Narrativa e poema A propósito de Urbano Tavares Rodrigues

Nº 1725 - Outono 2013
Publicado em Cultura por: Manuel Gusmao (autor)

Há escritores que do princípio ao fim da sua obra, nos mantêm habitando um mesmo quarto, mobilado da mesma forma e onde encontramos as mesmas personagens. Outros há, que nos arrastam constantemente para outros países e outros climas; de surpresa em surpresa. Urbano Tavares Rodrigues é ainda um outro caso, o de alguém que tem lugares de família e de eleição, habitados e obsessivamente visitados por um conjunto de personagens sempre dispostos a surpreenderem-nos.

Começando a publicar já nos anos 50, contemporâneo da chamada polémica interna do neo-realismo, já não é propriamente um escritor neo-realista sem contudo perder a fidelidade política que o acompanhará até à morte. Entretanto, evoluirá a partir daí, ampliando a inquirição social, com traços da inquietação existencialista e uma valorização do universo onírico a que atribuirá diferentes funções narrativas e estilísticas.

No quadro da versatilidade genológica da sua obra, com mais de 50 anos de escrita no seu activo, Urbano Tavares Rodrigues será ainda capaz de nos surpreender: em 2005, publicava Rostos da Índia e alguns sonhos.

Este livro, pelos textos que acolhe, é e não é uma surpresa. Comecemos pela afirmação do seu carácter surpreendente. É que não tenho grandes dúvidas em dizer que esta é uma recolha de poesia, ou mais precisamente de poemas em prosa. Eu sei que nesta matéria é conveniente usar de algumas cautelas e, entretanto, aquilo que experimento como uma evidência é que estes textos, poderiam aparecer-nos, nas páginas de um diário, como anotações de viagem ou como basicamente micro-narrativas, etc., mas de facto são ou apresentam-se à leitura como casos desse género perturbante, que para alguns é paradoxal desde a sua própria designação, que seria um caso de contradição nos termos - o poema em prosa.

Se é surpreendente o momento da obra em que encontramos este primeiro livro de poemas, que o seu autor como tal reconhece ao isolá-lo, como "poesia", na sua bibliografia, publicada no II volume das suas OBRAS COMPLETAS, em 2009. Se eu disse acima que esse carácter surpreendente, não correspondia a uma surpresa total, eu estava a pensar que todos os leitores da sua obra de ficção, em particular os leitores dos contos, conhecem seguramente o rasto, os vestígios que frequentemente imprimem no tecido narrativo uma marca de um ethos discursivo de natureza lírica. Numa descrição de paisagem, de um ambiente ou de um clima, na narrativa de um sonho, deparamo-nos com aquela fusão e transporte pelos quais opera a subjectivização enunciativa que leva a que uma paisagem natural se transforme numa paisagem interior ou a natureza se converta no Outro, presente ou ausente, fasto ou nefasto, do diálogo amoroso.

O sonho dá acesso à realidade de um outro real e é, designadamente, a reserva de uma energia transformadora que pode deslocar o mundo da prosa e retirá-lo do domínio de uma técnica lógica tendencialmente burocrática e redutora. É neste sentido, recordando a atitude lírica que sempre contamina as narrativas de Urbano que se pode dizer que este seu livro não é uma surpresa absoluta, nem algo de inverosímil ou de atrevimento temerário.

Vejamo-lo então mais de perto.

Rostos

Neste livro aquilo de que se trata é de traços ou micro narrativas líricas e de anotações lírico-narrativas. No primeiro caso, as narrativas, por serem mínimas ou se reduzirem quase a alguns traços, evitam as regras e convenções da estrutura das personagens e da sequencialidade da acção. No segundo caso, a primeira posição concedida ao lírico decorre de um primado da plasticidade verbal e poiética sobre as sucessivas transformações do discurso narrativo, primado da figuralidade e do fazer profuso das imagens sobre as regras e convenções do pacto ficcional.

O próprio título dá indicações sobre o que lateja nos textos. "Rostos" é determinada por uma daquelas localizações que não é só geográfica mas, para nós, de várias formas, mítica - "da Índia". Rostos não se aplica apenas a retratos de pessoas que por sinédoque figurariam a Índia, mas também a paisagens, urbanas ou não, ao crepúsculo matinal ou do anoitecer. "E alguns sonhos" diz que nem tudo é sonho - nem todos os rostos são, por exemplo, apercebidos em sonhos - e que não são todos os sonhos. No livro, só teremos como sonhos, os textos que expressamente o declaram ou muito insistentemente o insinuam, mas essa restrição é como que compensada pelo modo como o modelo poético da narrativa de sonho contamina todos os traços narrativos com as suas anotações lírico-narrativas, as suas figuras hesitantes ou fulgurantes e o seu sonambulismo. O título de um poema "Ruas e sonhos de Deli" diz essa contiguidade e a contaminação que se desencadeia.

