Factos & Documentos

Nº 1721 - Outono 2012
Publicado em Factos e Documentos por: Revista Seara Nova (autor)

Falhanço colossal

"Não poupemos nas palavras. Um ano após ter tomado posse e definido uma estratégia que foi claramente mais longe do que aquilo que estava acordado com a troika, o Governo está à beira de um falhanço colossal em matéria do Orçamento do Estado. (...) Se fosse outro o Executivo, cairia o Carmo e a Trindade com acusações de incompetência e incapacidade para travar o despesismo do Estado. Ora perante um Governo que calculou que o IVA ia crescer 11,6% e está confrontado com uma descida de 2,8% até Maio; com uma quebra nos impostos sobre veículos que estava prevista ser de 6,5% e já vai em 47% (!); com um recuo esperado de 2,1% no imposto sobre produtos petrolíferos, que ascende já a 8,4%; com um aumento no subsídio de desemprego de 23%, quando o Executivo apontava para 3,8%; e com uma quebra nas contribuições para a segurança social de 3%, quando se esperava apenas 1% - o que se pode dizer se não que se trata de um falhanço verdadeiramente colossal da equipa das Finanças e, em particular, do brilhantíssimo e competentíssimo ministro Vítor Gaspar? (...) Este descalabro resulta do profundo desconhecimento de como funciona a economia portuguesa, reduzida a uma folha de Excell onde qualquer medida X terá sempre o resultado Y; resulta da desvalorização ostensiva dos sucessivos sinais de estrangulamento financeiro das pequenas e médias empresas nacionais, devido à brutal travagem no crédito bancário; resulta da convicção profunda de que depois de falirem milhares de empresas, de explodir o desemprego e da economia atravessar uma profunda recessão, se reerguerá das cinzas com grande facilidade como uma fénix renascida; e resulta ainda do autismo germânico do primeiro-ministro e do ministro das Finanças, que nunca puseram em causa se seria possível fazer o ajustamento previsto no acordo com a troika, no tempo, com o financiamento e com as condições que nos foram exigidas".

Nicolau Santos

Expresso

30 de Junho de 2012

 

Vida fácil

"Entretanto, Passos Coelho chegou a primeiro-ministro, clamado que «os portugueses não podem suportar mais sacrifícios». Afinal podiam: em pouco mais de um ano, o desemprego subiu de 10,8% para 15,2%, foram drasticamente reduzidas as prestações sociais, confiscados, contra todas as promessas eleitorais, os subsídios de férias e Natal a funcionários públicos e pensionistas e aumentado o IVA para 23%, subiram para valores incomportáveis as taxas moderadoras no SNS, reduziram-se até à irrelevância as deduções no IRS e IRC e as isenções no IMI, aumentaram brutalmente os transportes, a electricidade e o gás, despedir tornou-se mais fácil e barato, multiplicou-se o trabalho precário e sem direitos, regressou o trabalho infantil. (...) Tudo isto, como explicou Cavaco Silva a um jornal holandês, porque foram «demasiado negligentes e estão hoje a sofrer as consequências de uma vida fácil".

Manuel António Pina

Jornal de Notícias

16 de Julho de 2012

 

Democracia de opinião

"A democracia de opinião que hoje domina vive, como vemos todos os dias, de superficialidades bacocas e de imediatismos rapsódicos, excluindo intencionalmente qualquer porta de entrada ou momento de atenção aos «grandes homens» ou às «verdadeiras ideias». A conceção heroica - ou épica - da política não resistiu a uma democracia de opinião que vive cada vez mais na autojubilatória comunhão da mediocridade com a alacridade, que é incompatível com a linguagem do apelo e das causas, que sempre caracterizaram os «grandes homens".

Manuel Maria Carrilho

Diário de Notícias

19 de Julho de 2012

 

Que andamos a comer?

"Um terço das amostras de alimentos recolhidas em 2010 ainda estava por analisar, em Março de 2011, denuncia a Comissão Europeia. Laboratório continua sem dinheiro e a funcionar mal. (...) Governo não paga a LNIV (Laboratório Nacional de Investigação Veterinária) há anos e não há dinheiro para reagentes, diz Federação de Sindicatos da Função Pública".

Jornal de Notícias

31 de Julho de 2012

 

Ministro-caixeiro-viajante

"Este ministro é uma raridade e um digno sucessor de Manuel Pinho, o príncipe do anúncio e o rei do custo. Naquele tempo, tudo o que o dr Pinho tocava era despesa pela certa. Ele eram energias renováveis, como as eólicas, e estranhos chouriços metálicos que andavam ao sabor das ondas e deviam gerar energia (não geraram e estão dados à sucata. (...) Agora temos o ministro Santos Pereira, cuja adaptação à política nacional se fez a um ritmo impressionante. (...) O ministro descobriu a sua verdadeira vocação. É um vendedor planetário, contribuindo para o facto o domínio substancial de todas as variantes de inglês técnico. Vai daí, emergiu o super-mega-caixeiro-viajante-mundial. (...) Tal como no socratismo, há fábricas que nascem por todo o lado e investimentos que só estão no papel. A política do anúncio retomou o seu lugar na propaganda nacional".

