Cinema: Para lá das colinas de Cristian Mungiu
Nº 1725 - Outono 2013
Publicado em Cultura por: Dulce Rebelo (autor)
Cristian Mungiu pertence ao grupo dos novos cineastas romenos que têm produzido filmes de grande qualidade. Mungiu, com especialização em literatura inglesa, trabalhou alguns anos como professor e jornalista, antes de tirar o curso de realização. E em boa hora o fez. Em 2007, com a sua segunda longa-metragem "4 meses, 3 semanas e 2 dias" sobre o aborto clandestino no tempo de Ceauscescu, ganhou a Palma de Ouro em Cannes.
A fonte de inspiração para este novo filme foi o caso verídico de uma freira esquizofrénica da cidade de Tonacu que, em 2005, foi vítima de exorcismo. Num cenário negro de chuva, privações e campos isolados, assistimos à história de duas jovens enfiadas num convento, ameaçadas na sua integridade física num ambiente repressivo.
Voichita (Cosmina Stratan) e Alina (Cristina Flutur) em crianças foram educadas num orfanato, onde criaram laços de amizade de grande intensidade. Mais tarde Aline partiu para trabalhar na Alemanha e Voichita tornou-se freira num convento ortodoxo. O mosteiro é dirigido por um patriarca fanático, severo, intransigente e intolerante.
Quando Alina regressa e é recebida pela sua amiga, ambas ficam no convento, vendo-se Alina envolta num mundo de regras e proibições para esconjurar o mal e só praticar o bem.
Alina quer levar Voichita dali ansiando por carinho e uma vida feliz.
A severidade do local, as prédicas constantes sobre o bem e o mal, os rituais confrangem Alina que cai doente.
No hospital os médicos, que mostram mais arrogância que saber, não sabem cuidar da paciente que regressa ao mosteiro.
Voichita tenta convencer a amiga a entrar na comunidade. Alina deprimida, desanimada ou revoltada por não a deixarem viver longe dali com a sua amiga, não é compreendida no seu sofrimento. O padre, (Valeriu Andriuta) o "papa" como é designado pelas freiras, crê Alina possessa do demónio e, portanto, a necessitar dum exorcismo. A consequência é trágica.
Mungiu, com grande rigor e equilíbrio, desvenda uma realidade dura, ignorante, onde não funcionam a educação, a saúde, ou as instituições de justiça, mas avultam a arrogância e o sectarismo doutrinário sem dar lugar à solidariedade humana.
O filme recebeu o prémio de Melhor Argumento e de Melhor Actriz (para as duas protagonistas) no Festival de Cannes.
