Cinema: "Procurem abrigo (Take shelter)" e "O polícia"
Nº 1721 - Outono 2012
Publicado em Cultura por: Dulce Rebelo (autor)
Procurem abrigo (Take shelter)
Realizador: Jeff Nichols
Intérpretes: Michael Shannon, Jessica Chastain, Tova Stewart, Shea
Whigham
(E.U.A., 2012)
Vivemos num mundo instável, absurdo, eivado de perigos.
Armas sofisticadas circulam de país para país, espalhando a morte e o caos.
Focos de guerra surgem aqui e ali e grandes potentados, em nome da "instalação da democracia", pela qual os povos lutam genuinamente, cometem abusos, invadem países e aniquilam milhares e milhares de vidas humanas. Só para salvaguardar interesses próprios, que nada têm a ver com o bem-estar dos povos visados.
Exemplos não faltam: Jugoslávia, Iraque, Afeganistão, Líbia, Síria.
Onde encontrar protecção contra os massacres que vitimam civis: homens, mulheres, crianças?!
Tendo como pano de fundo este cenário dantesco, o realizador/argumentista Jeff Nichols conta a história duma família comum. Curtis (M. Shannan) cidadão da classe média, a sua mulher Samantha (Y.Chastain) e a filha de ambos Hannah (T.Stewart), deficiente auditiva, vivem no Midwestern americano.
Família estável, feliz, com projectos, a partir de certa altura é abalada com o comportamento de Curtis que começa a ser atormentado por visões apocalíticas: tornados, tempestades, furacões, sismos prenunciam catástrofe iminente.
Angustiado com estas visões e temendo consequências perigosas para aqueles que mais ama, Curtis renuncia a outros planos de vida e empenha-se em construir no seu quintal um abrigo subterrâneo.
Após nova visão terrível vai refugiar-se com a família no abrigo durante alguns dias.
A mulher revolta-se com a atitude do marido, a criança emudece nos braços do pai e a comunidade segrega-o.
No início do filme há uma referência à mãe de Curtis, que desde os trinta anos sofre de esquizofrenia paranoica.
O actor Michael Shannon tem uma actuação exemplar. Solidarizamo-nos com aquele homem cujo rosto, de traços alterados, exprime sofrimento e ansiedade, enquanto aperta contra o peito a sua filha para a defender. Jessica Chastain, no papel de Samantha dá a réplica adequada ao actor. Mulher equilibrada, que ama a família, sente a sua vida a desmoronar-se com as decisões do marido, mas também é a primeira a dar-lhe a mão solidária para apaziguar a sua angústia.
Após o visionamento do filme, restam-nos duas interrogações: Sofrerá Curtis de esquizofrenia paranoica ou será antes o mundo que atingiu o paroxismo da insanidade mental?
O Polícia
Realizador: Nadav Lapid
Intérpretes: Yiftach Kleine, Yaara Pelzig, Michael Aloni
(Israel, 2011)
É a primeira longa metragem do realizador e caracteriza-se pela visão original do cineasta sobre o seu próprio país.
Na primeira parte do filme assistimos à vivência quotidiana de um grupo de elite da unidade antiterrorista de Israel.
Yaron, o chefe, jovem bem parecido, musculado, vaidoso com o seu corpo, gosta da camaradagem dos seus colegas, com quem se exercita em longos passeios de bicicleta, encontrando-se todos presentes em convívios familiares, sempre alegres e calorosos. Prestes a ser pai, Yaron cuida da sua mulher grávida, visita os amigos, confraterniza com elementos da unidade.Ele e os seus companheiros orgulham-se do que fazem, pois são o braço armado da defesa ou do ataque do Estado contra o "inimigo árabe", tal como lhes ensinaram.
Mas os militares não são apenas autómatos treinados. Assim o polícia explica em entrelinhas que depois de ter abafado os seus conflitos interiores, para alinhar contra os palestinianos, o povo israelita poderá num futuro próximo fazê-los ressurgir ainda com mais força do que antes.
Na segunda parte do filme decorre uma festa de casamento da burguesia alta endinheirada, numa residência luxuosa.
Repentinamente um grupo de jovens presentes (três rapazes e uma rapariga) saca das pistolas e sequestra os anfitriões. Fazem exigências e ameaçam os reféns. É preciso tirar o dinheiro aos ricos que abusam do seu poder.
A unidade de elite é chamada a intervir. A aventura do jovem grupo termina num banho de sangue.
Quando Yaron descobre o "inimigo" que abatera fica perplexo e incrédulo.
Habituado a combater o "inimigo Árabe", confronta-se com um punhado de jovens, israelitas como ele, um grupo de rebeldes extremistas, empenhados na luta de classes.
Uma realidade desconhecida para Yaron, um choque profundo que vai abalar muitas das suas certezas.
Filme polémico e corajoso que, pondo de parte algumas falhas narrativas, prende o espectador até ao fim, é também um sinal de alarme.A prestação dos actores é muito equilibrada, tornando a história credível e convincente.
O filme de Nadav Lapid recebeu numerosos prémios: Prémio Especial do Júri (Festival de Cinema de Locarno), Prémio O Melhor Filme, melhor argumento e melhor fotografia (Festival de Cinema de Jerusalém), Prémio Melhor Filme e Melhor Realizador (Bafici), Prémio do Público (Festival de Cinema de Nantes), Prémio Melhor Filme (Festival de Cinema de Filadélfia).
