Maria Lamas merece figurar no Panteão Nacional

Nº 1726 - Inverno 2013
Publicado em Memória por: Regina Marques (autor)

É de inteira justiça que Maria Lamas, seja o rosto feminino, da luta das mulheres pelo direito de cidadania, no Panteão Nacional. Esta é a convicção do MDM e a homenagem maior que a democracia lhe pode prestar.

O ano de 2013 marcou os 120 anos do nascimento de Maria Lamas e 30 anos sobre a sua morte. É pois o momento certo para irmos ao encontro da nossa humanidade no feminino que ao Panteão Nacional ainda falta.

No passado dia 6 de Dezembro, dia que nos lembramos sempre daquela que foi a presidente honorária do Movimento Democrático de Mulheres, uma delegação do Movimento acompanhada de Maria d'Aires Caeiro, uma das netas de Maria Lamas, em representação dos netos, fez a entrega à Presidência da Assembleia da República de uma proposta amplamente justificada para atribuição das honras do Panteão Nacional a Maria Lamas, uma mulher portuguesa, ímpar na sua intervenção cívica, política, cultural e universalista.

De acordo com a lei 28/2000, as Honras do Panteão Nacional destinam-se a "homenagear e a perpetuar a memória dos cidadãos portugueses que se distinguiram por serviços prestados ao País (...) na expansão da cultura portuguesa, na criação literária, científica e artística ou na defesa dos valores da civilização, em prol da dignificação da pessoa humana e da causa da liberdade". Com tamanhas qualidades se distinguiu Maria Lamas perante as mulheres e o povo português.

Maria Lamas, foi distinguida várias vezes e em várias épocas pelos órgãos de soberania portugueses pela defesa e valorização dos direitos das mulheres ao longo da história em Portugal e no Mundo e fez da causa das mulheres pela sua inserção e reconhecimento social uma preocupação fundamental. A sua abrangência intelectual e política atravessou fronteiras geográficas e culturais tendo deixado um legado enorme de publicações com marcos que perduram no tempo, na defesa dos valores da dignidade das mulheres e dos oprimidos, da Paz, da civilização e progresso, da dignificação do género humano.

Deixa escrita uma ética irrepreensível a favor da Humanidade e da felicidade humana, que sintetizamos na sua expressão própria.

Há almas a que não bastará nunca a razão e a inteligência. Precisam de sonho, de infinito! A minha alma é assim. Não posso limitar-me a uma felicidade egoísta, preciso da felicidade do mundo; mas como essa aspiração é irrealizável, contentar-me-ei dando a minha contribuição para a felicidade do pequeno mundo em que posso intervir1.

Porque afinal, reiterando palavras suas, sem conhecer e compreender as ideias e imagens em que se inscreveu a consciência moderna ou a do passado, não se pode compreender o nosso próprio tempo.2

Notas biográficas de uma vida intensa

Escritora e jornalista, conferencista e mulher de acção e intervenção cívica e política, Maria Conceição Vassalo e Silva (Maria Lamas) nasceu em Torres Novas, em 6 de Outubro de 1893 e morreu aos 90 anos no dia 6 de Dezembro de 1983.

Casou muito jovem em Março de 1911 com o tenente de cavalaria, Ribeiro da Fonseca. Viveu com ele em Angola até Março de 1913.

No regresso a Portugal, começou a escrever em publicações locais.

Usou os pseudónimos: Maria Fonseca ou Serrana d'Ayre. Os seus temas eram então a guerra. Divorciou-se em 1919, ficando com duas filhas a seu cargo.

Em 1920 foi trabalhar para a Agência Americana de Notícias onde conheceu o jornalista monárquico Alfredo da Cunha Lamas, com quem casou em Abril de 1921. Deste segundo casamento nasceu a filha Maria Cândida em Maio de 1922.

Com o pseudónimo de Rosa Silvestre, publicou em 1923, o seu primeiro livro, único de poesia, Humildes, a que se seguiu no mesmo ano o romance Diferença de Raças.

