Alberto Camus Um encontro da juventude

Nº 1726 - Inverno 2013
Publicado em Memória por: Eduardo Graca (autor)

Tanto tempo passado, como decifrar os caminhos do meu encontro com Albert Camus? Nasceu, em 7 de novembro de 1913, na Argélia (francesa), morreu, em França, em consequência de um acidente de viação, no início de Janeiro de 1960. Este é, pois, o ano do seu Centenário.

Albert Camus gostava de ser olhado como artista. Mas seria, inevitavelmente, conhecido como escritor que a atribuição do Nobel da Literatura que lhe foi atribuído em 1957 mais acentuou. Mas, na verdade, foi brilhante, influente e respeitado jornalista, a que acresce o seu amor pelo teatro, na aceção mais ampla da palavra, tendo sido, ao mesmo tempo, dramaturgo, encenador e ator.

A sua intervenção cívica é um traço marcante da sua biografia devendo ser sublinhado o drama pessoal de ter visto frustradas todas as suas iniciativas para solucionar, através de um processo de conciliação, a descolonização da Argélia. Uma longa sequência de episódios nos quais evidenciou a sua proverbial vocação para travar combates em prol da conciliação o que, neste caso, os ventos da história tornaram impossível.

Foi resistente na França ocupada pelos nazis, redator principal e diretor do jornal Combat, implacável inimigo de todas as tiranias e um paladino da liberdade sem rodear as dificuldades de a conciliar com a justiça: Não o devemos ignorar: é difícil conciliá-las. A crer na História, pelo menos, nunca foi possível. Como se houvesse nestes dois princípios uma intrínseca incompatibilidade. Como poderiam não a ter? A liberdade para cada um é também a liberdade do banqueiro, ou do ambicioso: depressa a injustiça se instala. A justiça para todos é a submissão da personalidade ao bem coletivo: como falar então de liberdade absoluta? [...] Devemos pois renunciar a esse esforço inútil? Não, não devemos renunciar. É preciso simplesmente tomarmos consciência dessa imensa dificuldade em as conciliar e tornar essa dificuldade evidente para aqueles que, ainda que animados de boa-fé, tudo querem simplificar. Para o demais, saibamos somente que é esse o único esforço pelo qual, nos dias de hoje, vale a pena viver e lutar." (Atuais)

Abandonou a UNESCO quando esta admitiu a Espanha de Franco e foi condecorado pelo governo republicano espanhol, no exílio, numa singular cerimónia a sós. Nunca esqueceu a sua ascendência espanhola pelo lado materno e jamais deixou de fustigar a ditadura franquista com uma fúria implacável de combatente pela liberdade.

Condenou publicamente, logo nas horas seguintes, o lançamento da primeira bomba atómica sobre Hiroshima num célebre artigo no qual antecipou os perigos do maravilhoso mundo novo das conquistas da ciência aplicáveis à guerra: "O mundo é o que é, isto é, pouca coisa é. Eis o que cada um pode concluir depois de ontem, depois de ouvir o formidável concerto que a rádio, os jornais e as agências de informação harmoniosamente acabam de difundir sobre a bomba atómica. Podemos concluir com efeito, entre os numerosos comentários entusiastas, que qualquer cidade de importância mediana pode ser totalmente destruída por uma bomba com o tamanho de uma bola de futebol. Vai ser preciso escolher, num futuro mais ou menos próximo, entre o suicídio coletivo e a utilização inteligente das conquistas científicas." (Atuais)

