Os crocodilos de Madiba

Nº 1726 - Inverno 2013
Publicado em Memória por: Levy Baptista (autor)

" A educação é o grande motor do desenvolvimento individual. É através da educação que a filha do camponês pode ser médica, que o filho de um mineiro pode ser gerente da mina, que um filho de trabalhadores rurais pode ser presidente de uma grande Nação. O que nos distingue dos outros não é o que nos dão, é o que conseguimos fazer com aquilo que temos".

Estas palavras de Nelson Mandela definem o perfil de alguém cuja morte, aos 95 anos (Dezembro de 2013), foi sentida e chorada a nível planetário, com maior ou menor sinceridade, e, no nosso País, com a indispensável dose de cinismo e hipocrisia, por políticos, opinantes e, sobretudo, por figurantes do Estado.

No termo da 2ª Guerra Mundial (1945) a ideologia nazi-fascista, vencida um pouco por todo o mundo, viria a afirmar-se, de jure, na África do Sul, onde, de facto, dominava já, há 300 anos, antes mesmo da sua institucionalização na Europa. "O homem branco terá sempre que estar no comando", pregavam e praticavam eles, os brancos, racistas e nazis avant la lettre.

Nascido em 1917 numa pequena aldeia da Nação xossa, no Transkei, filho de um chefe da tribo tembo, do clã Madiba, Mandela, no seu longo caminho para a liberdade, foi figura de proa na luta contra o apartheid, designação da plataforma programática com que o Partido Nacionalista, apoiante da Alemanha nazi, vencera nas eleições gerais dos brancos (os

africanos não tinham direito de voto), em 1948, o Partido Unido, do governo do General Smuts, que alinhara com os Aliados na 2ª Guerra Mundial.

Baseada numa alegada superioridade dos brancos sobre os não-brancos (negros, mestiços e indianos), a concepção de apartheid ("separação") visava a consolidação da supremacia branca, num esquema de segregação que, além de económica, era política e social, e que, no dia-a-dia, se traduzia na ubíqua palavra de ordem "Whites only", versão africânder do que, na China sob o imperialismo, a cada passo se topava em restaurantes e outros locais públicos: "Proibida a entrada a chineses e a cães" (agora, admirem-se...). Uma nódoa civilizacional, um crime contra a Humanidade.

A concepção racista do poder que enformava a filosofia do apartheid, além de visar "pôr os cafres no seu lugar", incluiu também um Suppression of Communism Act, destinado a igualmente colocar os seguidores desta ideologia "no seu lugar", leia-se, na cadeia.

Na condição de militante pela liberdade, sua e do seu povo, Mandela integrou desde muito jovem as fileiras do ANC (Congresso Nacional Africano), a mais antiga organização política africana do País, fundada em 1912, que tinha como objectivo denunciar as injustiças sofridas pelo povo da África do Sul, numa perspectiva anti-racista, e cuja presidência viria a assumir em 1960, tendo, entretanto (1952), liderado em nome do ANC a campanha de desobediência civil.

Ilegalizado o ANC em 1960, Mandela funda e dirige o MK

(Umkhonto we Sizwe - a Lança da Nação), braço armado da luta pela democracia e a independência. E dirige-se aos seus concidadãos: Não deixarei a África do Sul nem me renderei. A liberdade só pode ser conquistada através das dificuldades, do sacrifício e da acção militante. A luta é a minha vida. Hei-de continuar a lutar pela liberdade até ao fim dos meus dias.

Preso em Agosto de 1962, acusado e julgado por conspiração com o Partido Comunista, condenado a prisão perpétua, com trabalhos forçados, Mandela foi internado na prisão da ilha de Robben, Cidade do Cabo, onde passaria 18 anos, como prisioneiro com o número 46644.

À medida que os "ventos da História" iam varrendo os regimes colonialistas e sopravam as correntes da independência dos povos africanos, o regime do apartheid foi ficando mais e mais isolado, como mancha que envergonhava a modernidade nascida no fim da 2ª Guerra Mundial. Assim, 1971 a Assembleia Geral da ONU condena a África do Sul e o seu regime racista, exigindo a libertação de Mandela e dos demais presos políticos. O boicote económico e político imposto pela ONU é ostensivamente ignorado e desrespeitado pelo governo português que, através da sua colónia de Moçambique, pelo porto da Beira, continuava a assegurar o abastecimento de combustíveis à África do Sul, dentro do espírito de ajuda mútua de dois regimes antidemocráticos no contexto das guerras de independência que ocorriam em Angola e Moçambique.