Em 1925 começou a colaborar em revistas e publicações infantis, nomeadamente em O Pintainho com o pseudónimo de Rosa Silvestre e em suplementos infantis de vários jornais. Publicou vários contos infantis: Maria Cotovia (1925), Aventuras de Cinco Irmãozinhos (1931), A Montanha Maravilhosa (1933) e ainda as novelas infantis Estrela do Norte (1934), Os Brincos de Cerejas (1935). Em 1942, dedicou a sua neta Maria Leonor, a novela infantil O Vale dos Encantos, sobre o qual João Gaspar Simões: escreve "É assim mesmo que se escrevem romances: com factos, com simplicidade de linguagem e com fluência narrativa. Maria Lamas escreveu, parece-me, o seu melhor livro"3.

Na Revista Infantil A Joaninha, editada em 1936, publicou, em folhetim, o romance O Relicário Perdido.

O primeiro trabalho que assinou com o nome de Maria Lamas foi o romance Para Além do Amor (1935), reeditado em 2002. Escreveu ainda o romance A Ilha Verde em1938.

Retrato de Maria Lamas pelo artista soviético A. Myrob, em 1984 (cortesia Associação Iuri Gagarin)

Retrato de Maria Lamas pelo artista soviético A. Myrob, em 1984 (cortesia Associação Iuri Gagarin)

A sua obra de maior envergadura jornalística é, sem dúvida, As Mulheres do meu País, publicada em fascículos para fugir à censura, saindo o primeiro número em Maio de 1948 e o último em Maio de 1950. Depressa esgotada só é reeditada pela editorial Caminho em 2002, com uma notável edição, prefaciada por três das suas netas e com uma apurada biografia feita pela sua filha Maria Cândida.

Na sua vida jornalística, usou vário géneros. Dedicou-se á reportagem, cujo início terá sido em 1934 ou 1935 com Cruzeiro pelo Mediterrâneo e depois em 1943 surgiram outras reportagens tais como: Reportagens de Gibraltar, Marrocos, Argélia, Madeira. O ponto cimeiro é sem dúvida o trabalho As Mulheres do Meu País (1948-50).

Fez tradução, sobretudo na década de 60, sendo evidente a progressiva qualidade dos autores que lhe propõem ou que se propõe traduzir. Destacam-se, depois de Estas Vozes que nos Vêm do Mar: Depoimentos de Aviadores Suicidas Japoneses (Lisboa, Ulisseia, 1960), e do romance, Vencer, de Roger Martin du Gard, (Lisboa, Arcádia, 1961), Os Miseráveis, de Victor Hugo (Lisboa, Estampa, 1962, inc); Adriano, de Maguerite Yourcenar, (Lisboa, Ulisseia, 1962; Memórias de Adriano, seguido de Apontamentos sobre Memórias de Adriano, 2ª ed., Lisboa, Ulisseia, 1983); Dostoievski, Tassos Athanassiadis (Lisboa, Ulisseia, 1962); Francisco Goya, Eric Porter (Lisboa, Ulisseia, 1965). Colaborou na tradução de Os Lusíadas, para chinês, em 1973.

Em 1952, inicia a publicação de A Mulher no Mundo, outra obra de ímpar valor histórico para a compreensão diacrónica dos papéis e lugares das mulheres no mundo, investigação na qual trabalha durante 20 anos.

Escreveu ainda O Mundo dos Deuses e dos Heróis, Mitologia Geral, publicado a partir de 1960 também por fascículos.

Como jornalista foi na redacção de O Século, em Abril de 1929, que deu os primeiros passos e, pouco tempo depois, integrou a direcção do seu suplemento Modas e Bordados. Surgiu como sua directora, no número de 3 de Agosto de 1938, o que fez com enorme sucesso até 1947.

No quadro das suas funções em O Século organiza a Exposição da Obra Feminina e é reconhecido o seu valor com a medalha honorífica Ordem Sant'Iago da Espada que lhe foi atribuída em 1 de Agosto de 1934, pelo Presidente da República Óscar Carmona.

Em 1947, como Presidente do Conselho Nacional das Mulheres Portuguesas organizou a Exposição de Livros Escritos por Mulheres na Sociedade Nacional de Belas Artes em Lisboa. Durante os sete dias da Exposição muitas mulheres do Conselho pronunciaram discursos e palestras. Entre elas, Maria Lamas, Palmira Tito de Morais, Maria Alda Nogueira, Elina Guimarães. A sua grande repercussão nacional e mundial desagradou ao regime fascista. O desagrado foi tal que o Governo Civil de Lisboa mandou encerrar o Conselho e ao mesmo tempo afastou Maria Lamas do jornal, ficando esta desempregada e sem ganha-pão. Foi nessa altura que Maria Lamas partiu para aquela que foi a sua maior reportagem escrita em As Mulheres do meu País. Só em 1975, foi reparada tal injustiça, ao ser convidada por Maria Antónia Fiadeiro, então chefe de redacção de Mulher Modas e Bordados, para directora honorária da revista onde trabalhou mais de 20 anos e de onde fora obrigada a sair pela censura fascista.