Eduardo Oliveira e Silva

jornal I

3 de Agosto de 2012

 

A verdade é como o azeite...

No dia em que foram confirmadas as suspeitas de que os Estados Unidos estariam a ajudar os rebeldes sírios a obter armas para combater o regime, o secretário-geral da ONU, Ban Ki-moon, anunciou que Kofi Annan não irá renovar o seu mandato de enviado especial da ONU e da Liga Árabe para a Síria. (...) Uma fonte ligada à Casa Branca já confirmou a colaboração dos EUA com um centro de operações montado pela Turquia e seus aliados em Adana, uma cidade no sul do país, a 100 quilómetros da fronteira com a Síria, que tem prestado um apoio vital, a nível militar e de comunicações, aos opositores de Al-Assad".

jornal I

3 de Agosto de 2012

 

Contra-revolução

"As alterações à legislação laboral, que entraram em vigor em 1 de Agosto, são, sem dúvida, expressão máxima da contra-revolução nas relações de trabalho. No decurso dos últimos 10 anos foi feito, passo a passo, debaixo de pressões e chantagens de sectores patronais retrógrados, com cumplicidades de governantes que se situam entre o PP e o PS e a condescendência de algumas organizações sociais e também da UGT, um ataque continuado aos direitos dos trabalhadores. Agora consubstancia-se em lei, ao arrepio da Constituição da República, uma inversão do sentido progressista que marcou o caminhar da legislação do trabalho, desde os finais da década de sessenta do século passado".

Manuel Carvalho da Silva

Jornal de Notícias

4 de Agosto de 2012

 

Sociedade de castas

"Ficámos a saber há dias que Miguel Pais do Amaral, presidente da Media Capital, dona da TVI, é a pessoa que ocupa mais lugares em conselhos de administração de empresas portuguesas: Pais do Amaral administra nada menos de 73 empresas. (...) Mas porque se inclui num conselho de administração alguém que manifestamente não terá tempo para levar a cabo esse trabalho? (...) Trata-se, antes de mais, de uma questão de estatuto. Pais do Amaral pertence à categoria dos administradores, faça o que fizer ou mesmo que não faça nada, como outros pertencem à categoria dos desempregados ou dos «quinhenteuristas», ainda que sejam brilhantes, criativos, trabalhadores e doutorados. É isso que quer dizer uma sociedade de castas e é nisso que a sociedade portuguesa se está a transformar a passos largos, regressando à estratificação típica do Estado Novo".

José Vítor Malheiros

Público

7 de Agosto de 2012

 

Austeridade 1

"Mais de cem famílias estão a entrar em incumprimento por dia. No segundo trimestre, dez mil famílias e quase mil empresas deixaram de conseguir pagar os seus empréstimos"

Público (título)

7 de Agosto de 2012

 

Austeridade 2

"16 mil trabalhadores batem à porta da Segurança Social para reaverem salários em atraso. Pedidos de intervenção do Fundo de Garantia Salarial aumentaram 34% no primeiro trimestre de 2012"

Público (título)

10 de Agosto de 2012

 

Tambor-mor

"Houve um dia em que António Borges sonhou que poderia ser o Príncipe que governaria Portugal. Mas nem ele se enquadrava nos princípios sonhados por Nicolau Maquiavel nem as bases do PSD o levaram a sério. Não desistiu. E, neste Governo, vislumbrou a hipótese de ser o poder sem o parecer. Enrolado nos cortinados das salas do poder, Borges insinua, escreve, elegeu-se guru. No seu ócio como homem da sombra, pensa mandar. Como Passos Coelho o acolheu pensa que é o Hyde de Jefyll. (...) António Borges supõe ser o tambor-mor do Governo. Mas se julga é porque Passos Coelho e Miguel Relvas o permitem".

Fernando Sobral

Jornal de Negócios

28 de Agosto de 2012

 

Esta baderna

"O país que pensa assistiu, entre o perplexo e o estarrecido, às declarações do sr. António Borges a Judite de Sousa na TVI. Perplexo porque viu um assessor substituir o Governo numa entrevista importante. Estarrecido pela frieza gélida com que o senhorito falou no extermínio do serviço público de informação, em troca de coisa alguma. (...) Só um tolo admitiria que o preopinante falava com voz própria. Ele mais não era do que o eco, à sorrelfa, de Miguel Relvas, dissimulado nos bastidores pelas públicas razões conhecidas. Há algo de desprezível na conduta moral de quem se serve de um outro para dizer o que, no momento, não está interessado em afirmar; e de repugnante, naquele que se substitui com a cara, a voz e a ideia. Ambos se equivalem e ambos são a imagem restituída da baderna a que chegámos".

Baptista-Bastos

Diário de Notícias

29 de Agosto de 2012

 

Erro Crato

"Nuno Crato vive preocupado em exibir autoridade. Quer chumbar, punir, travar. Vê a escola como um centro de exclusão, não como espaço de desenvolvimento de competências sociais, culturais e técnicas - com regras, competição e exigência. Não tem um plano educativo desempoeirado: sofre de reumatismo ideológico. Engaveta os alunos. Encolhe o País. Reduz a riqueza".

André Macedo

Diário de Notícias

30 de Agosto de 2012

 

 

 

 

 

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