Verticalidade cívica e de carácter

Nº 1721 - Outono 2012
Publicado em Memória por: Manuel Veiga (autor)

Não me ocorre a data precisa em que conheci pessoalmente Ulpiano Nascimento, que localizo, porém, nos anos oitenta, altura em que teve início a minha colaboração, mais ou menos regular, com a Seara Nova. Mas se não me lembro da data, tenho bem presentes as circunstâncias da nossa primeira conversa.

Participávamos ambos num jantar comemorativo do "25 de Abril", com algumas centenas de pessoas. Em determinado momento, desfeitos a refeição e os discursos, do conjunto da sala, sobressai a figura de Ulpiano Nascimento. Na ocasião vivia eu um certo deslumbramento pela publicação de meus textos na Seara Nova, publicação que lia desde os longínquos anos sessenta e cuja leitura muito contribuiu para a minha formação cívica e política. Não iria, pois, deixar passar a oportunidade de conhecer pessoalmente o Director daquela que considerava ser também "a minha revista".

Afoitei-me portanto e dirigi-me, por entre o burburinho do fim do jantar, à mesa de Ulpiano Nascimento. Um pouco constrangido, balbuciei o meu nome, receando que, compreensivelmente, ele não fizesse a mínima ideia de quem eu era e qual o meu propósito. Acolheu-me, porém, com caloroso abraço e teve palavras de apreço e simpatia, por certo imerecidas e exageradas, mas que para mim foram estímulo e demonstravam que Ulpiano Nascimento levava muito a sério as suas funções de Director da Seara Nova - não apenas conhecia o nome dos colaboradores, por mais anónimos que fossem (como era o caso), como conhecia bem os artigos que a revista publicava.

Durante alguns minutos de conversa tive oportunidade de lhe falar de um assunto da actualidade e que, em minha opinião, merecia as páginas da Seara Nova. Vi luzir-lhe uma centelha de interesse no olhar penetrante e incitou-me a escrever sobre o tema. Mas preveniu-me, desde logo, que a sua opinião era apenas mais uma no conjunto da redacção da revista; e que, quem iria decidir sobre a publicação do artigo, seria o conselho redactorial. Esse primeiro encontro terminou com veemente aperto de mão que ficou a selar a corrente de simpatia que se estabelecera e para mim constituiu semente de profundo respeito e amizade, que o convívio posterior e o trabalho conjunto cimentaram.

De facto, anos mais tarde, quando a convite de Herberto Goulart, passei a integrar o conselho redactorial, pude admirar em profundidade e observar directamente as qualidades humanas e intelectuais de Ulpiano Nascimento. Na realidade, o porte altivo e aprumado de Ulpiano Nascimento tem expressão condigna na verticalidade do seu carácter e da sua vida cívica.

Fui surpreendido no estrangeiro com o óbito de Ulpiano do Nascimento. Bem sei que nada adianta, mas tenho mágoa não ter sido possível estar presente nas cerimónias fúnebres. Conforta-me a certeza que o seu exemplo e a sua dedicação irão frutificar e que a Seara Nova, a que Ulpiano Nascimento dedicou grande parte da sua vida, prosseguirá, no presente e no futuro, como uma referência cívica e cultural, na pluralidade das suas opiniões e no apego aos valores da Revolução de 25 de Abril de 1974.

 

 

 

 

 

 

 

 

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