Mulher da palavra inconformada e comprometida

A luta pelos direitos das Mulheres e pela sua dignificação e a causa da Paz são as traves mestras do seu ardente trabalho político no qual transparece sempre a força da ternura, da solidariedade e o amor sublime pela Humanidade, bem expressos em toda a sua obra, seja na escrita para crianças, seja no romance ou na grande reportagem sobre as vidas das mulheres portuguesas que conheceu por todo o País, em condições muito duras.

Destaca-se na política integrando as organizações democráticas opositoras ao Estado Novo e à ditadura. Assina as listas de formação do MUD juvenil, que terá sido o seu primeiro acto político, e integra no mesmo ano de 1945 o Conselho Nacional das Mulheres Portuguesas, no qual vem a assumir a Presidência da Direcção, em 1946. No MUD ocupa também cargos de direcção.

Tem uma actividade internacional de grande prestígio. Participa no Congresso fundador da Federação Democrática Internacional de Mulheres (FDIM) em 1946 e representa muitas vezes as mulheres portuguesas nos Congressos da FDIM, realizados no estrangeiro, em Congressos Mundiais de Mulheres e ainda, nos Congressos Mundiais da Paz. Conheceu toda a Europa, visitou o Japão, China, Ceilão, URSS, Albânia, Argélia. No ano de 1975, faz a sua última viagem ao estrangeiro, para participar como convidada de honra, no VII Congresso da FDIM em Berlim.

Esteve presa em Caxias no ano de 1949 com Virgínia de Moura e Rui Luís Gomes, entre outros. Foi presa mais duas vezes, em 18 de Julho de 1950 e em 20 de Dezembro de 1953. Quando regressa do estrangeiro, após ter participado na reunião do Conselho Mundial da Paz, é presa no Aeroporto pela PIDE que prende também as cerca de 50 pessoas que a esperavam, entre as quais a pintora Maria Keil do Amaral e seu marido o arquitecto Keil do Amaral, Sofia Dias Coelho, Antónia Lapa, Maria Machado. Perante a indignação da violência da polícia política, o Movimento das Mulheres Portuguesas apela à luta de imediato através do folheto Corre Perigo a vida de Maria Lamas, realçando a sua destacada personalidade e reconhecido mérito. A sua ficha da PIDE tem o número 19 560 e a sua biografia prisional testemunham a discricionariedade da polícia com que Maria Lamas mesmo doente foi tratada.

Entre fins de 1957 e 1959 viveu na Madeira para fugir à repressão, vindo a exilar-se em Paris de Junho de 1962 a 3 de Dezembro de 1969.

Conferencista e oradora

A Paz é um dos seus temas de eleição, sempre ligada à causa da emancipação da mulher e às crianças. Em Maio de 1950, terminada a II Guerra Mundial, o País vivia em sobressalto nesta luta pela Paz. Maria Lamas intervém na Conferência "A Paz e a Vida" na sede da Associação Feminina para a Paz, no Porto.

A Humanidade evoluiu e aprendeu, através da mais cruenta experiência, que na guerra, tanto as derrotas, como as vitórias, correspondem a sacrifícios, destruições e angústias, que são a negação flagrante de todo o progresso, de todos os princípios construtivos e civilizados. (...) Os povos reconhecem que só na Paz - uma Paz estável e justa! - será possível resolver os seus problemas, não em teoria, mas realmente, em face das suas necessidades, dos seus direitos e das suas naturais aspirações.4

E, noutro passo,

Não é possível chegar a uma Paz estável, se toda a acção desenvolvida tiver em vista a guerra. Só a renúncia categórica ao emprego da violência pode libertar as nações do medo e da desconfiança mútua, levando-as a uma cooperação pacífica e leal! (...) Se todos nós, homens e mulheres soubermos querer, a PAZ será a mais bela conquista deste século, porque a batalha da Paz é a batalha da Vida5

A 5 de Junho de 1950 subscreve o documento fundador da Comissão Nacional para a Defesa da Paz. Em Dezembro de 1952 participa no Congresso dos Povos para a Paz.

