Louvor da desobediência

Nº 1727 - Primavera 2014
Publicado em 40 Anos de Abril por: Antonio Coelho (autor)

O dia 25 de Abril de 1974 foi um dia grande de Desobediência. Por vontade própria, desobedecendo aos altos comandos, os militares saíram dos quartéis, ocuparam a televisão e a rádio, prenderam o chefe do governo e o Presidente da República. E pediram aos cidadãos: "Não saiam de casa". Os cidadãos saíram de casa, desobedeceram, e fizeram de escudo aos soldados que os libertavam de quarenta e oito anos de tirania.

As mulheres e os homens saíram de casa, engrossaram os caudais de gente, enquadraram os tanques libertadores naquela manhã e dia. Enquanto os capitães e os soldados ocupavam a televisão, as rádios, os quartéis, o aeroporto; enquanto os canhões de Vendas Novas avançavam para a Outra Banda; a multidão envolvia, no Terreiro do Paço, os militares comandados por Salgueiro Maia, subia com eles ao Largo do Carmo, avançava para Caxias, expunha a vida às balas disparadas pela Pide das janelas da Rua António Maria Cardoso.

A Junta de Salvação Nacional tardava em abrir os portões das cadeias políticas, ainda havia presos na tortura do sono. Desobedecendo, o povo e os militares escancararam as portas.

Como um vento da Anunciação, a boa nova acordou o país inteiro e levou os cravos de Abril aos cinco cantos do mundo. Os comboios e os aviões traziam de regresso os exilados políticos. Mário Soares assomava às janelas de Santa Apolónia. No aeroporto, Álvaro Cunhal falava, de pé, em cima da chaimite.

Houve poetas que não aguentaram aquela manhã, tantas vezes anunciada. Não estavam habituados à luz. Quantos portugueses morreram à espera daquela madrugada? Quantos lutaram, um dia e outro dia, para que a liberdade chegasse? Quantos desesperaram? Não há cálice, Frederico Garcia, que contenha o vinho da alegria! Não há praças onde caiba a multidão e se contenham as vozes! Gritam de felicidade. E também para expulsar o medo, um medo entranhado por milhares de anos de prisão, por humilhações,

torturas e milhares de mortos em guerras, nas ruas, nas cadeias.

No primeiro de Maio foi como que o princípio do Mundo. As pessoas abriram a medo as portas das casas, atravessaram o umbral, olharam a rua e saíram. Os pequenos grupos fundiram-se rapidamente em regatos que nos cercavam de todas as partes como se as pessoas brotassem do próprio chão. O governo caíra mesmo? Ao passarem a porta, ao pisarem a rua, ao lançarem ao vento os primeiros gritos, o espanto brilhava no rosto, o espanto de não afrontarem gendarmes que sufocassem o grito, o espanto de não verem ninhos de metralhadoras que barrassem a marcha. Braço no braço, rapaz, rapariga, fardado, civil, velho, novo, crianças assentadas nos ombros, chaimites emolduradas com cachos humanos. Seguiam em multidões ondeantes e livres pela Rota da Liberdade: Martim Moniz, Avenida Almirante Reis, Largo do Areeiro, Avenida do Aeroporto, Avenida dos Estados Unidos da América, Avenida 31 de Janeiro, Estádio 1º de Maio. A liberdade era um mar. As armas que serviram para dar a morte sustentavam a flor da liberdade e da vida.

Durante quarenta anos a vida seguiu o seu curso contraditório. Ganhámos, praticando-as, as liberdades de expressão, de reunião e de associação. Aprovámos uma Constituição que estabeleceu o modelo formal e jurídico dos direitos, das liberdades e dos seus limites. Reconhecemos os governos soberanos das ex-colónias e estabelecemos relações com todos os povos. Conquistámos o acesso universal ao ensino. A cultura e a ciência atingiram um alto nível de criação e de usufruto. Criámos um serviço nacional de saúde. Desenvolvemos o poder local democrático. Aumentamos o nível de vida e a felicidade das pessoas. Envolvemo-nos em intensos combates cívicos que não retiravam a alegria e a confiança.

Este é o lado da luz. Mas nos últimos anos a tristeza, a miséria, a solidão e a mentira baixaram sobre as cidades e os campos. Entraram nas casas. Os governos começaram a cortar. Na saúde, no ensino, na cultura, no salário, na reforma, nos direitos. E a aumentar: o desemprego, os impostos, os cortes, as mordomias dos dilectos, as isenções dos poderosos.

Temos de empobrecer! repetem até à loucura, atirando-nos à cara com estatísticas, mapas, sentenças de doutos economistas e publicistas, alguns cristianíssimos e democratíssimos, que nos explicam pacientemente que temos de empobrecer por causa do défice. Que os mercados, a troika, e que nem daqui a vinte anos...

Os pobres e as classes médias gastaram de mais e os mercados não perdoam. Senão obedecermos, não teremos dinheiro para comer. Mas como é que tanto dinheiro chegou aos mercados? Não terão recebido algum da força de trabalho? Só se fala em grandes empresas e em gestores esclarecidos, mesmo geniais. Certo é que recebem ordenados e mordomias de milhões mas não conseguem pagar salários nem pensões que dêem para viver.

Mas afinal o que são os mercados? São eles a expressão das leis económicas, independentes da acção dos homens como são as leis da física? Não têm rosto? Raramente lho vemos, mas têm cara e estômago. Alimentam-se do trabalho precário, dos baixos salários, dos juros, da privatização das riquezas nacionais, da especulação bolsista, do refúgio nos paraísos fiscais.

E mandam os troikanos do Excel, da palavra e da política: aguentai mais uns cortes nos salários e nas pensões, e a economia voltará a crescer. Mas nas nossas rendas não toquem senão o dinheiro foge. E se refilas, não falta quem queira trabalhar.

O monstro soma cada vez mais riqueza e poder numa minoria de instalados; e empobrece, humilha e estreita a liberdade e o futuro à imensa maioria dos jovens e dos cidadãos.

Os novos senhores de Portugal empurram os filhos dos outros para fora. Ministrámos-lhes em larga escala ciência e cultura mas agora não há lugar para essas mordomias. E a saúde... Nas aldeias ficam os velhos. Nas cidades, centenas de milhares recorrem à sopa dos pobres.

Para onde recuou a alegria e a esperança? Qual o caminho para sairmos desta crise, tornada permanente? A saída é a austeridade e a pobreza, é o roubo da gente que trabalha?

Por mim, louvo a Desobediência!

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