Movimentos Populares

Nº 1708 - Verão 2009
Publicado em Tribuna Pública por: Gilberto Lindim Ramos (autor)

Estamos em plena crise económica mundial que é, pelo menos, a mais grave desde 1929, sem poder prever até quando irá durar nem quando atingirá o seu ponto mais profundo. O número de desempregados cresce diariamente, sendo de muitas dezenas de milhões o total de trabalhadores que não conseguem encontrar trabalho que lhes garanta um nível de vida mínimo capaz de permitir a satisfação das suas necessidades fundamentais. Em todo o mundo capitalista grassa a desorientação quanto às medidas necessárias para poder vencer a crise.

E na União Europeia a situação é ainda mais grave. Não sendo capaz de abandonar o neo-liberalismo que é o responsável pela crise, procurando apenas atenuar alguns dos seus princípios mais ofensivos da dignidade humana, a UE está sem, até agora, tomar um conjunto de medidas que lhe permitam afrontar a crise e conseguir ultrapassá-la num curto período de tempo. A defesa do neo-liberalismo e dos interesses dos poderosos que actualmente detêm o poder são a razão fundamental da actual situação e indicam-nos que a incapacidade demonstrada não resulta das limitações dos responsáveis actuais pois que se assim fosse aquela seria ultrapassada logo que estes fossem substituídos por outros mais capazes. O que é preciso substituir são as políticas seguidas, abandonando o neo-liberalismo e substituindo-o por uma outra política que tenha em conta os interesses da grande maioria da população e não os que dizem respeito ao reduzido grupo que actualmente nos explora.

Face à actual fraqueza daqueles que poderiam encabeçar tal tarefa na Europa e dada a gravidade da situação e a necessidade de conseguir vencer a crise o mais rapidamente possível no sentido de evitar os grandes sofrimentos que se anunciam para as classes economicamente mais débeis, há que procurar unir em torno do núcleo daqueles que já se encontram empenhados nesta luta, a grande maioria dos que são claramente prejudicados pela manutenção do neo-liberalismo e, o mais rapidamente possível, conseguir, assim, reunir as forças que permitam derrotar os adeptos do neo-liberalismo.

Sendo muito importantes, fundamentais mesmo, os movimentos populares que espontaneamente surgem em oposição à actuação dos que governam, não deverão, no entanto, actuar isoladamente. Deverão ligar-se, apoiar-se e integrar-se mesmo na luta dos movimentos organizados com carácter permanente, em especial os partidos políticos, desde que sinceramente dedicados a defender os interesses das massas populares. Só assim estas movimentações poderão sair vitoriosas e dar os resultados desejados pelas massas populares dando um carácter mais ou menos permanente às vitórias obtidas que, de outra forma, teriam sempre um carácter provisório, pois a reacção, logo que a movimentação popular abrandasse tentaria reconquistar as posições perdidas, pois que, por maiores e mais fortes que fossem essas movimentações populares, tinham que enfrentar um poder solidamente organizado, com objectivos claramente delineados e com potentes poderes repressivos, que vão desde a comunicação social, a qual não utilizando métodos claramente repressivos, exerce uma influência extremamente significativa sobre as populações, levando-a a aceitar e mesmo a defender posições que lhe são claramente desfavoráveis, até às forças armadas e de segurança.

Logo, não são movimentações espontâneas, voluntaristas, desenquadradas da luta geral que poderão afectar de modo significativo os interesses das classes dominantes, mas sim actuações populares convenientemente coordenadas e orientadas. E podem considerar-se convenientemente orientadas quando, simultaneamente, se consegue obter uma actuação que tenha em conta os interesses gerais das classes trabalhadoras e se respeitam as disposições reais das massas e que estas adiram às orientações gerais que deverão presidir à sua luta.

Uma outra questão há que decidir e que diz respeito ao tipo de sociedade que se deve combater: ou a sociedade neo-liberal apenas ou, pelo contrário, a sociedade capitalista na qual a anterior se engloba. É evidente que a luta contra a sociedade neo-liberal, tendo em conta a crise em que se vive e os evidentes prejuízos que acarreta, se torna muito mais fácil e é compreendida por camadas da população muito mais amplas do que a luta contra a sociedade capitalista, considerando que hoje os defensores do capitalismo na procura da sua defesa atribuem aos exageros cometidos por alguns dos detentores do poder, a responsabilidade da crise actual e de maneira nenhuma do próprio capitalismo. No que contam com a ajuda da quase totalidade dos meios de comunicação que se empenham, com maior ou menor discrição, na defesa deste ponto de vista. Tal facto torna muito mais fácil a aceitação da crítica ao neo-liberalismo sem que ponha em causa o capitalismo.

Mas será realmente assim? Não será o neo-liberalismo a consequência natural e inevitável do capitalismo, que só não surgiu mais cedo porque existiu, durante muitas dezenas de anos, uma experiência de construção de uma sociedade socialista, que, pelo que de novo trazia, de respeito pela condição de trabalhador e pelos novos direitos que lhes atribuía, foi um potente travão ao neo-liberalismo e pela consciência de que a defesa do capitalismo tornava necessária a concessão de direitos aos trabalhadores que tornassem menos evidente a necessidade do socialismo? Mas, logo que os crescentes problemas que se puseram aos construtores da nova sociedade, e que foram convenientemente explorados e agravados pelos defensores do capitalismo, se tornaram evidentes, resultando daqui um muito menor poder atracção, começaram a surgir os defensores do neo-liberalismo e este começou a ser posto em prática.

O neo-liberalismo não é uma aberração do capitalismo, mas sim a sua evolução natural, que a luta dos trabalhadores atrasou, bem como a situação resultante da guerra, mas que foi posta em execução logo que as condições o permitiram.

Assim sendo, não parece correcto que se avance na luta exclusiva contra o neo-liberalismo, esquecendo o capitalismo, como se não soubéssemos que este conduz inevitavelmente ao primeiro.

Será uma luta que começa de uma forma mais difícil e que abrange, inevitavelmente, de princípio um número menor de pessoas. Mas será uma luta que à medida que for tendo êxito, nos dá uma maior garantia de que no futuro nos conduzirá à construção de uma nova sociedade em que o capitalismo será substituído pelo socialismo e não a uma situação transitória em que o capitalismo, logo que tiver força, voltaria a outro qualquer tipo de neo-liberalismo.

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