É eleita, em 1953, em Bucareste, como membro do Conselho Mundial da Paz. Em Julho de 1962 encabeça a delegação portuguesa à Conferência para a Paz e o Desarmamento, em Moscovo.

Na homenagem prestada pelo Movimento de Unidade dos Trabalhadores Intelectuais, fica claro o seu conceito de Paz.

Quero paz que corresponda a uma transformação integral de tudo o que está errado nos homens (...) uma paz de permanente luta. Toda a minha vida foi uma luta contra aquilo que me apresentaram como irremediavelmente acabado(,,,)A vida é ou tem de ser amor, paz, liberdade.6

Noutro momento, diz-nos ainda,

A Paz é uma espécie de Revolução (...) só na Paz é possível a renovação de cada mulher, de cada homem...porque o grande inimigo da humanidade é a guerra...Por isso quando apelo às mulheres portuguesas «Paz! Paz !», apelo a que de mãos unidas transformem o mundo e se conquistem como seres humanos de plenos direitos...7

E, noutro contexto, e face a outro interlocutor,

Qualquer guerra que se desencadeie propaga-se de imediato. Os focos de guerra existentes são uma ameaça permanente. Já vi muitas guerras, tenho uma experiência de vida que me leva sempre à mesma conclusão: o direito das pessoas a uma vida equilibrada, sem exploração, é inadiável e irreversível.8

A dignidade das mulheres: a questão da sua vida

As mulheres que lutam pela dignificação do sexo feminino constituem quase sempre uma minoria. Mas isso não diminui nem a importância nem a justiça das suas reivindicações. (ML, A Mulher no Mundo, Vol.II: 646)

A condição da mulher está de tal forma ligada aos problemas fundamentais da humanidade que não será possível separá-los. (ML, A mulher no Mundo, Vol.I: 577)

Apesar das dificuldades e limitações que lhe têm sido postas, o papel desempenhado pela mulher no desenvolvimento da Humanidade, em todos os campos, tem sido tão grande, tão espantoso, que não deixa lugar para dúvidas acerca da sua força moral, do seu valor como elemento de trabalho, da sua capacidade intelectual e poder de realização (ML, A Mulher no Mundo, Vol I: 581)

Maria Lamas é uma das fundadoras do MDM, a primeira signatária da escritura pública da criação deste Movimento. Foi Presidente Honorária do Movimento Democrático de Mulheres desde 1975. Esteve presente no III Encontro Nacional em 1977 e no I Congresso do MDM em 1980. Foi Directora da Revista Mulheres criada em 1978.

No meio de cravos vermelhos e brancos, com toda a gente de pé, no dia 8 de Março de 1982, no S. Luís, com 88 anos, foi a primeira personalidade a receber a distinção de honra do MDM que Maria Lamas agradeceu comovidamente.

Também em vida, recebeu a medalha Eugénie Cotton, a mais alta distinção da FDIM, em 22 de Março de 1983, na Casa do Alentejo, entregue pela Secretária Geral daquela organização.

A liberdade que Maria Lamas viu nascer como seu filho também, trouxe-lhe merecidas homenagens de todos os sectores. A Ordem da Liberdade atribuída pelo Presidente da Republica, General Ramalho Eanes, em 25 de Abril de 1980, marcará certamente o pendor universal da vida, do pensamento e da sua acção, mas, muitas outras homenagens tiveram o cunho do enaltecimento da sua dedicação e estatura moral e ética, em prol de causas em que as mulheres, os intelectuais, os políticos, os artistas, os democratas, o povo, se entrelaçaram por valores como a Igualdade, os Direitos humanos e a Paz.

A Assembleia da República atribuiu a Maria Lamas a Medalha de Ouro comemorativa do 50.º aniversário da Declaração Universal dos Direitos Humanos, que foi entregue a sua neta Maria Leonor em 10 de Dezembro de 2008.

Uma trajectória de luta. Um exemplo de ética

O sentido da vida é torná-la melhor, diz-nos no seu romance, à semelhança do seu ex-libris Sempre Mais Alto... Até onde eu puder.