Mas esta contaminação não obedece apenas a uma lógica onírica, ela reenuncia a mónada transtemporal que vibra no pessoano outrora agora, ela rola consigo ecos de Baudelaire e Rimbaud, ecos da música do oriente de Pessanha e mistura à maneira deste autor, o fascínio e a repulsa, a percepção da sensualidade mágica dos lugares e a disformidade grotesca da miséria, enquanto forma de amputação do humano.

Mas as coisas não ficam por aqui. O Urbano tem actualmente, pronto para publicação um livro de poemas que usam exclusivamente o verso. Chama-se HORAS DE VIDRO. Este livro relativamente inesperado também não surpreenderá completamente um leitor assíduo do romancista e contista Urbano Tavares Rodrigues. Quem conheça a sua obra em prosa já terá sido sensível à contaminação da sua linguagem narrativa por gestos e procedimentos próximos dos da poesia lírica. Entretanto, se por vezes podemos falar de prosa poética em relação aos textos de Urbano, essa expressão não nos coloca fora do campo ou dos géneros da prosa: a "prosa poética" é um género da prosa e não um género da poesia. O peso do ethos e do tonus líricos na ficção de Urbano Tavares Rodrigues é acentuado desde os seus primeiros livros e constituirá uma das características distintivas do conjunto da sua obra. Essa inclinação lírica marca-se de diferentes maneiras na sua arte narrativa. Por um lado, ela surge como efeito de uma concentração da narração em torno de um momento que é temporalmente forte. Por outro lado, pode ser relacionada com a importância da temática amorosa em muitas das suas histórias e da sua figuração através da actualização de estruturas tópicas da lírica. É o caso da polaridade estruturante de Eros e Thanatos e é ainda, ao nível retórico e estilístico, a importância da metáfora, da comparação e da imagem, quer no plano do discurso narrativo, quer em vários fragmentos de descrição de paisagens, sejam rurais ou urbanas. Entretanto, a contaminação da prosa pela poesia, o "romance lírico" podem ocorrer em autores que nunca publicarão poesia. Parecia ser esse o caso de Urbano, que ao longo de cinquenta e dois anos (de 1952 - A porta dos limites a 2003 - A Flor da Utopia e God Bless America) de uma obra multifacetada, sobretudo narrativa e ensaística, mas que se prolonga na publicação de crónicas e relatos de viagem, de ensaios e crítica, não publicara um único título de poesia. Esse seu primeiro título de poesia, segundo a intenção expressa do autor, reúne uma série de poemas em prosa e já não de prosas poéticas, e surge em 2005, intitulando-se Rostos da Índia e alguns sonhos.

Horas de Vidro

Entretanto, sabíamos que Urbano Tavares Rodrigues tinha poemas musicados e que publicara versos, muito rara e esparsamente. Continuava contudo a faltar um livro de versos e ei-lo que surgirá, mais tarde ou mais cedo, Horas de Vidro.

O livro que o leitor terá então entre mãos não é como Rostos da Índia e outros sonhos, um livro que tenha uma unidade de inspiração e um fôlego de escrita, é um livro que reúne vários temas e motivos, vários fôlegos ao longo do tempo. Por isso se pode dizer que Horas de Vidro se poderia chamar "A obra poética (em verso)" de Urbano Tavares Rodrigues. Estes poemas testemunham de uma raridade e constância na escrita dos versos. Desde o final dos anos 40, aos poemas de 2005 - 2010, Urbano escreve, embora raramente, poemas. É essa a longa constância. Mas essa escrita permanece um gesto raro. Se há décadas e anos em que vários poemas acontecem, outras e outros há em que apenas um poema aparece e há mesmo uma, a dos anos 80, em que nenhum poema se regista. Curiosamente é entre 2005 e 2008 que se avolumam relativamente mais poemas, como se tivesse sido a própria escrita do livro de poemas em prosa que facilitou ou despoletou com mais frequência a escrita dos versos.

