Mário Dionísio «Que significa para mim a Seara Nova?»

Nº 1721 - Outono 2012
Publicado em 90 anos Seara Nova por: Revista Seara Nova (autor)

(Suplemento do 50º aniversário da Seara Nova Nº 1512 de Outubro 1971)

Perguntam-me «Que significa para si a Seara Nova?» Pergunto-me que significa para mim a Seara Nova?

Seria talvez mais fácil responder o que significou ela para mim, por 1934 ou 35, tentando compreender bem que representaram na minha formação a sedução e a recusa que experimentei pelo chamado «espírito seareiro» e, para lá deste, a presença de um António Sérgio e de um Raul Proença, de um Jaime Cortesão ou de um Câmara Reys - um dos raros professores autênticos que tive no liceu -, a herança recente dum Raul Brandão. Que significou ela para mim, poucos anos depois (Sérgio publicara entretanto, nos Factos e Documentos, salvo erro, uma nota, não assinada, a estimular a minha acção de crítico incipiente no Diabo), quando passei a ser seu colaborador. Quando, pouco depois também, considerei indispensável dar por finda essa colaboração - já Sérgio lá não estava -: veja-se a Ficha 14. Quando - mudam-se os tempos, mudam-se as vontades... - à mesma colaboração regressei. E, finalmente, que significa ela agora que decerto desapareceram os motivos mais salientes da antiga recusa, sem que, na verdade, se tivessem mantido ou ressurgido os da velha sedução.

Mas seria tudo isso deslocado e talvez excessivamente pessoal num breve depoimento destinado a um número de aniversário.

O papel que a Seara Nova representou nos longos anos duma cultura sufocada, mesmo incluindo os aspectos todos de que discordei - e de que voltaria a discordar - é inestimável. E esta palavra diz bem pouco. Não há discordância, de visão ou de intervenção, que possa esquecer ou sequer menos-prezar tudo o que devemos e ficámos devendo à vontade persistente do seu espírito crítico, ao alto exemplo moral da sua recusa ao que, por essa Europa fora, tentava reduzir os homens à mais abjecta negação do seu próprio destino, à sua inegável capacidade de resistência.

A Seara actual não é decerto a de há cinquenta ou quarenta ou trinta anos atrás. Nem poderia sê-lo. Nem poderia sê-lo. Nem conviria que fosse. Será ela, contudo, a Seara de então adaptada aos dias de hoje? Será efectivamente a mesma revista transplantada para novos climas?

Não sei, nem me interessa isso muito. Contando que a mesma independência de atitude continuei a animá-la, a mesma intenção de espírito verdadeiramente crítico a oriente e, na hora de maior expansão de toda a sua vida, não seja apenas uma nova seara, mas rigorosa-mente, sempre mais vasta e mais fecunda, a seara nova.

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