Factos & Documentos

Nº 1726 - Inverno 2013
Publicado em Factos e Documentos por: Revista Seara Nova (autor)

"Primeiro foi o corte nos salários, depois o corte nas prestações sociais, a seguir o corte nas reformas, mais tarde o corte nas pensões de sobrevivência. Como não percebo nada de economia, pensei que o próximo corte seria nos pulsos. Afinal, é outra vez nos salários e nas pensões. Sinceramente, não sei se foi melhor assim. Não só revela falta de imaginação como parece adiar o inevitável. Além disso, a insistência nos cortes já parece denunciar uma patologia. Passos Coelho é o Estripador de São Bento. E, tal como o outro, não me parece que a polícia vá conseguir apanhá-lo. (...) Mantenho uma esperança muito grande no guião da reforma do Estado, que Paulo Portas irá apresentar, supõe-se, na mesma manhã de nevoeiro em que D. Sebastião regressará. Julgo que há qualquer coisa sobre isso nas trovas do Bandarra, embora ele preveja que D. Sebastião apareça primeiro. Como guionista, creio que o atraso na entrega do guião é inadmissível, sobretudo por se tratar de um documento muito fácil de escrever. Em primeiro lugar, Portugal já não é bem um Estado. Soberania não tem, governo tem pouco, e o próprio povo já começou a ir embora. Não havendo já quase nada para reformar, é difícil compreender a demora. Em segundo lugar, o guião tem pouca acção, nenhum diálogo e a cena é sempre a mesma. É um guião de uma palavra só, aquela que se costuma escrever no final: corta! Não deve dar muito trabalho".

Ricardo Araújo Pereira

Visão

31 de Outubro de 2013


 

Pim-Pam-Pum

"Deste guião da reforma do Estado nada mais havia a esperar do que aquilo que se viu: uma vingança traiçoeira, o acerto de contas por uma prenda envenenada, humilhação, mera intriga doméstica. Não o tenciono ler, nem dedicar-lhe mais atenção do que esta que até já me parece excessiva. BASTA PUM BASTA! E em homenagem às tristes artes da política presente, neste «jardim à beira-mar plantado», permito-me rematar com a homenagem ao poeta a quem me encomendei, logo no título: do MANIFESTO ANTI-DANTAS E POR EXTENSO por José de Almada-Negreiros, POETA D'ORPHEU FUTURISTA e TUDO: «O DANTAS EM GÉNIO NUNCA CHEGA A PÓLVORA SECA E EM TALENTO (......)» Passos e Portas! Pim-Pam-Pum!"

Pedro Bacelar de Vasconcelos

Jornal de Notícias

1 de Novembro de 2013

 

Sentido da vida

"Nas nossas sociedades tecnocientíficas e citadinas, a morte tornou-se tabu, o último tabu. Tabu já não é o sexo, mas a morte. Não se pode dar sinais de luto, mente-se às crianças e da morte pura e simplesmente não se fala ou, pelo menos, é de mau gosto e de mau tom falar dela. Não se julgue que isso acontece, porque a morte já não é problema. Pelo contrário, de tal modo é problema, o único problema para o qual uma sociedade que se julga omnipotente nos meios não tem resposta nem solução que a única solução é ignorá-la, como se não existisse. Trata-se de uma sociedade centrada na produção e consumo, no ter, no êxito, no cálculo, no espectáculo, no poder. Ora, a morte interrompe toda esta lógica. Perdeu-se o sentido da morte e, consequentemente, o sentido da vida ou, talvez melhor, perdeu-se o sentido da vida e, consequentemente, o sentido da morte. Mas, então, também se perdeu o sentido ético: de facto, sem a consciência do limite no tempo, não se ergueria a problemática ética na sua urgência da liberdade na definitividade".

Anselmo Borges

Diário de Notícias

2 de Novembro de 2013

 

Dose reforçada

"Lendo o relatório do FMI, divulgado quinta-feira, ficamos a saber que o FMI quer repetir e ampliar as doses de austeridade em 2014 e em 2015 e ainda «depois dessa data». A necessidade dessa dose reforçada resulta, como lembra o «pessoal» do FMI, daquilo que ficou estabelecido no Tratado Orçamental que a Direita e o Partido Socialista fizeram o país assinar, sem darem cavaco a ninguém. O FMI assume, de forma pura e dura, os interesses dos «nossos credores» e esses, como diz o povo, estão-se nas tintas para o futuro dos portugueses e do país. O que querem é garantir que Portugal pague, pelo maior tempo possível, os juros (elevados) de uma dívida impagável na dimensão e condições impostas. Com ou sem novos resgates ou planos cautelares, Portugal, para cumprir o que o Tratado Orçamental estabelece, teria de continuar a apertar o orçamento não só para reduzir o défice, mas também para transformar o défice em excedente, por forma a poder pagar metade da dívida pública (cerca de 100 mil milhões de euros) em 20 anos. A concretizar-se esse objetivo, reduzir-se-á a migalhas a Segurança Social, o Serviço Nacional de Saúde e a Escola Pública. Sem exagero direi que surgirão profundas ruturas na sociedade, será aniquilada a democracia e arrasado o futuro do país por tempo indeterminado".

