Cooperativa Mó de vida Comércio e turismo solidários

Nº 1724 - Verão 2013
Publicado em Economia Social por: Ana Goulart (autor)

Criada em 2002, a Cooperativa de Consumidores Mó de Vida (ou só Mó de Vida) apostou no conceito de Comércio Justo, porém, os seus fundadores, "quase todos profissionalmente ligados ao turismo" decidiram associar naquele conceito o do turismo justo. Hoje, as duas actividades desenvolvem-se lado a lado, sempre com a mesma preocupação: apostar no desenvolvimento local, seja em Portugal ou nos países onde a Mó de Vida tem parceiros.
Decorria o mês de Abril do ano de 2002 quando sete pessoas "com vontade de formar uma associação de desenvolvimento local" iniciaram uma pesquisa que as conduziu ao Comércio Justo, cujo principal desafio é: "passarmos de pessoas que apenas consomem a cidadãs e cidadãos críticas/os e activas/os, parte integrante do processo de transformação do modelo económico vigente".
Por comércio justo entendem-se as trocas entre produtores e consumidores, o mais livres possíveis de intermediários, conseguindo assim um preço justo para ambos. Mas o Comércio Justo é também um movimento social que, "através de uma prática comercial, um trabalho de sensibilização e mobilização aspira transformar os actuais modelos de relações económicas e participar na construção de alternativas". O que passa igualmente por apoiar "as organizações de produtores na defesa dos seus cultivos e formas tradicionais de produção", o que torna "incompatível a comercialização destes produtos através da grande distribuição alimentar".

Mais que integrar, transformar

Carlos Gomes, presidente da Assembleia-Geral da Mó de Vida, explica que o conceito de Comércio Justo surgiu muito associado à dicotomia Norte/Sul. "Temos os ricos do Norte e os pobres do Sul. Os pobres do Sul produzem as matérias-primas que os ricos do Norte compram", o que muitas vezes se traduz na apropriação de recursos naturais e dos modos de produção de comunidades locais, cuja sobrevivência depende exclusivamente da produção dessas matérias-primas. E também se traduz em produtos comprados a preços profundamente injustos, para, uma vez transformados, adquirirem custos excessivamente elevados.
É pois por isso que o desafio do Comércio Justo passa por sensibilizar e formar cidadãs e cidadãos, para a necessidade de serem mais que simples consumidoras e consumidores; é necessário que, de forma activa, contribuam para a justa distribuição de riqueza. Com um preço justo beneficia quem produz, mas também quem compra.
"Nos dias que correm, a diferença entre Norte e Sul acabou por, de alguma forma, se esbater. E o Comércio Justo adoptou um novo objectivo: encurtar o circuito comercial", refere Carlos Gomes, precisando que tal passa por levar "os produtos ao consumidor, cortando na intermediação desnecessária".
Baseado sempre em critérios ambientais e sociais, o Comércio Justo pretende ser "factor de transformação e não apenas de integração [dos pequenos produtores nos circuitos comerciais]. Os produtores têm de ter acesso aos mercados, disso depende a sua sobrevivência; os intermediários de que se serve a economia capitalista exploram os trabalhadores e não respeitam critérios justos e de equidade. É deste modo que se reproduzem os exemplos do sistema que aniquila os pequenos produtores", diz o dirigente da Mó de Vida.

Excedentes

Uma rápida passagem de olhos pelas prateleiras da loja da Mó de Vida levaria a crer, pelo que atrás foi referido, que do açúcar e café de Cuba (ou de vários outros pontos do planeta), aos gressinos com ervas da Palestina, passando pelo chá da Tanzânia até ao doce de melancia do Burkina Faso, que todos os bens ali comercializados chegavam directamente das pequenas comunidades produtoras destes países à Cooperativa sedeada no Pragal, Almada.
"A Libero Mondo é uma cooperativa italiana que funciona como uma central de compras do Comércio Justo", esclarece Carlos Gomes. Um intermediário? "Absolutamente necessário, cuja actividade é totalmente transparente".
A Libero Mondo assegura ainda outras necessidades dos produtores como a embalagem dos produtos e garante a distribuição destes em quase toda a Europa do Sul. Uma actividade que gera "excedentes"; "no Comércio Justo não há lucros, há excedentes que são reinvestidos nas próprias comunidades, no que a comunidade decidir", elucida o presente da Assembleia-Geral da Mó de Vida.
Outra parte, mais reduzida, dos excedentes gerados serve para reinvestir na própria organização, na sua promoção e divulgação. "Para que tudo funcione, a cadeia deve ser permanente. Na Mó de Vida trabalhamos com escolas e outras instituições, com vista à sensibilização dos futuros e actuais consumidores".
Mais recentemente, uma outra frente de trabalho começou a ser desenvolvida. "Localmente, estabelecemos contactos com pequenos produtores agrícolas e os consumidores que o desejem podem fazer-nos chegar uma lista de produtos que necessitem que são depois entregues ao sábado na Mó de Vida", refere Carlos Gomes, indicando os vários cabazes colocados em cima de uma grande mesa, devidamente identificados com o nome do consumidor, que aguardam a chegada dos legumes, frutas e ovos frescos no próximo sábado.

Fundada em 2002, a Cooperativa de Consumidores Mó de Vida dirige a sua actividade para o Comércio Justo e para o Turismo Ético e Solidário. Conta agora com 70 cooperantes e localiza-se na Calçadinha da Horta, n.º 18, no Pragal, Almada, sendo vizinha de cima da Associação Cultural Manuel da Fonseca, no antigo espaço ocupado pela Cooperativa Pragalense.

