Notas de Leitura: Uma útil consulta

Nº 1721 - Outono 2012
Publicado em Cultura por: Herberto Goulart (autor)

O Centro de Estudos Sociais da Universidade de Coimbra, através dos seus investigadores, elaborou um "Dicionário das Crises e das Alternativas", editado em colaboração com a Almedina. Tem como objectivo, segundo o prefácio de Boaventura de Sousa Santos, ... contribuir para aumentar a capacidade de controlo das cidadãs e dos cidadãos sobre o que leem ... abrindo espaço para pensarem soluções alternativas ... para os problemas dos cidadãos e não para os problemas dos mercados ...

O objectivo enunciado é de grande oportunidade para ajudar os cidadãos a tentar discernir na montanha de (des)informação que todos os dias membros do (des)governo, politólogos de serviço e economistas neoliberais sobre eles despejam.

O dicionário tem umas 200 páginas e as entradas têm sensivelmente a dimensão de uma página, sem excepções, o que evidencia o rigor do trabalho de coordenação.

Há alguns autores mais conhecidos com entradas muito interessantes: Boaventura de Sousa Santos com "Capitalismo", "Globalização", "Utopia". Manuel Carvalho da Silva com "Auditoria cidadã à dívida pública", "Contratação Colectiva", "Deslocalização", "OIT" ou "Trabalho". José Manuel Mendes assina "Desigualdade", "Fascismo Social", "Protesto", "Risco".

Existem algumas entradas que pouco ou nada têm a ver com crise ou alternativas, como sejam sobre Biotecnologia, Enobrecimento Urbano, Literatura, Multiculturalismo ou Teatro e algumas outras em que parece que o autor de repente se lembrou "Oh diabo, isto deve ser sobre crise" e lá encontrou forma, algo artificial, de ligar o seu escrito à temática do dicionário. É o caso, por exemplo, de BRIC, Cooperativismo, Memória ou Poesia.

Mas há alguns temas muito interessantes, de que cito uns tantos: "Ajuda Externa" de Teresa Cravo, "Assistencialismo" de Pedro Hespanha, "Clientelismo" de Fernando Ruivo, "Empreendedorismo" de Mónica Lopes, "Especulação" de Vítor Neves, "Irlanda" de Adriana Bebiano ou "Islândia" de Maria Irene Ramalho, ou ainda "Juros", "Recessão" e "Reestruturação da dívida" de José Maria Castro Caldas e "Comércio livre", "Fundo Monetário Internacional" e "Privatização" de João Rodrigues.

O que me parece mais útil no Dicionário são alguns termos técnicos, imediatamente associados aos fenómenos da crise, como sejam: de José Reis "AAA (Agências de notação)", "Banco Central Europeu" ou "Euro"; de Ana Cordeiro Santos "Activo tóxico", "Banca", "Financeirização" ou "Sub-prime"; de Marisa Martins "Paraísos fiscais" ou "Euro-obrigações"; ou ainda: "Flexigurança" de Hermes Augusto Costa; "Parcerias público-privadas" de Paula Fernando, "Pensamento único" de Miguel Cardina e "Taxa Tobin" de João Paulo Dias.

Entendo que fazem falta ao dicionário alguns conceitos do pensamento marxista (quase ausente deste dicionário) que ajudam a reflectir sobre a crise, por exemplo "mais valia e taxa de mais valia", "exército industrial de reserva", "crise de sobre-produção", "lei da baixa tendencial da taxa de lucro ".

Pesem embora limitações, como algumas que assinalei, o "Dicionário das Crises e das Alternativas" é um livro de boa leitura e muito válido para consultas pontuais, que gostosamente recomendo aos leitores da Seara Nova. E assenta num louvável espírito de diálogo, como Boaventura Sousa Santos deixa claro no Prefácio: "Concebemos esta edição do Dicionário como uma primeira edição e levamos tão a sério o propósito de o transformar num instrumento útil aos Portugueses que, desde já, nos dispomos a uma segunda edição, interativa, em que serão incluídas entradas sugeridas pelos nossos leitores".

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