Adeus Amigo!

Nº 1721 - Outono 2012
Publicado em Memória por: Herberto Goulart (autor)

Conhecemo-nos há uns cinquenta anos. Um grupo de jovens economistas procurava dar o seu saber profissional (ainda bem verde) à luta antifascista. Pedimos ao Ulpiano Nascimento para reunir e trabalhar connosco. Foi para nós ganhar um companheiro e aprender com a sua experiência e saber. Foi para o Ulpiano ganhar a nossa estima e uma forte admiração.

Prisão, exílio, separaram-nos por alguns anos. Reencontrámo-nos logo após o 25 de Abril nas lides entusiasmantes da Revolução e em muitas acções unitárias. Aliás Ulpiano tinha uma grande experiência de trabalho unitário: Sindicato dos Comercialistas (depois, dos Economistas), Revista de Economia, Seara Nova.

Foi aqui na revista, quando há anos integrei o seu Conselho Redactorial, que as minhas relações com Ulpiano passaram a fazer parte do quotidiano. E cimentou-se a nossa amizade, estribada na vontade e trabalho comuns para assegurar a continuidade da Seara Nova.

Ulpiano deixou-nos. Apesar da sua energia e da sua notável saúde, a morte aos 97 anos era sempre uma possibilidade real. Na tarde do dia 30 de Agosto fizemos uma reunião do Conselho Redactorial, onde o nosso Director teve importante papel, com acção determinante em várias decisões que houve que tomar.

A 31 de manhã recebi a notícia da sua morte súbita. Foi um choque emocional muito grande. Tive enorme tristeza: deixava de poder contar com a amizade e de beneficiar do saber, da inteligência e da força de vontade do velho companheiro Ulpiano Nascimento. Do Homem que, tal como antes sucedera com Câmara Reys, aguentou a Seara em momentos de grande dificuldade, bem podendo dizer-se que se a Revista existe e vai a caminho dos seus 91 anos a estes dois seareiros o deve.

Companheiro, Camarada, Amigo: não te esqueço!

Não duvido que gostarias de saber que pela minha parte tudo farei para ajudar a que a Seara Nova continue a ser a revista de cultura, democrática, progressista, que sempre ambicionaste.

 

Ver todos os textos de HERBERTO GOULART