Flagelou com a concisão da sua escrita demolidora a invasão da Hungria de 1956 e as perseguições às vozes livres que se levantaram no mundo comunista: "Esquecei os vossos mestres, aqueles que tanto vos mentiram, disso tendes vós a certeza agora, e também os outros, pois não souberam persuadir-vos. Esquecei todos os mestres, esquecei todas as ideologias moribundas, os conceitos gastos, os slogans vetustos de que vos querem ainda alimentar. Não vos deixeis intimidar por nenhuma chantagem, de direita ou de esquerda. E finalmente não aceitai lições senão daqueles jovens combatentes de Budapeste dispostos a morrer pela liberdade. Esses de certeza vos não mentiram ao gritar que o espírito livre e o trabalho livre, numa nação livre, no seio de uma Europa livre, são os únicos bens deste mundo por que vale a pena lutar e morrer." (Atuais)

Homem de esquerda, apesar de si próprio e da esquerda, como disse no seu último encontro público, em 14 de Dezembro de 1959, com um grupo de jovens ousou denunciar, em simultâneo, os campos de concentração nazis e o Goulag.

Por isso foi atacado, denegrido e isolado pela extrema-direita e pelos comunistas, a cujo partido argelino havia antes aderido sendo dele expulso acusado de trotskismo. A esquerda francesa, na qual os comunistas eram hegemónicos, não lhe perdoou o privilégio que atribuiu, em todas as circunstâncias, à defesa da liberdade condenando todas as tiranias.

Apesar de amargurado pelos ataques, que Sartre apadrinhava, após a publicação de "O Homem Revoltado", nunca abdicou de expressar publicamente as suas convicções arrostando a amargura própria de um homem comprometido, que toma partido, combatendo por causas dadas como perdidas no presente mas que se revelaram, na sua maior parte, vencedoras no futuro: "Gosto mais dos homens que tomam um partido do que das literaturas que não tomam partido. Coragem na vida e talento nas obras já não é nada mau. E, depois, o escritor só é comprometido quando quer. O seu mérito é o movimento. E se isso deve passar a ser uma lei, um ofício ou um terror, onde está então o mérito?

Parece que escrever hoje um poema sobre a Primavera é servir o capitalismo. Não sou poeta, mas fruiria sem rebuço uma semelhante obra se ela fosse bela. Serve-se o homem todo ou não se serve. E se o homem tem necessidade de pão e de justiça, e se é preciso fazer o necessário para satisfazer essa necessidade, não se deve esquecer que ele precisa também de beleza pura, que é o pão do seu coração. O resto não é sério.

Sim, eu desejá-los-ia menos comprometidos nas suas obras e um pouco mais na sua vida de todos os dias." (Cadernos).

A sua juventude foi vivida no seio de uma família pobre, iletrada, de uma moralidade sem mácula, e aos 17 anos, em 1930, atacado pela tuberculose foi viver em casa do tio Acault, carniceiro, pois a carne, diziam, lhe iria fazer bem à saúde. Esse tio era franco maçom e dispunha de uma vasta biblioteca, ao contrário de sua casa na qual não existia um só livro. Aí leu, abundantemente, os clássicos franceses e não só e, curiosamente, a doença tornou-se um tema recorrente na sua obra.

Albert Camus em Estocolmo quando recebeu o Prémio Nobel de literatura em 1957

Albert Camus em Estocolmo quando recebeu o Prémio Nobel de literatura em 1957

Sou levado a crer que me seduziu em Camus o ambiente mediterrânico que trespassa a sua escrita. Talvez me tenha atraído o autor existencialista, que hoje sei não ter sido, ou a sua atração pelo tema do absurdo, pelo permanente apelo ao diálogo, pela natureza, sempre presente na sua obra, pela exaltação da beleza ou pelo alcance político que o apego à defesa da liberdade assume não só na sua escrita, como no seu pensamento e ação cívica.

