Ulpiano Nascimento: amigo, seareiro, camarada e companheiro sempre presente
Nº 1721 - Outono 2012
Publicado em Memória por: Mario Ruivo (autor)
Pelas vicissitudes das nossas vidas, não tivemos oportunidade de uma convivência frequente a não ser após o 25 de Abril e na Secretaria de Estado das Pescas, onde trabalhámos em estreita colaboração ou, mais tarde, na defesa dos valores pelos quais sempre nos batemos.
Deste relacionamento de muitas décadas vem-me à memória, antes de mais, a sua personalidade tomando partido contra tudo o que considerava injusto, atitude que se manifestou na sua ação como antifascista e anticolonialista, lutando pela liberdade em Portugal e solidarizando-se com as lutas dos povos oprimidos.
A sua formação de economista particularmente atento a um desenvolvimento ao serviço do homem e da justiça social cedo se revelou na colaboração com Bento Jesus Caraça na Revista de Economia. A sua participação ativa na luta contra o regime de Salazar acabaria por conduzi-lo à prisão e a pôr em causa a possibilidade de continuar a exercer a sua atividade profissional em Portugal. Ulpiano do Nascimento trabalhou como consultor e técnico na Comissão Económica para a América Latina ( CEPAL), em Santiago do Chile e em vários países da América Latina e Caraíbas. Nessas funções que desempenhou com reconhecida competência permitiu-lhe analisar in loco a relação entre os processos de subdesenvolvimento e a conivência entre as ditaduras e as oligarquias locais com o imperialismo. Os trabalhos que realizou em condições por vezes dramáticas (São Domingos, Paraguai) evidenciam a fraternidade que marcou sempre a sua postura e a sua ação.
Pelo prestígio de que gozava e pela sua experiência, foi depois convidado a integrar o programa de assistência técnica da FAO. Nesse quadro desempenhou missões de alta responsabilidade em países como a Argentina, o Brasil e o Uruguai, relacionadas com o desenvolvimento do setor pesqueiro e assessoria às administrações nacionais. Dadas as minhas funções no Departamento de Pescas da FAO tivemos ocasião de nos encontrar mais frequentemente quando passava pela sede da organização, em Roma. Tivemos, nesse período, oportunidade de colaborar em atividades de apoio às forças de oposição ao regime ditatorial vigente em Portugal e na mobilização dos movimentos italianos de solidariedade com a luta do povo português.
Depois do 25 de Abril, recordo o entusiasmo, competência e dedicação com que o Ulpiano se integrou na Secretaria de Estados das Pescas, contribuindo com a sua grande experiência para a extinção do sistema corporativo e a sua reestruturação em moldes compatíveis com os novos tempos. Em momentos difíceis, a sua vontade e compreensão das situações mostraram-se decisivas para o sucesso das iniciativas então tomadas para reativar este importante setor da economia nacional.
Mais recentemente, encontrámo-nos muitas vezes como amigos e militantes de causas políticas, cívicas e descendo, por vezes de braço dado, a Avenida da Liberdade no dia 25 de Abril.
Como todos sabemos, o Ulpiano contribuiu de modo determinante para proteger e relançar a "Seara Nova", o que nunca é demais sublinhar. Ajudou a manter o espírito humanista que sempre caracterizou esta revista de tantas tradições que, desde os tempos da ditadura e no meio de múltiplas vicissitudes e dificuldades, contribuiu para uma cultura democrática aberta e progressista. De vez em quando íamos trocando impressões sobre esta complexa navegação e a contribuição dos seareiros para a salvaguarda das conquitas de Abril.
Este é o património que nos lega Ulpiano do Nascimento, amigo tão solidário e generoso.
