Um seareiro nos anos 30
Nº 1720 - Verão 2012
Publicado em Cultura por: Maria Emilia Santos (autor)
Essa colaboração teria começado no número 500, publicado em 24 de Março de 1937, com um artigo despretensiosamente intitulado "Notas para uma revisão de conceitos" que, já impresso, é integralmente cortado por uma Censura atenta a quem não terá agradado a reflexão crítica proposta sobre as confusões entre "nacionalismo (sentido ou orientação geral duma política) com Estado autoritário (carácter particular de uma organização estadual)", tema que o autor desenvolve de facto:
"...A Nação é permanente - pela sucessão encadeada das gerações - e o Estado é transitório - pelo evoluir constante das ideias. Portugal, com muitos séculos de existência autónoma, organizou-se politicamente de formas muito diversas: foi uma monarquia senhorial, depois absoluta, logo corporativa, novamente absoluta, mais tarde constitucional e parlamentar e finalmente tornou-se uma república primeiro democrática e a seguir corporativa (...) os Estados sucediam-se mas a Nação ficava melhor ou pior servida por eles... Em cada momento histórico o interesse do Estado tanto pode coincidir como colidir com o da Nação (...) Em boa verdade, portanto, vai sendo tempo de se reagir contra o equívoco político mais grave da nossa época. Cumpre-nos, a todos, impedir o erro de se continuarem confundindo e identificando o ideal nacionalista (de aspectos diversos mas de fundo comum) com um simples modelo de organização estadual. Resta só perguntar: e consegui-lo-emos?"
Aprendendo com o corte, NRS envereda por outras vias, sem perder de vista os seus objectivos e a sua perspectiva crítica. Quando volta a temas políticos, dá-lhes títulos inócuos e usa o subterfúgio de uma semi-ficção. É o caso de "Divagações sem nexo", publicado a 5 de Março de 1938, onde faz o elogio do "velho Anastácio" que, "na sua resistência isolada, tenaz e heróica", embora "passiva", constitui um "símbolo heróico e luminoso!" Nesta hora amarga de lutas e incertezas", este era o apelo possível à resistência cívica e à "consciência digna e forte" que deveria impregnar "certos preceitos racionais - apesar de quotidianamente transgredidos", de "condutas individuais na Política".
Entre estes dois artigos vai desenvolvendo a sua perspectiva cooperativista e o seu pensamento económico-social: no número 504, de 8 de Abril de 1937, publica "Algumas considerações sobre cooperativismo", conferência que proferira a convite da Cooperativa Portuguesa de Viação e que tanto êxito tivera. Baseando-se em Charles Gide, defende os princípios cooperativistas e analisa "os factores de insucesso do cooperativismo entre nós". Numas "Notas sobre Cooperativismo aplicado"(n.º 513, de 10 Junho, 37) parte da "recente constituição, em Portugal, de duas cooperativas de transportes" que teria proporcionado "à ideia cooperativista uma larga divulgação entre o público e um súbito interesse das camadas cultas". Defendendo que o cooperativismo deveria ser entendido como "uma causa solicitando adeptos e não como um negócio atraindo interessados", propõe uma campanha educativa, analisa certas questões ("podem as cooperativas fazer-se mútua concorrência?") concluindo que:
"O cooperativismo situa-se num clima moral e económico que nada tem com os ambientes sociais construídos pela Economia Liberal. Por isso ele inclui, entre os seus mais elevados propósitos, a organização duma sociedade nova onde todos colaborem na criação da Riqueza a repartir e não a disputar; onde todos comparticipem, plena e inteiramente, no trabalho criador e no gozo dos bens criados".
A 31 de Julho (SN n.º 520) trata de um problema, que se colocava então para dificultar a vida às cooperativas, no artigo "O monopólio da Carris e as Cooperativas de Transportes" e demonstra, juridicamente, que contrariamente ao defendido pela Carris e pela Procuradoria Geral da República, sendo "uma cooperativa uma simples associação com bens em comum, aquilo que ela possui é de todos os que a constituem, foi comprado com o dinheiro com que todos contribuíram para a compra, é mantido com o que contribuem todos para a sua conservação..." , não pode ser entendida como "uma empresa destinada a explorar uma indústria".
