Poder político e poder mediático

Nº 1721 - Outono 2012
Publicado em Nacional por: Manuel Veiga (autor)

A configuração do poder é multifacetada. Assume diversas máscaras numa encenação do mesmo, quer dizer, da articulação dos interesses económicos dominantes, instância última onde reside o verdadeiro rosto (invisível) do poder.

Primeira consequência: não há apenas um sistema formal de poder, mas uma multiplicidade de sistemas de poder, disseminados no interior da sociedade, muitos dos quais meros poderes fácticos, que dizer, sem qualquer estrutura (visível) que os suporte.

Segunda consequência: nenhum sistema de poder é, em si mesmo, autónomo e independente dos restantes: os diversos sistemas de poder desdobram-se uns nos outros, funcionando em rede, retroagindo nos respectivos chamamentos. Decorre, portanto, que o poder não é apenas o "lugar de poder" que se observe, se ocupe, máxime se conquiste, mas sobretudo uma "relação de poder" que se exerce e se sofre - não há poder sem "exercício do poder"...

Tradicionalmente o poder de Estado tem assumido o lugar por excelência do "exercício do poder". Compreende-se. O Estado, nas sociedades politicamente organizadas, detém o monopólio da violência. É o único sistema de poder que se poderá impor pela força e pelo constrangimento físico. Quer dizer, o poder Estado é essencialmente coercivo...

Como é óbvio, a "domesticação" da violência através do poder de Estado representa um avanço histórico incalculável; tal não significa, porém, que a violência não faça parte da sociedade e, em determinados contextos histórico-sociais, não possa ser ela própria "parteira" do devir social.

Porém, outros sistemas de poder actuam na sociedade. Não pela coerção, mas pela persuasão; não pela imposição da lei e da ordem ou pela violência física se necessário, mas pelas artimanhas da ideologia. De forma mais subtil, portanto. E em imbricada cumplicidade com o poder de Estado.

Como acontece com o poder mediático

É na propagação de uma ideologia que o "poder mediático" se cumpre. Poder mediático que excede o papel dos órgãos da comunicação social e o quadro do constitucional direito à informação, para envolver a indústria do entretenimento, as agências de comunicação, a publicidade, o marketing, o consumo, o sistema de moda, o desporto e tantos mais - uma vasta panóplia de meios, que encenam aquilo que alguns designam por "Sociedade do Espectáculo".

Os meios são diversos. O fito, porém, é sempre o mesmo - a neutralização do poder dos cidadãos, pela aceitação acrítica da ideologia. Então as diversas configurações do poder mediático, em apoteose de efeitos, proclamam a "inevitabilidade" da vida quotidiana, sem qualquer hipótese de remissão.

Seja pela angústia ou pelo medo. Seja pelo consumo e o lazer. Seja pelo culto do "parecer" (mais que o "ser", ou mesmo o "ter") o que importa na dita "Sociedade do Espectáculo" é isolar e atomizar o indivíduo, massificá-lo, desmembrá-lo da sua condição de cidadão, inibi-lo na sua autonomia, frustrar a fecundidade da participação social e assim o submeter voluntariamente aos ditames da ideologia dominante e dos interesses económico-financeiros que serve e a justificam.

O poder mediático ganha cada vez maior expressão com a globalização capitalista e na articulação de novas dimensões daquilo que alguns autores (G. Lipovetsky e H. Juvin - in "O Ocidente Mundializado") designam como "Cultura-Mundo", uma espécie de hipercultura transnacional, que modela o universo material da produção e circulação de mercadorias, a nível planetário.

Nesta perspectiva, a cultura já não será apenas a superestrutura de signos e representações que agrega os indivíduos, no quadro das respectivas sociedades originárias, para se projectar numa instância que remete directamente uma dimensão universal da produção e do consumo desenfreado.

As marcas, os objectos, a moda, o turismo, o desporto, a publicidade tendem a ser os mesmos em toda a parte e a ocupar o local simbólico da(s) cultura(s) e o desígnios da ética e da estética. Como se escreve na obra citada "quando a economia se torna cultura e quando o cultural se faz comércio, chega o momento da cultura-mundo".

