Há 40 anos, a economia “mudam-se os tempos”

Nº 1727 - Primavera 2014
Publicado em 40 Anos de Abril por: Sergio Ribeiro (autor)

Américo Tomás visita a CUF
"Todo o mundo é composto de mudança". Aprendemo-lo na escola. Se tivéssemos tido a pouca sorte de ter um/a professor/a que eu cá sei, aprendíamo-lo a dividir orações, à procura de sujeito e do predicado e do complemento directo. Isto é, aprendíamo-lo para o odiar e esquecer até que a vida o fosse lembrando. E ensinando.

Nesse tempo, de há 40 anos para trás, em Portugal tudo mudava. Mas com um ritmo garrotado, com uma querida aparência de que nada mudava ou que só mudava o que tinha mesmo de mudar para que tudo continuasse na mesma.

Quantos textos já assim começaram?, com esta "bengala"?, com o mesmo sentido, mas com esta ou outra "arrumação" de palavras?... porque o homem é o "estilo" ou porque cada um tem a sua forma de dizer e escrever o mesmo que outros muitos dizem e escrevem, que muitos outros disseram e escreveram. Ou até parece que nos repetimos.

Há quase 50 anos - na Seara Nova de Janeiro de 1965 -, embora meio escondido (por razões de então) nos apelidos, isto é, assinando Ferreira Ribeiroi, a começar uma série de cinco artigos escrevia que "nas últimas décadas, a política económica portuguesa tem apresentado características definidas. A partir de 1928, enveredou-se por um caminho de equilíbrio orçamental e estabilidade monetária. Assim se reagia ao que caracterizava o período anterior e se optava por uma via de saneamento financeiro."

Li o então escrito com curiosidade e, sem perder o sentido crítico, lembro(-nos) que o que foi publicado passara pela prévia auto-censura por se saber que iria ter de passar (e muito por lá ficar) nos apertados crivos da comissão de censura. Esses cinco artigos tinham a intenção de informar e sublinhar que havia, como está no título do primeiro, uma Nova terminologia na problemática económica portuguesa-inflação. E que tal acontecia porque se estava em mudança, em inevitável mudança. Contra as opções e as obsessões ideológicas do ditador-mor, o equilíbrio orçamental e a estabilidade monetária começavam a ter de ceder o passo a um sempre preterido e contido crescimento económico, e a economia portuguesa era obrigada a abrir-se, a deixar o casulo da autarcia (confortável para uns pouco, cheio de espinhos e cardos para o Povo), tinha de ir para lá da entrada no "clube" da EFTA, do "escape" do Tratado de Estocolmo e seu anexo G vindos da OECE.

Salazar começava a cair da cadeira, onde se aguentava desde o pós-guerra e com os novos "ventos da História" que tanto o incomodavam! Se resistira a pressões internas (como as protagonizadas, por exemplo, por Ferreira Dias Jr.), se controlara os primeiros Planos de Fomento (o 1.º, de 1953-58, mera colecção de projectos públicos, o 2.º, de 1959-64, com outras pretensões, logo reprimidas até com repressão pidesca e prisão para alguns dos seus "autores"), se reticentemente tivera de ceder a projectos industriais privados como o da Siderurgia Nacional na esteira dos cimentos, se respondera com a guerra aos movimentos de libertação nacional das colónias, assim se iam constituindo condições objectivas para a mudança. A começar na economia.

Mas, inevitavelmente - melhor se escreveria dialecticamente -, não só. A resistência política, muito particularmente a clandestina, a emigração, a tomada de consciência das massas de que havia outros mundos e em mudança, poderiam catalogar-se como as condições subjectivas que viriam dar o sentido ao que resultaria das condições objectivas para que ela se fizesseii.

Cimentos Tejo

Cimentos Tejo

Escrevo sob a forte influência da leitura recente desses escritos de há 50 anos, a ajudarem a colocar a economia de há 40 anos no tempo e suas dinâmicas.

Desde logo, com a significativa hesitação na sequência dos Planos de Fomento que, em vez de passarem do 2.º para o 3.º como exige a ordenação numérica, passaram para um chamado Plano Intercalar - de 1965 a 1967, ou seja, com metade da duração - com o argumento de duas razões externas ou exógenas: i) a evolução da integração europeia e ii) a situação nas frentes da guerra colonial.