Vulto da Cultura Portuguesa, foi uma insigne defensora do progresso universal indissociável da paz, da igualdade entre homens e mulheres, uma igualdade traduzida "na realidade da vida humana e na construção do seu destino e da sua felicidade". Uma realidade de justiça social indissociável da felicidade humana. Como precisou a Fernando Dacosta: "Povos felizes são povos que têm trabalho garantido, que não têm fome, que não sofrem perseguições, que desfrutam de uma vida pacífica"9

Podemos dizer que Maria Lamas nos deixa um legado de Conhecimento e de Estudo sobre as mulheres numa diversidade de papéis e contextos. Deixa-nos uma reflexão sobre os diferentes feminismos existentes à época, uma proposta de reflexão e acção da maior actualidade. Na acção destemida, inconformada e comprometida, pugnou pela transformação da vida e da sociedade. Maria Lamas foi uma Mulher de acção. Exemplo de participação sem medo, com uma intervenção cívica e política viva e solidária com as mulheres anónimas, trabalhadoras ou intelectuais, sedenta de melhorar a vida das mulheres, essa "metade feminina do género humano".

Sempre mais alto ... até onde eu puder

Não dou à mulher, sistematicamente, categoria de vítima ou de heroína: limito-me a apresentá-la tal como ela tem vivido. Se me refiro em especial a algumas figuras femininas que se notabilizaram pela sua beleza, pelo seu talento, pelos seus amores, coragem, virtudes, crimes ou vida amorosa, é porque essas figuras concretizam o apogeu do prestígio da mulher, ou da sua decadência e miséria, em determinados períodos, sendo assim pontos de referência indispensáveis para se acompanhar a sua evolução. Só por isso as destaco da multidão anónima, que é onde se encontra o nível comum do desenvolvimento da mulher e as condições gerais da sua vida. (Maria Lamas, Prefácio, A Mulher no Mundo, VolI)

Maria Lamas, enaltecia as mulheres, num cenário de universalidade e transversalidade das suas causas. Tecia essa trama complexa, entre o particular e o universal, visando compreender a diversidade das mulheres e com elas agir.

Maria Lamas deixou o seu rasto como cidadã. Dirigente do movimento das mulheres acreditou sempre no papel insubstituível da organização das Mulheres para construir um mundo melhor de igualdade para cidadãs e cidadãos.

Maria Lamas, com a sua escrita solidária e em tribunas internacionais, engrandeceu os movimentos e as associações que criou ou ajudou a criar, ligando generosamente o brilho dos seus gestos individuais ao dos colectivos - defendendo valores e direitos, pugnando pela liberdade e a democracia, contra o regime fascista assumindo no quotidiano, as bandeiras e os ideais da igualdade, da justiça, da paz, da solidariedade.

Foi uma escritora, jornalista, cidadã e activista que não falou apenas de si, mas de todas as outras, mulheres invisíveis, a quem abriu as páginas dos jornais e revistas e lhes deu visibilidade. Defendeu a presença da mulher no espaço público ousando entrar no espaço privado da mulher, enaltecendo o sentimento e o Amor, como motores indispensáveis ao bem-estar e felicidade. Essa Mulher, que foi Maria Lamas, merece ser estudada, e reconhecida, como intelectual, pensadora, filósofa, empreendedora de grandes ideias.

Maria Lamas lutou por Amor... para transformar o mundo

Foi o amor que inspirou toda a sua maravilhosa existência, não somente o amor que procria, como ela escreveu numa das suas obras mais belas, mas também, e muito, a ternura humana que suplanta afectos pessoais e torna o homem irmão do homem.10

No romance Para Além do Amor, Maria Lamas, tece as histórias das vidas sofridas, das mulheres e dos homens. E vai dizendo que são as emoções, a ternura, a intimidade, a felicidade que transformam a nossa capacidade de amar o mundo.