Nesta perspectiva, seguindo os mesmos autores, a denominada cultura-mundo não só transcende as especificidades culturais dos diversos países e regiões, como também as dicotomias entre "criação cultural e indústria cultural, alta cultura e cultura comercial, imaginário e economia, vanguarda e mercado, arte e moda" .

No entanto, somos tributários de um tempo em que a cultura iluminava a existência e, no seu corpo de valores, regras e sistemas simbólicos, abria espaço ao sonho e estimulava a superação das contingências históricas. Havia assim integração e identificação social dos indivíduos que, nos seus processos de trabalho e socialização, estabeleciam laços e criavam solidariedades.

A cultura gozava então de uma certa "autonomia relativa" em relação à "economia", privilégio de que pagava o preço da sua "marginalização", pois que os fenómenos culturais não faziam parte directamente do ciclo do trabalho e da acumulação do capital, permanecendo sempre numa posição subordinada à esfera económica. Mas presentemente verifica-se uma completa capitulação da cultura perante o império da economia que, de resto, como tem sido notado, corresponde à "mercadorização" cada vez mais generalizada de todos os aspectos da vida em sociedade e à "ditadura da economia" a todos os níveis (Ansel Jappe in "Sobre a Balsa de Medusa").

Dito por outras palavras, na actual fase da humanidade, a cultura entra directamente no circuito de acumulação capitalista e na realização do lucro. Quem ignorará, por exemplo, que a UNESCO estima que a contribuição das denominadas "indústrias culturais" representa 7% do PIB mundial e que, nos países da OCDE, desde o ano 2000, o crescimento destas "indústrias" é entre 5,2% a 20% ao ano (Fonte: "O Ocidente Mundializado").

Julgo no entanto ser de salientar, que para além desta metamorfose da cultura em mais- valia económica, o papel específico da denominada "cultura-mundo" no processo de globalização capitalista, cumpre-se, sobretudo, na promoção dos valores e ideias dominantes, na eficaz "pacificação" dos indivíduos e no estabelecimento de consensos sociais, num processo que os autores designam por "tittytainment".

De que se trata? Anselm Jappe, na obra assinalada, refere o seguinte acontecimento, a todos os títulos esclarecedor. Em 1995, na primeira realização, em S.Franscisco (USA), do "State of the World Forum", conclave na qual participaram cerca de quinhentas pessoas das mais poderosas do mundo, entre as quais, Gorbachev, Bush, Bill Gates, Thatcher e Brzezinski, que foi conselheiro de segurança nacional de Jimmy Carter.

Este último terá proposto que às populações supérfluas e descartáveis, potencialmente perigosas devido à sua marginalização, tendo em vista neutralizar a sua frustração social, deveria ser fornecida alimentação básica (restos de restaurantes, porventura) e administradas doses maciças de entretenimento (entertainment) embrutecedor, em vista a provocar um estado de "letargia feliz", semelhante ao das crianças de seio (tits no jargão americano) depois da mamada.

Enfim, a imbecilização dos indivíduos como estratégia de poder...

Vemos, portanto, que a repressão e o seu papel central na prevenção e domesticação dos conflitos sociais se deslocada para outras instâncias, designadamente, para aos processos de infantilização dos indivíduos e da sociedade. Não se nega a importância da repressão e da violência no processo de conformação social, nem muito menos que ela foi superada - apenas se salienta que, ao menos provisoriamente, terão sido remetidas para um lugar de "última instância"...

Parece, assim, evidente que a relação da cultura-mundo com a economia ultrapassa manifestamente o quadro da instrumentalização da cultura, como objecto de realização lucro e acumulação de mais-valias capitalistas. Como se refere na obra citada "existe uma profunda ligação entre a indústria do entretenimento e a deriva capitalista para infantilização e para o narcisismo; a economia material mantém estreitos laços com novas formas da "economia psíquica e libidinal"...

E, noutro passo, a indústria do entretenimento "é uma das principais responsáveis pela verdadeira "regressão antropológica" para a qual nos arrasta o capitalismo"...

