Cinema: "O Mordomo" e "Doze anos de escravidão"

Nº 1726 - Inverno 2013
Publicado em Cultura por: Dulce Rebelo (autor)

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Três filmes, embora de níveis e complexidade diferentes, estão ligados por uma temática comum: a escravatura negra nos E.U.A. São eles: «Lincoln», a obra prima de Steven Spilberg, e que já foi analisado nesta revista (Seara Nova nº 1724/2013), «O Mordomo» de Lee Daniels e «12 anos de Escravatura» de Steve McQueen. Vamos ocupar-nos dos dois últimos.

O MORDOMO

Realização: Lee Daniels

Interpretação: Forest Whitaker, Oprah Winfrey, John Cusack, Jane Fonda.

Música: Rodrigo Leão

(E.U.A., 2013)

Curiosamente o filme não foi apreciado de modo igual pelas críticas, certamente por ser realizado de forma clássica, sem recorrer a técnicas sofisticadas que são actualmente mais do agrado geral.

Filme comedido e sem espaventos conta-nos a história dum afro-americano, Cecil Gaines (Forest Whitaker), desde a sua infância a trabalhar numa plantação de algodão na Jórgia, onde seus pais eram escravos. Criança ainda assiste ao assassinato do pai pelo filho do patrão e à violação da mãe pelo mesmo. A mãe sofreu um choque mental de que não recuperou mais e o filho foi ensinado por uma parente do patrão para trabalhar em casa.

Mais tarde, após o seu emprego num hotel de 5 estrelas em Whashington, entrou em 1920 para a Casa Branca como mordomo.

Através do percurso profissional de Cecil Gaines, que serviu com brio e competência sete presidentes, assistimos a acontecimentos históricos importantes que marcaram a evolução social e política dos Estados Unidos, tais como: a criação dos movimentos de Martin Luther King, em luta contra as leis do "apartheid", de Malcom X e dos Panteras Negras.

Mas a história não se limita apenas a apresentar o mordomo como simples testemunha dos factos históricos. Na sua vida familiar há conflitos, com a mulher Gloria Gaines (interpretação sóbria e eficaz de Oprah Winfrey) e com o filho mais velho Louis, que não aceita as regras dos brancos, e que ao entrar na Universidade (paga aliás com o produto do trabalho paterno) se alia aos revolucionários Panteras Negras.

Foi muito longa a caminhada dos negros pela conquista dos direitos civis na América, mais em evidência durante a administração de J. Kennedy (James Marsdem) e a de Lyndon B. Johnson (Liev Schreiber), até Obama ser eleito presidente.

O filme mostra também como, apesar do respeito demonstrado pelo mordomo, nos anos 60 continuava, mesmo na Casa Branca, a discriminação racial nos salários. Só durante o tempo de Ronald Reagan os salários de brancos e negros foram equiparados, por diligência empenhada de Cecil Gaines.

Todos os actores, mesmo em papéis breves, desempenham impecavelmente os seus papéis, onde sobressaem, sem favor, os de Forest Whitaker e Oprah Winfrey.

Uma chamada de atenção deve ser feita para a música que acompanha toda a história e é da autoria do nosso compatriota Rodrigo Leão.

O músico português foi escolhido por Lee Daniels para a criação da banda sonora que vai ritmando esplendorosamente todo o filme, com toques dramáticos e românticos de grande beleza.

Durante a antestreia nacional de O MORDOMO, Rodrigo Leão tocou alguns temas do filme.

É de louvar que o talento do artista português tenha sido reconhecido além fronteiras.

Quanto à realização de Lee Daniels, um misto de melodrama e crónica social em fundo histórico, é um bom testemunho dum período doloroso da sociedade norte-americana.

 

DOZE ANOS DE ESCRAVIDÃO

Realização: Steve McQueen

Interpretação: Chiwetel Ejiofor, Michael Fassbender, Lupita Nyong'o, Benedict Cumberbatch, Paul Giamatti, Brad Pitt, Paul Dano.

(E.U.A., 2013)

O realizador britânico Steve McQueen considera que lhe era fundamental fazer um filme sobre a escravatura, uma vez que este tema é uma falha na história do cinema.

