Cinema: "O Artista" e "Na Terra de Sangue e Mel"
Nº 1720 - Verão 2012
Publicado em Cultura por: Dulce Rebelo (autor)
O Artista
Realização: Michel Hazanavicius, (França, 2011)
Interpretação: Jean Dujardin, Bérénice Bejo, John Goodman, Malcolm Mc Dowell
A par dos muitos louvores recebidos, o filme também foi alvo de algumas apreciações menos favoráveis, começando por se considerar estranha a revisitação de filmes mudos numa época em que a indústria cinematográfica está tão avançada.
Lembre-se porém que muito recentemente (2010) se celebrou, tanto na Europa como nos Estados Unidos, o centésimo aniversário da invenção do cinema, arte maior que veio revolucionar a cultura.
Michel Hazanavicius, acalentando um sonho antigo, mais não fez que mergulhar nas raízes do cinema, rodando um filme mudo a preto e branco que, no entanto, beneficia da técnica apurada do presente.
Homenageando a idade de ouro do cinema mudo em Hollywood, criou uma história simplesmente humana, onde prevalecem sentimentos variados que não podem deixar de tocar os verdadeiros cinéfilos.
O realizador narra-nos a vida de George Valentin (Jean Dujardin), actor famoso do cinema mudo, que ora se encontra nos estúdios a filmar, na presença do chefe de Studio, Zimmer (John Goodman), ora repousa na sua residência luxuosa com a esposa, o seu fiel cão Jack, que faz imensas habilidades e com ele contracena também nos filmes e o seu dedicado mordomo/criado/motorista ( Malcolm Mc Dowell).
Numa noite de estreia, G. Valentin, rodeado de inúmeros fãs que o adoram, conhece por acaso uma jovem aspirante a estrela, Peppy Miller (Bérénice Bejo), que muito o admira. Fazendo mais tarde par com o actor nas filmagens, desenvolve-se entre eles um sentimento amoroso.
A história prossegue com a agitação própria dos estúdios até à chegada do sonoro. Aí dá-se uma ruptura. O actor não consegue adaptar-se às novas exigências e, persistindo no mesmo modo de filmar, passa a ser ridicularizado. Para Peppy surge uma nova oportunidade e ela parte para fazer carreira como estrela e cantora.
O mundo de G. Valentin desmorona-se. Perde a esposa, a fama, a fortuna, a profissão, os haveres e nem a fidelidade do seu mordomo consegue remediar a sua queda em desgraça.
No maior desespero dá-se a tragédia e o actor vai parar ao hospital.
É então que Peppy Miller, actriz adulada e famosa, arrependida por ter abandonado G. Valentin, o visita no hospital para tentar salvá-lo.
O realizador cria perfeitamente o ambiente de 1927, em que os filmes são acompanhados ao piano, mas a banda sonora de grande modernidade pauteia as acções dos protagonistas como uma outra personagem.
Há cenas marcantes para o desenrolar da história, mas é de notar principalmente duas. Uma, quando na azáfama das suas vidas, George Valentin e Peppy Miller se cruzam numa grande escadaria. O actor desce a jovem sobe e, assobiando para que ele se volte, atira-lhe um beijo com os dedos. Assim será nas respectivas carreiras, ele a afundar-se e ela em ascensão.
A outra cena mostra-nos o actor na rua, numa noite chuvosa, que vê no chão um cartaz com o seu rosto a ser espezinhado pelos passantes apressados e indiferentes. Reconhece então a fragilidade da fama. Adorado na véspera é completamente esquecido no momento seguinte.
Os protagonistas são notáveis, mostrando uma dedicação e generosidade incríveis para interpretarem as suas personagens.
