de Teerão não tardariam a denunciar “mão estrangeira” nos distúrbios e o líder supremo ayatollah Ali Khamenei falou abertamente de agentes estrangeiros por detrás dos protestos. “Eles pensaram que o Irão era a Geórgia” – disse Khamenei, evocando a “revolução rosa” que instalou no poder em Tbilissi o pró-ocidental Saakashvili em 2005.

Cada vez mais pressionado, Barack Obama via-se obrigado a abandonar a contenção até aí mantida. Horas depois do discurso de Khamenei, Obama advertia que “o mundo está a observar” o que se passa em Teerão e instava o regime iraniano para “pôr termo a todas as acções injustas contra o seu próprio povo” e a dar provas de respeito “pelos direitos universais de reunião e liberdade de expressão” .

A prazo, a vaga de contestação ao regime iraniano pode abrir a Washington uma importante janela de oportunidade, mas, para já, a escalada de tensão entre Washington e Teerão ameaça pôr em causa uma das mais importantes apostas estratégicas de Barack Obama na região.

O teste israelo-palestiniano

O arranque do mandato do novo chefe da Casa Branca coincidiu praticamente com uma sangrenta intervenção israelita na faixa da Gaza e a Casa Branca multiplicou desde logo sinais do empenho americana em relançar as esperanças de paz através de uma abordagem do conflito mais equilibrada e atenta aos interesses das duas partes.

A questão da criação de um Estado palestiniano surgiu desde logo como uma peça incontornável no relançamento das esperanças de paz para o Médio Oriente. E o discurso do Cairo ainda mais alimentou as expectativas de uma nova política de Washington na área.

A resposta de Telavive não tardaria. Num discurso pronunciado por Benjamin Netanyahu na Universidade de Bar-Ilan, o primeiro-ministro israelita admitia pela primeira vez a hipótese de um Estado palestiniano, mas avançando ao mesmo tempo condições que inviabilizavam virtualmente esse cenário. Israel só admitiria um Estado palestiniano totalmente desmilitarizado e, na prática, desprovido de atributos fundamentais de soberania.

Netanyahu garantiu ainda que o seu Governo não tinha qualquer intenção de congelar os colonatos na Cisjordânia e exige um reconhecimento formal do Estado de Israel antes de se dispor a negociar com os vizinhos árabes.

Ciente de que quisquer cedências incorreriam no risco de uma ruptura com os sectores mais radicais da coligação a que preside, Netanyahu procura claramente ganhar tempo. Deixou claro que não tenciona ceder e nem um milímetro dos territórios ocupados por Israel e rejeitou liminarmente qualquer hipóteses de concessões na questão dos refugiados palestinianos ou do estatuto de Jerusalém.

O facto é que o discurso de Netanyahu, prontamente denunciado por responsáveis tanto da Autoridade Palestiniana como do Hamas, entrava frontalmente em choque com os propósitos de Obama e ameaçava as expectativas de um relançamento do processo de paz na região.

Tal não impediu, ainda assim, que Barack Obama classificasse o discurso de Netanyahu como “um importante passo em frente”. Uma reacção que, para além do jogo diplomático, levanta sérias interrogações quanto ao real empenho e à capacidade de manobra americana no conflito.

Os dilemas da transição

Análises e prospecções estratégicas surgidas nos últimos tempos nos EUA prevêem que a liderança americana terá que se ajustar a novas realidades e novos desafios, a uma transição incerta da hegemonia para um mundo “multipolar”, com as incertezas e os riscos inerentes a todas as fases de transição sistémica, historicamente marcadas por convulsões e conflitos armados.

A resposta da América de Obama a esses novos desafios é ainda uma incógnita. E nada garante para já que se vá assistir a uma revisão global dos pressupostos da política americana.

“Nada interessa mais aos EUA do que uma Europa forte e dotada de uma robusta capacidade militar” – garante Obama, insistindo ao mesmo tempo que “os desafios são comuns e as responsabilidades devem ser partilhadas”.Washington não emitiu, porém, qualquer sinal claro de disponibilidade parair além da tradicional “partilha do fardo”, ou que a América de Obama esteja preparada para garantir aos aliados maior capacidade de definição de estratégias.

