Seara Nova em memória(s)

Nº 1720 - Verão 2012
Publicado em 90 anos Seara Nova por: Jose Augusto Franca (autor)

Vi sempre a Seara Nova em minha casa, e já a lia em rapazinho de liceu, escapando-me à reforma nacionalista do Carneiro Pacheco; e também então lia o República e O Diabo, pelas mesmas razões, que eram da minha casa e do meu pai. E por elas vim a estrear-me em colaborações nos três jornais, num até 1940, quando foi proibido, na Seara Nova desde exactamente Julho e Setembro de 1949, com artigos sobre literatura ou artes e, final e regularmente, sobre cinema, lá publicando, nove anos seguidos, balanços anuais da temporada lisboeta, entre 1950 e 1958??, que alguma aceitação terão tido e seriam reunidos em volume ("Dez Anos de Cinema", ed. Sequência, Lisboa, 1960) correndo então a par com os programas das "Terças-Feiras Clássicas" do JUBA, no Tivoli, que eu organizava com o Guilherme Filipe, e muitos engulhos da PIDE. Por causa deles fui-me para Paris, em 1959, com uma bolsa que só francesa podia ser, a preparar um doutoramento.

E daí em diante, tendo entrado nova facção política na Seara deixei-me de para lá escrever, dando-me, no caso cinematográfico, a críticas de "Cinema de Paris" no Diário de Lisboa", mais de 200 até parar, membro honorário da "Fédération Française des Critiques de Cinema" em 2008.

Tal honorabilidade começou, porém, e graças à Seara Nova, numa estreita colaboração que era então num vago conselho de redacção ad ho", reunido ao alto da Rua da Rosa, por cima da tipografia aonde se descia para correcções no mármore.

Foram-me estes anos Seara Nova de muito ensino das coisas e das gentes, num período aceso depois das eleições não-livres de 1945, quando a Seara teve papel fundamental e legítimo, na sua renovada luta. Começara ela a publicar-se um ano antes de eu ter nascido, dela soubera em casa e depois, por obrigações de historiador. Tratei então com Câmara Reys, que fora meu professor no Liceu Gil Vicente, e o meu orientador de leituras, com D. Ema Romero, na casa de ambos, ao lado, uma vista enorme sobre Lisboa, (ou no Estoril) a falar-me da música que Lisboa muito lhe deveu nos anos 30.

José Augusto França com Sophia Mello Breyner, Isabel de Hobrega e José Arrochela em Julho 1958

José Augusto França com Sophia Mello Breyner, Isabel de Hobrega e José Arrochela em Julho 1958

Câmara Reys director, mas também Azevedo Gomes, na sua presença de dignidade maior, ou Adão e Silva que teve então a ideia da fundação de uma Acção Republicana, já que havia legalmente a Monárquica. Recusada in limine por não ser necessária, já que em República vivíamos, o que era verdade só simile-constitucional, como se provou em 1974 ao ter de se proclamar a "Segunda"...

Desses anos guardo a lembrança algo confidencial e falhada de ter tentado trazer à casa, que tão sua fora, António Sérgio - em longas conversas na Sá da Costa, e, depois, em estiradas Chiado abaixo e avenida acima, até à sua morada na Lapa. Teria sido importante, continuo eu a achar, no quadro periclitante da definição política dos anos 50, entre Norton e Delgado.

Em 1985, a Seara Nova reaparecida convidou-me a escrever um artigo e lá publiquei, para que constasse, e dentro do espírito "seareiro" de sempre, um texto que teria podido ter sua importância ao programar uma licenciatura de História de Arte que entendi fazer ao jubilar-me na Faculdade de Ciências Sociais da U.N.L. Ali dez anos antes fundara, com os docentes que convidei, o ensino da disciplina, ao nível de Mestrado que deu, até hoje, muitos mestres e doutores de que a cultura portuguesa necessitava.

Regozijo-me de ter publicado esse texto na Seara Nova, vinte anos passados, ao agradecer o presente convite de memorialista, nos noventa anos da revista, e meus também...

 

 

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