Saudades de Abril

Nº 1727 - Primavera 2014
Publicado em 40 Anos de Abril por: Antonio Arnaut (autor)

Quarenta anos depois escrevo Abril e ainda me comovo com a evocação desse dia luminoso, porque o Sol se levantou finalmente livre de todas as sombras. Tempo redentor em que Portugal foi, de facto, terra da fraternidade, e o futuro, de liberdade e justiça, estava no horizonte da nossa vontade. Retenho desse tempo de festa, como de um sonho sulcando o céu, a imagem de Salgueiro Maia no Largo do Carmo, os cravos vermelhos nos punhos levantados, a saída dos presos de Caxias e os abraços entre companheiros e camaradas de lutas antigas. E no fundo da lembrança, como o eco renascido da palavra perdida, os vivas à Liberdade e ao Socialismo, entrecortados pelo cântico da Grândola e pelo refrão de que o povo unido jamais será vencido.

Ficava para trás quase meio século de um regime ditatorial e desumano que fez de Portugal um dos países mais atrasados da Europa, e o envolveu numa Guerra Colonial contra todas as luzes da razão e os ventos da História. Desse tempo ignominioso restam na nossa memória, como símbolos que não devem ser esquecidos, a PIDE, o Tarrafal e o assassinato de Catarina Eufémia e de Humberto Delgado, a somar a milhares de vítimas, perseguidos, torturados, despedidos e exilados. Mas esse foi também o tempo da resistência antifascista que caldeou amizades e nos preparou para os desafios que hão-de vir. Foi o tempo de todos os sonhos de libertação, acalentados nas masmorras do Aljube ou de Peniche, nas servidões das fábricas e dos campos, nas greves estudantis e operárias barbaramente reprimidas, nas vozes longínquas das emissoras proibidas, na barra dos Tribunais Plenários, nos gritos furtivos das noites em fúria ou no silêncio de muitas consciências agrilhoadas. Tempo a recordar, para que a memória não se apague, como traços desenhados na areia, pelas ondas alterosas do capitalismo selvagem sem alma nem rosto e desta "economia que mata", como asseverou o Papa Francisco.

A festa de Abril durou pouco, por causa do desencontro de projectos e vontades que perturbaram o curso normal da Revolução. O povo deixou de estar unido, mas ainda foi possível fazer eleições livres, elaborar a Constituição, criar o Serviço Nacional de Saúde e iniciar a construção do Estado Social de direito. Porém, o Sol começou a toldar-se até que o neoliberalismo predador, que varre a Europa, se instalou entre nós, desenvolvendo o seu meticuloso trabalho de desmantelamento do Estado Social e da própria Democracia, perante o continuado desencontro das forças progressistas democráticas, incapazes de travar o avanço do capitalismo financeiro.

Enquanto a direita converge, em razão dos interesses que a sustentam, a esquerda diverge, parecendo esquecer aqueles que dão força à sua razão, sobretudo os milhões de pobres e empobrecidos, desempregados e excluídos, afinal, a grande maioria do nosso povo.

Não aproveitámos o ensejo da História e deixámos escapar o futuro, até chegarmos ao pântano actual. Do sonho de um país que conjugasse a liberdade, a igualdade e a justiça, só nos resta a lembrança dolorosa do que poderia ter sido, embora saibamos que há sempre um recomeço.

Em 25 de Abril de 1974 tive saudades do futuro. Quarenta anos depois, tenho saudades de Abril.

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