Para além dos “gestos” em direcção aos adversários, a Administração Obama ainda não fez concessões reais. O novo presidente multiplicou sinais de abertura em direcção a Teerão, mas em rigor estão ainda por reformular os termos do ultimato ao programa nuclear iraniano.

Falou de um relançamento do diálogo com a Rússia e no reinício do desarmamento estratégico, mas a NATO não se coibiu de realizar manobras militares em larga escala na Geórgia num momento em que as tensões entre Moscovo e Tbilissi sobem de novo – e curiosamente no preciso momento em que o regime aliado de Mikhail Saakashvili era contestado nas ruas.

Dias antes da viagem à Europa, Obama anunciara uma nova estratégia americana no Afeganistão, prometendo rever completamente os métodos da Administração Bush e apostar sobretudo no esforço diplomático e num reforço do apoio à reconstrução do país.

Mas, para já, a estratégia da nova Administração passa antes de mais por um acentuado reforço da presença militar no Afeganistão e por uma forte pressão sobre Islamabad para empenhar o exército paquistanês no combate aos talibã.

Uma liderança renovada

Até agora a “revolução Obama” viveu basicamente de ocasiões de celebração, de um excepcional “estado do graça” e de uma vasta manobra de marketing político. Em última análise, e apesar dos traços específicos que o distinguem, o “novo começo” anunciado por Obama não deixa de inspirar na mesma visão de Nação única e investida de um mandato messiânico em que a América se reviu sempre.

As respostas da nova Administração aos desafios estratégicos que confrontam a América estão ainda por definir. E só o tempo e as primeiras crises permitirão testar as enormes expectativas de mudança lançadas pelo novo inquilino da Casa Branca.

Desde o discurso da tomada de posse, Barack Obama afirmou inequivocamente o leadership americano como objectivo primeiro e estruturante da sua política. O grande desafio estará agora em mobilizar um novo elemento de legitimação dessa liderança, capaz de render as “campanhas expedicionárias humanitárias” ou o 11 de Setembro e a “cruzada” contra o terrorismo de George W. Bush.

Resta saber se as promessas de mudança de Obama chegarão para alicerçar uma nova legitimidade ao leadership americano.

Para já, e par das expectativas alimentadas nos primeiros seis meses da “era Obama”, os sinais de chamada às realidades multiplicam-se. E algumas das promessas mais aplaudidas dos primeiros dias do mandato Obama cederam, também elas, já lugar a algumas perplexidades.

As perplexidades do “fenómeno Obama”

Dias depois de assumir a chefia da Casa Branca, Barack Obama mobilizou aplausos em todo o Mundo ao anunciar o próximo encerramento de Guantanamo e a suspensão imediata de todos os processos nas comissões militares criadas pela Administração Bush para julgar os combatentes inimigos

Dois meses mais tarde, em Abril, o novo presidente americano torna públicos quatro memorandos que detalham técnicas de interrogatório sob tortura usadas pela CIA entre 2002 e 2005.

Mas a ousadia dessas manifestações de ruptura com o passado não tardam a dar lugar a perplexidades. Obama garante, contra as expectativas de muitos, que os agentes envolvidos na prática de tortura de prisioneiros durante a Adinistração Bush não terão que enfrentar a justiça, e a Casa Branca garante que defenderá qualquer funcionário da agência que seja alvo de uma investigação do Congresso americano ou de uma acusação num tribunal internacional.

Pouco depois é anunciado que as polémicas comissões militares instituídas para julgar os suspeitos de terrorismo detidos em Guantanamo vão afinal manter-se, embora com algumas correcções.

Pressionado pelas hierarquias militares, Barack Obama proíbe a divulgação de fotografias documentando o abuso de prisioneiros no Iraque e no Afeganistão, invocando a necessidade de “manter a natureza classificada de certas actividades e informações relacionadas com a segurança nacional” e há partes dos memorandos que se mantêm censuradas.

Residirá talvez aí um elemento importante para esclarecer algumas das incógnitas do “fenómeno Obama”. O novo presidente americano mostra-se decidido a romper definitivamente com a política do seu antecessor – mas não a pôr em causa práticas e instrumentos fundamentais na defesa dos interesses americanos no Mundo.

Ver todos os textos de CARLOS SANTOS PEREIRA