Ulpiano: Muito Obrigado

Nº 1721 - Outono 2012
Publicado em Memória por: Joao Corregedor da Fonseca (autor)

Os portugueses vivem momentos de profunda inquietação que se reflectem em visíveis desequilíbrios emocionais a provocarem injusta instabilidade pessoal e familiar.

Valores humanos, civilizacionais, democráticos e republicanos são sistemática e premeditadamente desprezados pelos mentores dos mais nefandos métodos utilizados por poderosos meios capitalistas. Esses vorazes senhores do dinheiro, de que o governo é fiel serviçal, não têm rebuço em apenas manifestarem respeito pela hegemonia dos seus interesses, sem se importarem com os dramáticos problemas criados aos trabalhadores, aos jovens, aos mais velhos, às mulheres, a generalidade das famílias a empobrecerem aceleradamente, enfim, ao próprio País cada vez menos soberano e independente.

Sente-se na sociedade grande indignação perante as flagrantes injustiças que é obrigada a enfrentar. Verifica-se nas ruas, nos transportes públicos, um pouco por todo o lado, que não há alegria na população. Os rostos, fechados, mostram-nos que a tristeza é imensa. A preocupação domina os espíritos. Muitos cidadãos perderam, já, a esperança no futuro.

Porém, este dramático panorama social fez despertar entre os populares grande indignação e uma enorme revolta face à atitude arrogante, pejada de desumanidade, de governantes sem escrúpulos que, dia-a-dia, continuam a impor mais e mais sacrifícios e constrangimentos.

Ora, foi exactamente neste lamentável quadro - que começou a ser agravado há muito tempo por força das políticas antipatrióticas adoptadas - que tive a felicidade de conviver, durante largos anos, com uma personalidade cativante, figura de intelectual impoluto, de incomensurável rigor ético e moral que, entusiasticamente me animava, a mim e a tantos outros amigos, pondo em destaque a necessidade do Povo não se deixar esmorecer, de não perder a esperança, de não vacilar psicologicamente e de simultaneamente se dispor a combater, com denodo, o governo antidemocrático integrado por gente que nada tem a ver com os princípios do Portugal de Abril.

Homem livre, patriota, democrata, tão amigo, tão solidário, de uma firmeza inabalável, fazia-nos sentir, assim, mais confortados, mais animados ao ouvirmos as suas palavras.

Com os seus alegres e vigorosos 97 anos inculcava-nos a ideia de que o mal profundo lançado sobre os portugueses não era irremediável, que a situação melhoraria com a unida luta de todos contra os abencerragens do capital.

Ao recordar a sua figura, o seu exemplo, o seu entusiasmo, o seu sorriso que nunca o abandonava tenho de me despedir:

Muito Obrigado, Ulpiano!

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