Horas de vidro é o título que Urbano escolheu para este livro. Que nos diz ele da poesia ou destes poemas? A pergunta dá como pressuposto que um título destes, mais do que um puro e simples título temático é um título que se dá a ler como de poética, refere os poemas e não propriamente o referente destes. Qual será a forma do sentido que se projecta sobre os poemas e a poesia quando os poemas são percebidos como horas de vidro? Eu diria que são pequenas construções temporais (horas), que o fogo e o esfriamento da inspiração transformam em artefactos transparentes e frágeis (de vidro).

Tentemos de outro modo. Através de um trabalho como o do vidro, o fogo dos tempos vividos, seguido de um arrefecimento, produz certas formas que guardam desse vivido, na memória, esses belos e frágeis concentrados dos afectos e emoções que foram vividos. Sendo aparentemente um fenómeno de plasticidade formal pura, os poemas são, contudo, algo que guarda e dá forma ao tempo da nossa experiência de vida, não apenas à do seu autor, mas também à dos seus leitores.

Essas peças de vidro são tempo concentrado e condensado, e essa concentração-condensação liga-se ao gesto de guardar na memória algo que foi e permanece vibrante e intenso e, por isso, se pode quebrar ou dissolver no próprio momento em que se guarda (por isso é de vidro).

"Horas de vidro" são acontecimentos de luz, reflexos, brilhos que se refractam e talvez um dos movimentos mais recorrentes e algumas das mais conseguidas imagens deste livro sejam os movimentos da (descrição) da luz. Alguns exemplos:

O outeiro onde a cabra

medita pastando

a luz da relva

primeiro sol que se extasia

sobre a terra

(Grupo Escultórico)

 

Colunas de cristal verberam

Essa luz enlouquecida

( Ameaça)

 

E as brancas pombas vinham bicar

Grãos de luz

sob a exaustão do dia

(Nocturno)


o jardim em estado de graça que ainda

vive de uma vida cheia de ti

enquanto a luz caminha

para os arredores da morte

(Tão longe e tão perto)

 

No grande céu

violáceo não há estrelas mas cá em baixo

Elas resultam do concerto das luzes

com a chuva Lantejoulas pequenas

folhagens iridiscentes lâmpadas de incrível

luar

(A chuva em Paris)

Os versos que registam essa intensa e minuciosa visualidade rolam as suas imagens segundo as consonâncias da palavra. E, por vezes estes versos parecem recordar aquela já quase antiga máxima que nos diz a poesia como um duplo acorde da palavra, segundo o som e o sentido.

As luzes que se acendem

no fundo do lago

e rastejam se tornam

por fim névoas azuis

que estão a segredar-nos?

Em que rio de som mergulha

O sentido das coisas?

(Interrogações; subl. meus)

Raros, mas pertinazes na sua vinda rara, estes poemas estão próximos nos seus temas e motivos, daqueles que tecem o perfil do autor enquanto contista (e romancista). Só que nesta poesia, que não se despede totalmente do desejo de narrativa, a efabulação que resta cumplicia-se com o que é inequívoca referencialidade auto-biográfica.

Assim, a poesia que diz o compromisso político e que reserva um lugar matricial e de razão para a solidariedade com os seus concidadãos do Alentejo encontra-se sistematicamente com a erótica amorosa. Isso pode acontecer num só poema ou numa curta sequência de poemas Como por exemplo acontece entre "Canção do Amor Prisioneiro", "Sábado Encarcerado" e "Lábil e pálida ternura".

Particularmente significativos são o número e o tom de poemas que constituem paisagens. Paisagens rurais, mas sobretudo urbanas, paisagens sentimentais ou filtradas pela emoção, paisagens temporalizadas, como quadros de metáforas perceptivas. Nesses poemas, sobressai a anotação de pormenores da luz ou de acontecimentos luminosos que permitem ver e que são ao mesmo tempo elementos internos à paisagem

O tom elegíaco domina largamente estes poemas, mas nada parece poder travar a dialéctica concreta da esperança, o desejo que levanta voo a partir da memória.

O talento versificatório que nestes poemas se observa verifica-se na desenvoltura das quadras ao sabor popular que são dedicadas à sua "pequena pátria" alentejana "(Não te rendas a Castela"), como nos poemas "com endereço", oferecidos a amigas e amigos - ("Os olhos da Luísa Amaro", "Ana dos cabelos de ouro", "Com luz de sal"); assim como nos poemas em verso livre, onde mais rigorosa e amplamente a imaginação encontra o tema da paisagem exterior como reverberação da paisagem interior, segundo a visualidade onírica, o som e o sentido do poema.

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