No número 523 de 21/8/37, volta às "Notas sobre cooperativismo aplicado -III" e neste artigo se debruça sobre o "Ensino Cooperatista" que deveria ser constituído não propriamente "pela criação de cursos teóricos, onde se fizesse a história do cooperatismo, desde os seus mais remotos precursores doutrinários, através da experiência magnífica de Rochdale, até ao triunfo actual do movimento em terras civilizadas do Norte Europeu" e sim, sobretudo, através da "prática cooperatista aplicada a associações académicas do primeiro ao último grau escolar (...) a difusão do espírito cooperatista - subtilmente feito de previdência, de senso económico, de solidariedade, de simpatia pelo semelhante. .." E conclui, adoptando os princípios da escola activa, que "A verdadeira educação cooperatista (e acaso só ela?) tem de ser feita dentro de cooperativas (...) O contacto directo do indivíduo com a engrenagem simples de qualquer cooperativa embrionária; a sua permanência em organismos associativos desse género, sucessivamente mais complexos, destinados a facultarem-lhe valiosas regalias; o seu interesse, constantemente renovado, pelas organizações económicas a cujos serviços acabaria por se habituar - teriam fatalmente que lhe incutir espírito cooperatista, dotando-o paralelamente das noções mais indispensáveis à boa compreensão do Cooperatismo".
Por entre artigos sobre outros temas como relações internacionais e recensões críticas de livros jurídicos, termina a sua colaboração nesta fase da SN com um último artigo económico (SN n.º 558 de 23/4/38) - "A hesitante marcha para uma nova economia". Nele, NRS defende a existência de uma "táctica económica" comum a todos os Estados modernos, independentemente da sua configuração política:
"Desde que eclodiu, entre 22 e 29 deste século, a crise ainda em vigor - todos os Estados começaram insensivelmente a adoptar uma política económica acentuadamente socialista". E, reconhecendo que a expressão "socialista" será um pouco "abusiva", defende que "qualquer que seja a sua (dos Estados) orientação moral e a sua configuração política - a táctica económica é, em todos, a mesma: marcha lenta ou apressada para a socialização total (ou nacionalização - se preferem...) das actividades produtoras." Dá como exemplos " a Rússia bolchevista, a América democrática e a Itália fascista" e a "França destes últimos anos, a França anterior à «experiência Blum» e a França conservadora, individualista e liberal do Sr. Flandin e do Sr. Laval"
Atribui esta tendência geral para a adopção progressiva duma política intervencionista à I Guerra Mundial e ao "período de delírio económico e financeiro" que se lhe seguiu. E descreve uma situação bem nossa conhecida:
"Sabe-se como aumentaram as dívidas públicas; como se desvalorizaram as moedas; como se intensificou desmedidamente a produção; como se multiplicaram singularmente as trocas internacionais; como se alargou, até ao absurdo, o Crédito; conhece-se a Riqueza, consumida em pura perda, nos desvairos bélicos das potências ...Ninguém ignora, em suma, o que tudo isso foi!
(...) Em 1922 esboçavam-se os primeiros sintomas da Grande Crise económica que viria a eclodir em 1929, com os aspectos catastróficos que ainda hoje observamos. O «problema social» do nosso país ganha foros de problema básico (...) As legiões de desempregados -zonas áridas para o consumo - reclamam imperativamente trabalho. E quem o há de dar? As empresas industriais a caminho da falência (...) a agricultura arruinada pelos encargos fiscais (...) Quem, então? O Estado! É para o Estado que os desempregados se voltam! E coisa curiosa: fazem-no contando até certo ponto com o próprio apoio dos industriais e rendeiros (...) E como responde o Estado liberal ou respeitoso dos princípios individualistas, a todos estes clamores? Ora! Como não podia deixar de ser: transigindo!" Tabelando preços, fixando salários, estabelecendo as condições gerais de emprego e remuneração, recrutando trabalhadores... Mas as "soluções parciais e dispersas levantam novos problemas a demandar novas soluções. O Estado reconhece a necessidade (...) de criar, em suma, um novo regime económico-social"...
E é com um apelo a esta concepção que termina o artigo e a sua colaboração nesta fase cooperativista da Seara Nova.