Manuel Carvalho da Silva

Jornal de Notícias

16 de Novembro de 2013

 

Treta!

"Pois é, dizem-nos, mas as forças da globalização são imparáveis. Treta! - deveríamos responder todos nós. A globalização deste virar de século fará sorrir daqui a cem anos os que cá estiverem, tal como a globalização de 1900, baseada nos navios a vapor e no telégrafo, nos faz sorrir hoje com condescendência. O que se passou nos últimos 30 anos foi que alguns mercados internacionais passaram a funcionar em Estados que lhes abriram as portas livremente, com a complacência dos respetivos dirigentes políticos. Mas os mercados não são impessoais, são estruturas guarnecidas com pessoas de carne e osso, cheias de ambições, de qualidades, de defeitos, de preconceitos. Que usam as armas que têm à mão, mas que também sofrem de medos, quando se lhes opõem. A «gloriosa» narrativa da globalização vista do lado Ocidental tem de ser lida numa outra perspetiva. Porque esta transformação será apenas recordada daqui a cem anos pela integração da economia da China no sistema-mundo capitalista e pela sua ascensão a superpotência mundial. Não admira que os EUA se mostrem incapazes de disciplinar o planeta. O mundo encantado da globalização que nos tentam vender é uma trata... Que fazer então? Simplesmente, o que nos é moralmente pedido: submeter o poder da finança ao poder civil."

João Caraça

Expresso

30 de Novembro de 2013

 

Papa Francisco

"Tirar poder ao topo da Igreja, torpedear a ostentação ou aumentar a intervenção das mulheres e dos leigos já me parece ser algo à beira do revolucionário. Mas que dizer de partes que a notícia da Ecclesia não releva, citadas por todas as agências noticiosas e por todos os jornais do mundo, quando se lê, no link do site da agência, o texto completo que Francisco escreveu? Deixo só uma frase para demonstrar as razões da minha desconfiança: «Esta economia mata. Não é possível que a morte por enregelamento dum idoso sem abrigo não seja notícia, enquanto o é a descida de dois pontos na Bolsa.» Esta clareza do pensamento de Francisco não é nova para a Igreja, certo, mas é, aposto, a que incomoda mais nestes tempos decadentes".

Pedro Tadeu

Diário de Notícias

3 de Dezembro de 2013

 

Mandela

"Há, no consenso que pareceu existir nos últimos dias sobre o legado de Mandela, uma esperança. Não falo do consenso hipócrita que pretende reescrever a história e colher louros indevidos aproveitando a morte de um grande homem. Mas falo daqueles para quem, com sinceridade, o legado de Mandela é admirável, desde a sua decisão de abraçar a luta armada ao seu abandono da violência. Há, em todos os gestos de Mandela, um núcleo de crenças que podem ser um ponto de entendimento entre um grande número de pessoas. Constituem o que podemos chamar a decência. A crença em direitos iguais para todos os homens e mulheres. Governar para servir todo o povo. O direito de todos a viver e a trabalhar com dignidade. Também nós esperamos que um dia, em breve, de surpresa, como o fim do apartheid, a política possa deixar de nos repugnar e possa escolher a decência e começar a servir os cidadãos."

José Vítor Malheiros

Público

10 de Dezembro de 2013

 

Aventureiro curioso

"Existia um consenso na política de educação: expandir a oferta pública e adaptar os processos de modernização pedagógica que os países com melhores resultados têm aplicado. Esse consenso teve os resultados que o PISA nos demonstrou. Nuno Crato quebrou-o. As suas reformas apontam para a estratificação social do ensino, desinvestimento na escola pública e opções pedagógicas anacrónicas. Demasiado habituados a maldizer tudo o que fizemos, deixámos que um aventureiro curioso destruísse em apenas dois anos e meio o que demorou mais de uma década a consolidar".

Daniel Oliveira

Expresso

14 de Dezembro de 2013

 

Suicídio nacional

"Forçar doutorados à emigração é um suicídio nacional".

Mariano Gago

Expresso

14 de Dezembro de 2013

 

Passar o "dano"

"Cobrar comissões pelos levantamentos e pelos pagamentos feitos nas caixas automáticas Multibanco aos consumidores é um desejo antigo dos bancos. À boleia da nova legislação europeia que poderá obrigar as instituições bancárias a reduzirem as taxas cobradas aos comerciantes, impondo um limite máximo pelas transações feitas através da rede ATM, não perdem tempo. E vão já avisando que, por isso, podem ter de avançar com comissões a todos os que utlizem o Multibanco para levantar dinheiro, fazer pagamentos e consultas, entre outros serviços oferecidos. (...) Isto apesar de o sector poupar «300 milhões de euros por ano» pelo facto de os clientes utilizarem a rede ATM, como refere a Associação Portuguesa de Empresas de Distribuição".

Expresso

7 de Dezembro de 2013

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