A história baseia-se num facto ocorrido em 1841. Solomon Northup, um homem negro que nasceu livre e vivia livre em Nova Yorque, violinista de talento, com família e bom estatuto social, é raptado e vendido como escravo, passando doze anos em cativeiro. Após a libertação escreveu um livro sobre a sua dolorosa experiência. Publicada em 1853 a obra teve enorme êxito na época, mas actualmente é quase desconhecida. Uma boa razão para Steve McQuenn agarrar o tema e dar-nos uma visão lúcida e crua dos horrores da escravatura.

Os acontecimentos passam-se no período anterior à Guerra Civil Americana.

No filme Salomon Northup é contactado por dois homens que o convidam para um trabalho como músico. Enganado é atirado para uma masmorra e depois vendido como escravo para trabalhar numa plantação de algodão na Luisiana.

Tiram-lhe tudo, começando pelo nome, pois passa a ser o escravo Patt.

Juntamente com outros companheiros, homens e mulheres, sofreu castigos horrorosos injustificados, violências extremas e esteve por vezes à beira da morte por espancamento ou enforcamento. Quando os companheiros de infortúnio o aconselham o mais possível a calar-se, a passar despercebido para sobreviver, ele replica que não quer sobreviver, mas viver e luta para manter a sua dignidade.

Se Solomon viveu algum período de menor violência e foi tratado com alguma complacência quando ao serviço do patrão Ford (Benedict Cumberbatch), que, no entanto, exerce tortura psicológica, e o vende facilmente para pagar uma dívida, a sua existência tornou-se um inferno, sob a "posse" de Edwin Epps (Michael Fassbender), o terrível dono duma plantação.

E. Epps tem uma fraqueza, pois apaixona-se pela jovem escrava Patsey (estreante Lupila Nyong'o), a quem não poupa chicotadas à mais leve suspeita de fuga, ou sem qualquer motivo.

Solomon não pode confiar em ninguém, nem naqueles que parecem sofrer a mesma sorte (um branco, isento de castigos, que em extrema pobreza trabalha também na plantação), sempre prontos a denunciá-lo ao patrão.

Só quando um canadiano (Brad Pitt) surge para construir um pavilhão na propriedade, que acredita na igualdade de direitos civis, prestando-se a encontrar os amigos de Salomon, este é libertado pelas autoridades, readquirindo a sua identidade.

Ao reencontrar a sua família, os horrores da escravatura que o marcaram não serão esquecidos. Assim escreveu as suas memórias e tornou-se um abolicionista convicto até ao fim dos seus dias.

A interpretação dos actores é excelente, verificando-se um perfeito entendimento entre realizador e actores. Um e outros para viverem esta história com veracidade, mergulharam nos cenários autênticos de Nova Orleãs e de Luisiana.

O actor Chiwetel Ejicfor, que inicialmente hesitou em aceitar o papel de Solomon, é um intérprete excepcional. Mas também não é menor a mestria de Michel Fassbender na personagem hedionda de Edwin Epps, o dono da plantação. (Há aliás uma perfeita adaptação dos actores e actizes em relação às personagens que interpretam. Como Benedict Cumberbatch no papel de Ford, o primeiro proprietário do escravo, ou da sua mulher, a senhora Ford (Liza J. Besnett), fútil e alheia ao sofrimento das escravas. A jovem Lupita faz uma escrava Patsey plena de veracidade, no seu sofrimento, na angústia permanente da violência exercida pelo casal Epps.

Filme realista, que retrata a vida sangrenta de milhares de pessoas ao longo de anos e anos, obteve sete nomeações para os "Independent Spirit Awa

rds", os mais importantes prémios do cinema independente norte-americano, incluindo melhor filme, realizador, argumento, actor principal (Chiwetel Ejicfor), actor secundário (Michel Fassbender) e actriz secundária (Lupita Nyong`o), mas nos globos de ouro acabou por receber apenas o prémio de melhor drama. Veremos o que acontecerá com os Óscares.

A América parece não lidar bem com certos temas da história do seu País.


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