Alcançada a independência de Angola, em Novembro de 1975, nem por isso a África do Sul deixa de interferir militarmente nesse País, apoiando os rebeldes da Unita na sua oposição às forças governamentais (FAPLA). Situação que culmina na batalha de Cuito Canavale, no sul de Angola, na qual as FAPLA, com o apoio de forças cubanas, e da SWAPO (Namíbia), derrotam o exército sul-africano e as tropas da Unita. A sorte das armas, nesse confronto decisivo, apressa a derrota do apartheid, cujo regime se vê obrigado a negociar, a legalizar o ANC e a repensar a necessidade de libertar Nelson Mandela.

Entretanto, enquanto continuavam, nos mais variados quadrantes geográficos, políticos e sociais, as manifestações de solidariedade com o povo sul-africano, pela libertação de Mandela e seus companheiros de luta - designadamente as promovidas, no nosso País, pelo Conselho Português para a Paz e Cooperação, o Movimento Anti-Apartheid (Mandela, quando veio a Portugal, em visita de Estado, exigiu que no programa protocolar fosse integrado um dia dedicado a este Movimento que classificou de "os amigos portugueses do Povo sul-africano" tendo sido organizadas várias iniciativas como reuniões com activistas, um almoço com personalidades políticas e sociais que sempre apoiaram o ANC e uma histórica e muito concorrida sessão pública que decorreu na Aula Magna da Universidade de Lisboa, onde Mandela discursou e dialogou com a assistência) a CGTP-IN, o PCP e outros sectores progressistas - a Assembleia Geral da ONU aprovou, em 1987, duas votações no mesmo sentido da moção condenatória da África do Sul, em 1971. Uma dessas moções, porém, foi votada pelo governo português, de que era Primeiro-Ministro Cavaco Silva, no sentido da sua rejeição.

Nelson Mandela com Fidel de Castro quando visitou Cuba

Nelson Mandela com Fidel de Castro quando visitou Cuba

A fobia anticomunista falou mais alto do que o sentimento anti-racista e de defesa dos direitos humanos que a Constituição consagra, ao preconizar a abolição do imperialismo, do colonialismo e de quaisquer outras formas de agressão, domínio e exploração nas relações entre os povos, e ao reconhecer o direito dos povos à insurreição contra todas as formas de agressão. Para nossa vergonha, o governo presidido por C. Silva alinhou então com as posições racistas dos governos de Margareth Tatcher (Reino Unido) e Ronald Reagan (USA).

Mantido na lista dos "terroristas" do Departamento de Estado norte-americano, até 2008, Mandela veio a ser libertado, por força da luta corajosa do povo sul-africano e da solidariedade de forças progressistas de todo o Mundo, em 11 de Fevereiro de 1990, ao cabo de 28 anos passados em prisões do País de que - já Nação Arco-Íris - viria a ser eleito Presidente, em Abril de 1994.

Com a morte de Mandela o coro planetário que se elevou em louvor da sua figura não poucas vezes fingiu esquecer a sua faceta de combatente pela liberdade num contexto e com métodos bem diversos dos que Gandhi usara para conduzir a Índia à independência. Pacifismo e resistência passiva não bastaram para derrubar o apartheid: Mandela nunca renegou a luta armada, recusando a liberdade condicional que lhe foi proposta como moeda de troca pela renúncia a essa forma de combate. Daí a considerável dose de cinismo e hipocrisia que revestiram muitas das manifestações de dor e lamento, por esse mundo fora. Entre nós, então, e descontada a sinceridade dos muitos que sempre estiveram ao lado de Mandela e da causa por que lutou, foi entre o patético e o divertido que se assistiu ao choro das carpideiras políticas surfando a "onda Mandela". Gente que nunca teve nada que ver com o seu perfil político, ético e humano, que tomou posições, em lugares de responsabilidade política, contrárias às que Madiba defendia, veio agora derramar lágrimas de crocodilo pela morte do Homem que em vida desprezou ou hostilizou. O espectáculo a esse propósito dado pelo Presidente da República, C. Silva (o tal, sublinhe-se a traço grosso, que, enquanto Primeiro-Ministro, em 1987, votou na Assembleia Geral da ONU contra a libertação do "terrorista"), pelo Primeiro-Ministro P. Coelho, e por figuras do Estado, da política e da Comunicação Social, é lamentável e risível. Mas outra coisa não era de esperar: pilriteiros que dás pilritos/por que não dás coisa boa/cada um dá o que tem conforme a sua pessoa...

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