"Não, não sou existencialista. Sartre e eu surpreendemo-nos sempre quando vemos os nossos dois nomes associados. Pensamos mesmo um dia publicar um pequeno anúncio em que os abaixo assinados afirmarão nada ter em comum, e recusarão responder pelas dívidas contraídas pelo outro." (Entrevista a Nouvelles Littéraires, 15/11/1945)

"E assim nos tornamos profetas do absurdo! [...] De que me servia depois afirmar que, na experiência que me interessava e sobre a qual aconteceu escrever, o absurdo não era senão um ponto de partida, ainda que a sua lembrança e emoção acompanhem os caminhos seguintes?" (O Verão)

"O progresso e a verdadeira grandeza residem no diálogo à altura do homem e não no evangelho, monologado e ditado do alto de uma montanha solitária. Eis onde cheguei.

O que equilibra o absurdo é a comunidade dos homens em luta contra ele. E se escolhemos servir esta comunidade, escolhemos ao mesmo tempo servir o diálogo até ao absurdo contra toda a política da mentira e do silêncio. É assim que podemos ser livres com os outros." (Cadernos)

"Dia atravessado por nuvens e pelo sol. Um frio salpicado de amarelo. Eu devia fazer um caderno do tempo de cada dia. Aquele belo sol transparente de ontem. A baía trémula de luz - como um lábio húmido. E trabalhei todo o dia." (Cadernos).

O que sei é que um dia pelos meus dezanove anos, cursando um curso superior da área da economia e finanças, caíram-me nas mãos os três pequenos volumes dos seus Cadernos editados, em Portugal, pela Livros do Brasil.

Atraiu-me nele a escrita concisa, demasiado perfeita, segundo alguns detratores, feita de fragmentos que se sobrepõem e interagem.

A minha memória navega por entre uma nebulosa repleta de impressões fortes mas difusas. A luz que emana da sua obra ajudou, certamente, no entusiasmo da escolha e os sublinhados, a traço grosso, que os livros estoicamente suportaram, testemunham a íntima cumplicidade de um leitor frente ao objeto do seu desejo.

Esta, como outras das minhas escolhas de juventude, podia ser uma escolha atual. As minhas escolhas atuais indo mais além encaminham-se, quase sempre, para uma faceta da reflexão de Camus em que olha a mãe natureza e os outros homens com assumido desprendimento pelas coisas materiais, sempre deixando transparecer um problema nunca resolvido na sua vida: a relação com o sucesso. Como transparece no texto final do Caderno n.º 1:

" (...) Não é necessário entregarmo-nos para parecer mas apenas para dar. Há muito mais força num homem que não parece senão quando é preciso. Ir até ao fim, é saber guardar o seu segredo. Sofri por estar só, mas por ter guardado o meu segredo venci o sofrimento de estar só. E hoje não conheço maior glória que viver só e ignorado. Escrever, minha profunda alegria! (...) "

O prazer dos meus reencontros com Camus renasce quando me afloram à memória os momentos felizes da juventude entre uma sinfonia de abraços apertados como se cada dia fora a despedida do mundo, o último dia, o primeiro do último abraço, aquele que marca o prazer de tudo começar. Quente a juventude, rebelde a paixão.

" ... a criança morrera naquele adolescente magro e vigoroso, de cabelos revoltos e olhar arrebatado, que trabalhara todo o Verão para levar um salário para casa e acabava de ser nomeado guarda-redes titular da equipa do liceu e, três dias antes, saboreara pela primeira vez, quase desfalecido, o contacto com a boca de uma jovem." (Cadernos)

Como tantos outros leitores apaixonados também sinto que em cada livro leio sempre o mesmo livro e no centenário do nascimento de Albert Camus, passados mais de 50 anos sobre a sua trágica morte, sou capaz de ouvir os seus passos por entre as suas palavras e a atualidade do seu pensamento nunca deixa de me surpreender.

Desde a resposta à questão acerca das suas dez palavras preferidas: "Le monde, la douleur, la terre, la mère, les hommes, le désert, l´honneur, la misère, l´été, la mer." (*) passando, a propósito do seu 30.º aniversário, por um subtil e lúcido apelo à discreta solidariedade entre os homens de boa vontade: "Trinta anos. A primeira faculdade do homem é o esquecimento. Mas é justo dizer que esquece mesmo o bem que fez." (Cadernos), até à distância que, sem a menosprezar, sempre manteve face à política ativa: "Não sou feito para a política pois sou incapaz de querer ou de aceitar a morte do adversário." (Cadernos).

