Breve Evocação de Ulpiano Nascimento

Nº 1721 - Outono 2012
Publicado em Memória por: Joao Caraca (autor)

Ulpiano foi um bravo seareiro, um combatente pela liberdade, um grande Amigo. Nascido em plena I Grande Guerra, viveu até à crise sistémica tremenda que nos assola desde a primeira década deste século. Percorreu o caminho das nossas sociedades durante quase cem anos e acompanhou apaixonada e abnegadamente os seus altos e baixos, as suas alegrias e as suas catástrofes, as suas descobertas e os seus desmandos. Foi grande amigo de minha Mãe, aluno e discípulo de meu Pai, amigo e companheiro do meu segundo Pai, António Costa Leal. E os meus irmãos e eu somos amigos da Lea e do Alfredo, os seus filhos, desde sempre. Lembro-me da boa disposição do Ulpiano e da sua jovialidade, bem como do orgulho que punha na sua boa forma física. Apesar dos períodos críticos por que passou, nas cadeias da ditadura e no exílio até ao 25 de Abril, tinha sempre uma atitude positiva e construtiva face aos tempos que necessariamente teriam de chegar. Era um conversador que nos encantava.

Fez parte da geração nova do MUD Juvenil que foi preparada com todo o carinho, determinação e inteligência para assegurar a transição do Estado Novo para a Democracia que haveria um dia de iluminar o nosso país. Houve muitos percalços no seu percurso, como sabemos; só a partir de Abril de 1974 esse sonho de mudança societal se tornou efetivo. O Ulpiano regressou então a Portugal sendo reintegrado no setor das pescas, onde deu um contributo inestimável, como diretor-geral e como Secretário de Estado. Nunca mais se afastou, nem por um momento, do caminho cultural que tinha assimilado nos seus genes, o do combate pela liberdade, pela igualdade e pela democracia.

Diretor da Seara Nova desde 1978, animou como ninguém os debates sobre a globalização das finanças, da economia e das nossas sociedades, preocupando-se com a sua compreensão científica, bem como com as práticas relevantes para a utilizar como etapa de emancipação e não como uma submissão a interesses inconfessáveis. Sabia comunicar a sua alegria intelectual aos que com ele conviviam, mas as questões pedagógicas e de circulação da informação e do conhecimento eram-lhe muito caras. O entusiamo com que voltou à Seara Nova para o seu projeto de intervenção são disso a prova mais cabal.

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