Na sua loja, a Loja do Mundo, é possível encontrar produtos alimentares, detergentes, produtos de higiene pessoal e cosméticos provenientes de todo o mundo (incluindo portugueses) e produzidos por pequenos produtores de pequenas comunidades locais, com a garantia de terem um preço justo. Ou seja, um preço que beneficia o produtor e o consumidor.

No mesmo espaço amplo, é ainda possível encontrar artesanato, tomar um chá (por exemplo, do Sri Lanka) ou um café (da Etiópia) no bar "Pausa Justa", consultar um livro da biblioteca, ou tão somente desfrutar da música ambiente de ritmos latinos, africanos ou ainda mais desconhecidos.

Qualquer pessoa pode comprar produtos na Mó de Vida, havendo ainda a possibilidade de utilizar o site www.modevida.com, para o efeito.

A Loja do Mundo está aberta de segunda a sexta-feira, entre as 14 e as 19 horas, e aos sábados, entre as 10 e as 14 horas.


Turismo ético e solidário

Os sete fundadores da Mó de Vida estão "quase todos ligados profissionalmente ao sector do turismo". O que os faz não só conhecer o sector, como ter dele uma visão muito própria. Daí que, há alguns anos, a Cooperativa tenha iniciado uma outra actividade: a do turismo ético e solidário.
Para compreender este conceito é necessário perceber o que é e como funciona o sector do turismo na economia capitalista. "A actividade turística, da forma como tem sido desenvolvida, tem-se revelado profundamente devastadora para as comunidades dos países receptores, suas culturas e tradições, e para o meio ambiente. Além disso, tem ajudado a aprofundar as desigualdades socioeconómicas entre os países do Norte (mais ricos) e os do Sul do planeta, já que os lucros gerados em quase nada beneficiam as comunidades locais".
"O turismo é um produto com características únicas, pois quando o consumidor adquire uma viagem não está a comprar algo fisicamente palpável. Na verdade, está a comprar sonhos e ilusões. Aí incide parte da estratégia da maioria dos operadores turísticos cuja preocupação é proporcionar o paraíso aos clientes, sem qualquer rigor na informação ou aprofundamento das questões referentes aos aspectos sociais, políticos e culturais. No actual cenário económico mundial o turismo possui as seguintes características: é o sector de mais rápido crescimento da economia mundial. Portanto, os países subdesenvolvidos tentam atrair investimentos estrangeiros sem qualquer critério, considerando que o seu potencial pode gerar milhões de dólares com relativa facilidade; dominado pelas grandes empresas transnacionais; quando utiliza mão-de-obra local, pratica uma política de baixos salários sem garantir um mínimo de estabilidade".
"Por outro lado, as fortes campanhas de marketing promovidas por estes grandes grupos, dirigidas somente ao bem-estar do turista, provocam a fraca consciencialização do turista para os problemas sociais, ambientais, políticos e económicos enfrentados pelas populações que os recebem; a perda das identidades culturais locais através da criação de estereótipos adequados a um ou mais mercados emissores. E o já referido consumo de culturas exóticas, praias paradisíacas e hotéis de luxo é altamente direccionado para os países do 3.º mundo - América Latina, Ásia e África -, cuja fragilidade da legislação potencializa o benefício unilateral das transnacionais".
"Além disso, o turismo é parte integrante dos programas de ajuste estrutural impostos pelo FMI e Banco Mundial, classificando-o numa estratégia de exportação como condição para realizar empréstimos. Nesta lógica, os governos dos países devedores endividam-se para cumprir os seus compromissos mediante enormes investimentos em infra-estruturas turísticas como estradas, hotéis e outros. Os investimentos públicos nesta área somam mais de 800.000 milhões de dólares por ano em todo o mundo, equivalentes a 12% de todo o investimento mundial. Paralelamente às condições impostas pelo FMI e Banco Mundial, a OMC (Organização Mundial do Comércio) tomou outras medidas para liberalizar a economia mundial através do Acordo Geral sobre Comércio e Serviços que inclui a facilitação do investimento de empresas transnacionais na indústria turística dos países em desenvolvimento e considera uma prática desleal de comércio a protecção das empresas nacionais e proporciona às transnacionais os mesmos benefícios destinados às pequenas empresas locais". (em www.modevida.com)
Deste modo, o turismo ético e solidário contribui para formar turistas responsáveis, através da aplicação do mesmo conceito do Comércio Justo - o turismo como forma adicional de rendimentos das comunidades locais.

Portugal, Paris e América Latina
Assim, a Mó de Vida estabeleceu parcerias com diversas organizações congéneres em diversas zonas do globo proporciona por sua vez a possibilidade de estadias a cidadãos estrangeiros. Os programas nacionais incluem Lisboa, Sabugueiro (Seia) e Torres Vedras, enquanto que os programas internacionais contemplam Paris Alternativo, Cuba, Bolívia, Venezuela e Nicarágua, estando em curso o estabelecimento de uma parceria com Itália.
Como nota curiosa é de referir que no Sabugueiro é possível comprar o tradicional "Queijo da Serra" a um casal produtor (ele pastor, ela queijeira), que o fabrica da mesma forma que os seus antepassados. Em Seia, onde a Mó de Vida tem uma delegação, dado que dois dos seus fundadores ali vivem actualmente, o açúcar com que são confeccionadas as bolachas da Casa Santa Isabel é cubano e adquirido no Comércio Justo.
Pouco divulgado, o turismo responsável proporciona ao turista uma forma absolutamente inovadora e diferente de conhecer outras realidades. E como o objectivo é sempre o de que a comunidade que se visita saia beneficiada, pode muito bem dar-se o caso de o alojamento decorrer numa comunidade piscatória e as refeições serem feitas nas casas dos habitantes locais.
Toda a informação sobre como viajar e fazer férias de forma responsável está disponível em www.modevida.com.

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