Notas de Leitura: Quem e como se manda no mundo
Nº 1720 - Verão 2012
Publicado em Cultura por: Ana Goulart (autor)
Advertindo o leitor de que não é economista, "nem sequer jornalista económico", Santiago Camacho recua aos Acordos de Bretton Woods (um exclusivo complexo hoteleiro, em New Hampshire, EUA)) para demonstrar que a atual crise do sistema capitalista não é obra do acaso, mas uma estratégia da alta finança mundial, muito em particular da estadunidense, para atingir um objetivo: dominar a economia mundial. Para tanto nasceram o Fundo Monetário Internacional (FMI), o Banco Mundial (BM) e a Organização Mundial do Comércio (OMC), cujas criações e desenvolvimentos são amplamente documentados pelo jornalista espanhol, num manancial de informação que se outro mérito o livro não tivesse, este bastaria por si só.
"A legitimidade do Estado baseia-se na perceção popular de que este seja capaz de manter um mínimo de bem-estar. Quando o preço dos alimentos já não é determinado pelo Estado, mas pelo mercado sob o mandato do FMI, a população percebe, não sem razão, que a nova situação só beneficia o capital estrangeiro e os ricos, provocando a rebelião contra os símbolos de riqueza (...) estes protestos causaram, ao longo de décadas, centenas de milhares de mortos em todo o planeta, mas o número de pessoas que morrem em consequência dos efeitos sociais e económicos dos programas de austeridade do FMI, com o consequente aumento na incidência da fome e das reduções dos programas de saúde, etc, nunca foi avaliado de forma fiável, embora alguns autores falem de números que rondariam os 8 milhões de vidas". E Santiago Camacho pega nos dados e prova o que todos sabem: todos os países que deixaram entrar o FMI ficaram em pior situação. Para não falar do apoio desta sinistra organização, bem como do BM, a todas as mais ferozes ditaduras, de Pinochet a Suharto.
Da análise que faz da atuação de FMI, BM e OMC, o autor de "A troika e os 40 ladrões" não tem qualquer dúvida em concluir que os seus propósitos são exclusivamente políticos e servem apenas o grande capital. "A OMC, menos conhecida e com menos reputação entre os críticos da globalização, transformou-se ainda assim numa verdadeira arma de destruição em massa. Não se trata de maneira nenhuma de uma comparação exagerada. Nos últimos anos, os saques levados a cabo pelas multinacionais ao abrigo da globalização e de fachadas multilaterais como a OMC não foram muito diferentes do impacto causado pela guerra. A globalização empresarial arrasou o emprego e os meios de subsistência em muitos países, aprofundou as desigualdades, conduziu à deterioração do nível de vida de grandes massas populacionais em todo o Mundo e limitou ainda mais o já de si precário espaço que muitos países tinham para o desenvolvimento. (...) Na atualidade, por trás de uma extração e queima de combustíveis fósseis, do aumento da venda de automóveis, do perigo da proliferação descontrolada de organismos modificados geneticamente, da desflorestação com danos incalculáveis, das indústrias contaminantes, da concentração da propriedade da terra e da privação do acesso à água, à educação ou à saúde, da exploração laboral, assim como da presença de regimes de investimento que consagram os direitos do capital multinacional em detrimento das maiorias do mundo, está, de uma maneira ou de outra, a OMC".
Uma perigosa teia
Santiago Camacho consegue demonstrar claramente quem são os responsáveis pela crise - os que dela beneficiam, com o poderoso Goldman Sachs Group Inc à cabeça, uma instituição financeira estadunidense que, curiosamente, detém participações na Standard & Poor's e na Moody's, duas das mais importantes agências de rating, ou de classificação como as nomeia Santiago Camacho que interroga: "Como é possível que os governos admitam que empresas privadas, participadas por poderosas firmas internacionais que, como é lógico, têm os seus próprios interesses, andem por aí a ditar sentenças de morte económicas a torto e a direito?".
A perigosa teia de relações que se estabelece entre alta finança e governantes é elucidativa. "Em 2009, o novo executivo grego, do socialista Yorgos Papandreu, deparou-se, subitamente e sem o esperar, com os truques de contabilidade criados pelo Goldman Sachs. A sua primeira medida foi colocar à frente da Agência de Dívida Pública grega Petros Christodoulou, que não só tinha trabalhado no Goldman Sachs, como em 2006 era responsável de Mercados e Banca Privada do Banco Nacional da Grécia, a entidade privada que a partir desse ano veiculou o swap grego concebido pelo Goldman Sachs, através de uma conta em Delaware (EUA), um território considerado um paraíso fiscal".
Também em Portugal - o jornalista espanhol dedica um capítulo do livro ao nosso País com o sugestivo título "Portugal, a autoestrada para o inferno" - a Goldman Sachs possui os seus testas de ferro, como António Borges que "entre 2000 e 2008 foi vice-presidente do Conselho de Administração do Banco Goldman Sachs International, em Londres. Foi consultor do Departamento do Tesouro dos Estados Unidos, do U. S. Electric Power Research Institut, da OCDE e colaborou com a União Europeia na criação da União Económica e Monetária. Em 2010 foi nomeado diretor do Departamento Europeu do Fundo Monetário Internacional" (fonte Wikipédia). A teia funciona.
Passando em revista os paraísos fiscais, o Consenso de Washington, as dívidas soberanas, o comportamento dos governos, Santiago Camacho revela a construção europeia na sua essência. "O presidente Papandreu anunciou a sua intenção de fazer um referendo para aprovar o plano de resgate dos parceiros comunitários. Espalhou-se o pânico, a máquina diplomática começou a funcionar a toda a velocidade e o resultado foi que o referendo não se chegou a realizar. Papandreu cedeu a pressões e chantagens por parte dos seus parceiros europeus, que não podiam permitir um referendo cujo resultado, pelo estado de monumental ira da população grega, era mais do que previsível. (...) A desilusão de muitos perante o cancelamento do plebiscito grego é a da constatação de que a União Europeia só funciona com o mercado e não tem em conta os cidadãos. Na realidade, nunca os teve em conta. A União Europeia é uma iniciativa elitista, feita nas costas da população".
Embora se reconheça que um ou outro aspeto do livro possa ter o seu quê de especulativo, não se pode deixar de recomendar vivamente a leitura de "A troika e os 40 ladrões".