Nas épocas de crise, como a atual, que me afetam o estado de espírito, vá lá saber-se porquê, desde a juventude, ponho-me a ler Albert Camus. Alguém disse que lemos sempre o mesmo livro mesmo quando lemos livros diferentes.

Nestes dias que ameaçam a descrença na capacidade dos homens para encontrarem as boas soluções de governo nada melhor do que estarmos atentos. Não podemos tomar as medidas que desejamos. Outros as tomarão por nós.

As ditaduras afastam os povos da responsabilidade da tomada das decisões. Lembro-me do discurso da falta de maturidade do povo para aceder, com responsabilidade, ao sufrágio universal, ou seja, votar. Quanto menos for chamado a pronunciar-se acerca das grandes questões nacionais, em particular, as escolhas de governo, mais o povo se sentirá afastado dos desígnios da democracia.

Confiar? Desconfiar? O povo desconfia. Terá razão? O populismo espreita. Delegamos o poder através do voto. Será que nos vão devolver o poder, em tempo útil, para escolhermos de novo? Uma só partícula de poder a cada um de nós. Mas o suficiente para que nos sintamos reconfortados por termos influenciado, em liberdade, as escolhas que comprometem toda a comunidade.

Não é o tempo oportuno? Mas se não escolhermos a participação, mesmo quando a mesma parece excessiva, estamos a abrir o caminho aos populismos. Os populismos fingem que usam o poder para servir o povo mas servem-se dele para alcançar os seus objetivos particulares e, no fim do caminho, a tirania ameaça.

E regresso ao tema da liberdade que impregna toda a obra e ação cívica de Albert Camus:

"Antinomias políticas. Vivemos num mundo em que é preciso escolher sermos vítimas ou carrascos - e nada mais. Esta escolha não é fácil. Pareceu-me sempre que na realidade não há carrascos, há apenas vítimas. No fim de contas, bem entendido. Mas é uma verdade que está pouco espalhada.

Gosto imenso da liberdade. E para todo o intelectual, a liberdade acaba por confundir-se com a liberdade de expressão. Mas compreendo perfeitamente que esta preocupação não está em primeiro lugar para uma grande quantidade de Europeus, porque só a justiça lhes pode dar o mínimo material de que precisamos e que, com ou sem razão, sacrificariam de bom grado a liberdade a essa justiça elementar.

Sei estas coisas há muito tempo. Se me parecia necessário defender a conciliação entre a justiça e a liberdade, era porque aí residia em meu entender a última esperança do Ocidente. Mas essa conciliação apenas pode efectivar-se num certo clima que hoje é praticamente utópico. Será preciso sacrificar um ou outro destes valores? Que deveremos pensar, neste caso?"

"Revolta

Finalmente, escolho a liberdade. Pois que, mesmo se a justiça não for realizada, a liberdade preserva o poder de protesto contra a injustiça e salva a comunidade.

A justiça num mundo silencioso, a justiça dos mundos destrói a cumplicidade, nega a revolta e devolve o consentimento, mas desta vez sob a mais baixa das formas. É aqui que se vê o primado que o valor da liberdade pouco a pouco recebe. Mas o difícil é nunca perder de vista que ele deve exigir ao mesmo tempo a justiça, como foi dito.

Dito isto, há também uma justiça, ainda que muito diferente, fundando o único valor constante na história dos homens que só morreram bem, quando o fizeram pela liberdade.

A liberdade é poder defender o que não penso, mesmo num regime ou num mundo que aprovo. É poder dar razão ao adversário." (Cadernos).

(*) Carnets - III - Cahier nº VII (Mars 1951/Juillet 1954)



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