Esse mesmo pensamento está presente naquele que terá sido o seu romance autobiográfico inacabado, O Despertar de Sílvia,

Maria Lamas, no comício do 8 de Março, comemorativo do Dia Internacional da Mulher, com Álvaro Cunhal, Valentina Tereshkova, Maria Alda Nogueira, Dulce Rebelo entre outros, 1975

Maria Lamas, no comício do 8 de Março, comemorativo do Dia Internacional da Mulher, com Álvaro Cunhal, Valentina Tereshkova, Maria Alda Nogueira, Dulce Rebelo entre outros, 1975

Descobri que, para mim, o Amor teria de ser a minha realização total. O que em mim existia de ardente, inquieto, insatisfeito, não era apenas o coração, era também o cérebro. Eu não podia limitar-me a ser uma mulher que sonha...Eu queria ser uma mulher que vive conscientemente.

Maria Lamas é uma mulher do nosso tempo

Maria Lamas, jornalista e escritora, insigne defensora das mulheres com uma vida intensa de fervor e luta que irradia no nosso tempo.

A leitura e releitura da sua obra é um hino à razão de ser das organizações de mulheres e um hino de esperança e confiança na sua luta pela dignidade, pela solidariedade e a Paz, questões indissociáveis da maior actualidade.

Após a sua morte várias manifestações por todo o país consagraram Maria Lamas nas ruas das cidades e vilas, nas bibliotecas ou escolas, em exposições ou conferências, como uma Mulher portuguesa, cidadã do mundo.

Em Torres Novas, sua terra natal, foi inaugurado o Monumento a Maria Lamas, no centenário do seu nascimento, por iniciativa do MDM com o apoio da Câmara Municipal e muitos amigos. Também em Torres Novas, o seu nome foi dado à Escola Secundária. Na Prelada, no Porto, existe o agrupamento de escolas Maria Lamas e, em Odivelas, temos a Escola Básica Maria Lamas e ainda o Parque Urbano Maria Lamas. Em Almada, no ano de 2013, foi inaugurada a Biblioteca Maria Lamas. É um nome que figura na toponímia de várias cidades e vilas. Todos estes registos, nomeadamente na toponímia, oferecem elementos preciosos para a investigação da história local, dos territórios de participação da mulher, da participação de Maria Lamas, a forma como ela marcou o espaço urbano e como agora o espaço público reflecte a sua acção gloriosa. Maria Lamas, ajudou-nos a construir uma identidade feminina, lutadora, numa polis, que deixou raízes no tempo. É esse reconhecimento sempre mais alto que a polis e a democracia lhe devem.

Num momento em que, inconscientemente ou não, se escrevem muitas histórias às avessas, revitalizar a memória de Maria Lamas é lutar contra o esquecimento e a tentativa de se apagarem brilhantes mas tortuosas páginas da nossa história pelos direitos e a dignidade. Maria Lamas deixou o seu rasto como cidadã de corpo inteiro. Revitalizar a sua memória é um dever de reconhecimento político, no sentido mais nobre da palavra que urge hoje reabilitar. É um dever na nossa actualidade lutar contra o esquecimento e a tentativa de se apagarem brilhantes páginas da nossa luta pela transformação da sociedade e pelos direitos das mulheres. Sobre a condição das mulheres e os diversos campos da sua intervenção, o seu pensamento intemporal irradia no tempo presente. Maria Lamas só pode ser lida e interpretada à luz da complexidade que a tornou uma mulher única e comprometida.

1 Maria Lamas, Para Além do Amor

2 Maria Lamas, O Mundo dos Deuses e Heróis (Mitologia Geral)

3 Diário de Lisboa, "Os Livros da Semana", 18 de Fevereiro, 1943, p. 11.

4 LAMAS, Maria, PASCOAIS, Teixeira de, Duas Conferências em Defesa da Paz, Porto, Associação Feminina Portuguesa para a PAZ, 1950, pág. 18.

5 Ibidem, pp 24-30

6 Homenagem do MUTI a Maria Lamas. Uma vida de luta pela vitória da paz, in Diário do Sul, de 12 de Maio de 1976.

7 Helena Neves, «Maria Lamas, uma vida no feminino colectivo (II)», in O Diário, Literatura, de 11 de Abril de 1982.

8 Fernando Dacosta, «Maria Lamas: a mãe-coragem de uma geração», in Jornal, de 12 de Março de 1982.

9 Fernando Dacosta, «Maria Lamas: a mãe-coragem de uma geração», in Jornal, de 12 de Março de 1982.

10 Mário Neves, Esboço de um Perfil de Maria Lamas, Casa da Imprensa, 6.10.1973.

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