O poder mediático, em suas diversas configurações, expande, encena, alimenta, exponencia, a afirmação da denominada cultura-mundo, da qual, aliás, se alimenta. É esse poder subtil, sinuoso e difuso que transmite movimento e cor a vidas monótonas e, na sua vibração, transfigura o real e o imaginário social. De tal forma que os indivíduos concretos ficam "livremente" reféns das próprias algemas...

Já não a política, as ruas das cidades, a fruição das artes ou o deslumbramento dos lugares. Mas por todo o lado, os mesmos ícones e as mesmas liturgias do consumo, os mesmos destinos turísticos, ou mesma literatura "fast food" nos escaparates dos supermercados; ou o isolamento e a "vida virtual" nas consolas, ou frente ao écran da televisão e da internet...

Não se trata, portanto, apenas, da realização do elementar direito à informação, quando se fala da Comunicação Social. Mas do combate por uma vida digna, contra a informação espectáculo e a cultura-mundo, que em suas múltiplas configurações encenam a "Sociedade do Espectáculo", que nos submerge.

Como romper o cerco?

Retomemos as ideias iniciais sobre a natureza do poder. Como se procurou assinalar, o poder é algo se exerce a partir de diversos "lugares de poder", no âmbito das relações sociais, que como se sabe, são desiguais e sempre instáveis e precárias.

Assim, as relações de poder são imanentes ao conjunto da sociedade e resolvem-se nos embates no interior das relações de produção económica, certamente, mas também nos grupos restritos e no interior das instituições, etc. O poder exerce, por isso, numa linha de força geral que atravessa todos os enfrentamentos e cuja articulação determina as grandes "narrativas de poder" e os alinhamentos e arranjos que lhe conferem consistência e visibilidade.

As grandes expressões de poder serão, portanto, manifestações superestruturais dos efeitos continuamente provocados pelas lutas e embates difusos no interior das relações sociais.

Percebe-se assim que onde há poder, haja resistência. Porém, importa assinalar, que a resistência não é "exterior" às relações sociais em si mesmas. Tal como relações de poder se constituem em rede que envolve toda a sociedade, também a resistência atravessa as estratificações sociais, as instituições, os aparelhos e as especificidades das relações sociais em concreto.

Será, pois, no campo de correlações de força no interior da sociedade que, segundo alguns autores (Michel Foucault), se devem compreender os mecanismos do sistema de poder e não nas análises redutoras, embora dominantes do pensamento político moderno, que consideram apenas um sistema unitário de poder, expresso na equação Soberano-Lei-Cidadão. Ou seja, o Estado como lugar privilegiado do exercício do poder...

De salientar ainda, noutro plano, que segundo as análises de Foucault o "poder produz conhecimento", o seja, o poder é também o discurso em que o próprio poder se encena. O poder, portanto, como produtor de Verdade... Em rigor, nesta perspectiva, mais do que em sistema de poder, se deverá falar em sistema de "Poder-Saber".

O filósofo considera que a imbricação, nas sociedades modernas, do poder e do saber constitui o mecanismo fundamental da produção da verdade (ideológica), cuja finalidade essencial é a dominação do homem. Foucault considera, porém, que a relação entre o saber e o poder mantém uma espécie de reciprocidade: "o exercício do poder cria perpetuamente saber e, inversamente, o saber acarreta efeitos de poder."

A Verdade resultará assim do jogo coercivo do poder, pois que, como lembra o filosofo, "nenhum poder se exerce sem a extracção, a apropriação, a distribuição ou a retenção de um saber (...), não havendo o conhecimento de um lado e a sociedade do outro, mas as formas fundamentais do ‘poder-saber".

Neste sentido, se poderá assinalar que o exercício da cidadania, enquanto espaço de realização do poder dos cidadãos, não se resolve apenas na resistência aos poderes dominantes, no quadro da multiplicidade de relações e embates estabelecidos, mas também deve necessariamente procurada na produção simbólica, na exacta medida em que o discurso ideológico constitui, em si mesmo, objecto de luta.