Jean Dujardin evidencia um perfeito domínio da linguagem corporal. Pelo seu jogo fisionómico marca perfeitamente a diferença entre a personagem no seu dia a dia e o "actor" nas filmagens. Um sorriso, um levantar das sobrancelhas, um movimento de ombros, um ar altaneiro e a transformação está feita. Dá-lhe perfeita réplica a actiz Bérènice Bejo, mulher do realizador. Ela mostra desenvoltura, graça, beleza, inteligência, exprimindo com um olhar, um sorriso, uma lágrima, as mais diferentes emoções.
Filme cheio de beleza e poesia, nada é descurado pelo cineasta. A casa habitada por Peppy, já famosa, é a da estrela de cinema mudo Mary Pickford. E a música que acompanha a visita de Peppy ao hospital é o tema "Laura" de Otto Preminger.
O duo de actores revela uma harmonia perfeita a que dá relevo também o cão Jack (interpretado por 3 Fox Terriers), criando cenas hilariantes.
A grande atriz de teatro francesa Clémentine Célarié diz sobre o filme «é uma história magnifica e diferente. A poesia, o amor, a graça, a música atraem todas as gerações».
Um grande realizador, amante do cinema, ofereceu ao público uma história humana e sensível, o que é bem raro nos tempos que correm. O filme recebeu inúmeros prémios: interpretação (Cannes), prémio Bafta (Londres), troféu da melhor música de Ludovic Bourse, e três Óscares (2012) melhor filme, melhor realizador, melhor actor.
Na Terra de Sangue e Mel
Interpretação: Zana Marjanovic, Goran Kostic, Rade Serbedzija
Por esta altura (Maio /2012) procede-se ao julgamento no Tribunal Penal Internacional de Haia de Ratko Mlodic, responsável pelas atrocidades cometidas durante a guerra da Bósnia (1992 - 1995). Entre as muitas acusações que lhe são imputadas menciona-se o massacre que, como general do exército sérvio-bósnio, mandou executar, em Strebrenica, de 8 mil homens e rapazes muçulmanos desarmados, assim como as violações sistemáticas de mulheres muçulmanas pelas tropas sob o seu comando.
Surpreende-nos assim, favoravelmente, que a "super- star" americana, Angelina Jolie, tenha escolhido como tema a guerra na Bósnia para a sua primeira realização cinematográfica.
Com sobriedade, Jolie assina a história de amor entre Danijel ( Goran Kostic) um agente de polícia e Ajla ( Zana Marjanovic), uma belíssima pintora muçulmana, iniciada antes da guerra dos Balcãs.
Desencadeado o conflito, a protagonista, num ambiente de crescente violência, vai cair nas mãos dos sérvios e descobrir entre os militares o capitão Danigel com quem namorava.
Para conferir maior veracidade ao que narra, a novel realizadora escolheu actores locais e a língua ouvida no filme é o servo-croata.
O cenário é o horror vivido nas casernas, onde as mulheres são submetidas às piores sevícias.
Jolie mostra a guerra em todo o seu horror: explosões, espancamentos, violações, fuzilamentos em massa, violência desmesurada contra velhos e até crianças. Um cenário de terror. Como viver um amor proibido pelos conceitos errados do que é ou não patriótico, pelas diferenças culturais? O par de amorosos é apanhado na rede inextricável de fações opostas e não terá um final feliz.
A realizadora, que é também a Embaixadora da Boa Vontade do Alto Comissariado da ONU para os Refugiados, quis chamar a atenção para a atrocidade duma guerra tão perto da Europa e que não parece ter abalado a inércia do mundo.
Documentário, drama, talvez demasiado longo, não deixa de ser uma ideia audaciosa que tem como objectivo revelar a realidade e despertar consciências. Os actores, bem dirigidos, têm a interpretação equilibrada que se impunha. Os protagonistas têm uma boa prestação, mas a actriz Ana Marjonovic é espantosa na sua actuação. O medo, a compaixão, a solidariedade, o amor, a firmeza, a coragem e a resistência perante males insuperáveis são vividos com grande intensidade, revelando a qualidade do trabalho da comediante.
Filme a não perder.