Assim, só será possível falar em cidadania activa, se o seu exercício considerar também o espaço discursivo no sentido de permitir aos indivíduos e aos grupos sociais participarem na formulação da rede simbólica/ideológica/cultural que enforma, em cada momento, a sociedade.

Julgo ser aqui que, sobretudo, se inscreve o papel nuclear do poder mediático e dos órgãos da comunicação social, na sociedade contemporânea - poder mediático que exprime o que atrás designamos por cultura-mundo e, por isso, tende a reforçar a sociedade de consumo e a reforçar os modelos e comportamentos sociais que servem os interesses dos interesses capitalistas.

Por outro lado, as próprias tecnologias mediáticas e de informação, que o poder mediático incorpora, espalham-se pelos mais diversos espaços, passando a integrar a sociabilidade dos cidadãos, estabelecendo posturas, atitudes e lógicas de comportamento, que são assimilados, como valores colectivos, pela própria subjectividade individual.

No seu aparato, o poder mediático reveste-se das suas próprias liturgias de poder, não apenas pelo seu papel social (e a quem serve), mas porque como verdadeiro poder é visto pela sociedade, que o identifica como algo superior, definidor da realidade, revelador da verdade e criador de mitos, celebridades, que alimentam o imaginário colectivo.

A especificidade da questão é que o poder mediático se realiza numa espécie de "submissão voluntária". A interiorização subjectiva dos modelos e comportamentos sociais e, sobretudo, a interiorização do "olhar do outro", que o poder mediático exponencia, transforma cada indivíduo seu próprio vigilante.

O temor interiorizado "do que os outros vão pensar" (por não se frequentar tal o tal meio, conhecer a vida de tal celebridade, usar tal marca de vestuário, etc. etc.) constitui motivo de submissão voluntária à ordem estabelecida e ao consenso social, ou seja, constitui um poderoso e subtil elemento de sustentação (pela inércia) do sistema de poder.

Como romper o cerco? Insiste-se.

Importa acentuar que, como indica Marx, a história é construída a partir das condições existentes e que a superação de uma formação social passa necessariamente pela identificação das manifestações próprias do respectivo poder.

Acontece que, desde o início das sociedades modernas, os meios de comunicação contribuíram decisivamente para a construção e a modulação das formas de pensar e os comportamentos dos indivíduos e para a consolidação das sociedades capitalistas modernas. Como se sabe, um dos traços fundamentais do mundo contemporâneo é exactamente o inesgotável fluxo de imagens e de conteúdos simbólicos, que conformam a realidade, as relações sociais e a subjectividade individual.

A realidade exige assim que os cidadãos saibam lidar com a espectacularidade de informação que invadem diariamente a vida quotidiana e com o impacto do fluxo acelerado de informações, imagens e acontecimentos, que os envolvem. Saber interpretá-los e dar-lhe um significado será uma forma de exercício do poder por parte dos cidadãos, que irá contribuir seguramente para destruturar os poderes dominantes.

Assim, importará ter presente que, se é verdade que somos produtos da sociedade, também somos nós, cidadãos, os produtores da sociedade que almejamos. Não somos meras marionetas de um jogo de forças, nem meros expectadores dos embates dos diversos poderes. Cada um de nós é co-autor do trama em que os poderes se tecem. E, portanto, o nosso silêncio e passividade, ou a nossa acção decidida irão contribuir para manter ou alterar o estado das coisas.

Afinal, onde "há poder há resistência". E toda a resistência, como se procurou esclarecer ao longo destas linhas, cria por si novas "formas do poder-saber".

Quer dizer, fundamentos de uma vida-outra...

Bibliografia:

. Michel Foucault - "Ideologia e Aparelhos Ideológicos do Estado"- Editorial Presença; "Vontade de Saber"- Edições Relógio de Água;

. Gilles Lipovetsky e Hervé Juvin - "O Ocidente Mundializado - Controvérsia sobre a Cultura Planetária" - Edições 70;

. Ansel Jappe - "Sobre a Balsa da Medusa" - Edições Antígona

 


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