Mas, simultaneamente, o País vivo mudava-se da agricultura e do interior para a indústria e o litoral ou para Franças e Araganças, para a integração europeia além-Pirinéus. Os poucos grandes grupos económicos (que seriam 7 e não mais), criados pelo/promíscuos com o "poder político" e a estratégia fascista e suas protecções, queriam voar para outras (e outros) capitais.

Américo Tomás condecora Champalimaud

Américo Tomás condecora Champalimaud

A Nova Política Industrial afirmava-se ainda em Salazar mas já na transição para Caetano, na continuidade compatível com a mudança etiquetada de evolução. Na viragem dos anos 60 para os anos 70, num contexto mundial de instabilidade - crise do capitalismo, com expressão no petróleo (OPEP), no comércio internacional (GATT), nas moedas (desvalorização da libra, inconvertibilidade do dólar, falhanço da moeda única na CEE a 6), a "guerra fria" a pretender-se coexistência pacífica, a NOEI (Nova Ordem Económica Internacional) -, esse novo perfil da economia portuguesa, com indústria pesada, estaleiros, têxteis e "produtos sensíveis" (concentrados e conservas), confrontava um novo tipo de problemas em que, à resistência política clandestina, se somava, em toda a evidência, a luta sindical, mobilizadora e consciencializadora, aproveitando abertas exigidas pela comunidade e legislação internacional do trabalho (OIT) contra a legislação obsoleta e ultra-reccionária do fascismo - sindicatos com posições e manifestações de luta de classe, a criação da Intersindical.

No cerne de tudo

A História contará muito mal o 25 de Abril de 1974 se o reduzir a um dia e a um heróico golpe militar de um punhado de capitães. É verdade que o dia foi glorioso e ficou como data maior do Povo Português, que a acção foi heróica, que aos "capitães de Abril" se devem todas as homenagens. Mas teve antecedentes e abriu caminhos que mais do que um poderiam ter sido. Todos de mudança.

Na economia, está o cerne de muita mudança. Não se exagera se se disser que está no cerne de tudo.

Bento de Jesus Caraça escreveu: "... o problema económico é, de todos os problemas sociais, aquele que tem de ser resolvido em primeiro lugar. Tudo aquilo que foi empreendido sem a resolução prévia, radical e séria desse problema, não passará, ou de uma tentativa ingénua, com vaga tinta filantrópica, destinada a perder-se na impotência, ou de uma mão-cheia de pó, atirada aos olhos dos incautos."iii

O que não parece nada polémico desde que se tenha, de economia, o conceito ligado ao trabalho e aos recursos que satisfaçam as necessidades sentidas pelos humanos. Esta economia há 40 anos teria de ser retrato e artífice da mudança. E de qual o sentido desta.

Com Spínola, "cavaleiro (também) de indústria", a querer domá-la, procurando impedir que o político, o social, o cultural prevalecessem. Como logo o revelou a tentativa, com o sócio A. Champalimaud (e outros "sócios"), de criar o MDSE (Movimento Democracia, Sociedade e Economia) para ajudarem economicamente o processo revolucionário... Mas as massas estavam na rua e havia luta e organização que vinha de antes. E que intervinha decisivamente e muito se reforçava nessa intervenção.

No entanto, o ponto de partida era muito complicado. Não obstante condições materiais infra-estruturais produtivas, ainda que em gestação mas com algum dinamismo, o factor demográfico foi quase dramático, com a paragem do surto emigratório, o retorno das colónias, a desmobilização militar. A que desde o primeiro momento se juntaram acções de não-investimento, de sabotagem, de fuga por parte dos detentores de capitais aplicados ou aplicáveis no financiamento da economia.

Apenas uma breve nota (e gráfico) para não se desmentir totalmente a por vezes injusta ou abusiva a imagem que se tem dos economistas, como homens de números, estatísticas e representações, de PIB's e coisas parecidas.

Das Séries Longas da Economia Portuguesa, do Banco de Portugal, retiraram-se os PIB's (a preços de mercado) anuais, relativos ao longo período considerado neste artigo. Nada se quer provar com esta representação porque ainda haveria que procurar anular o efeito monetário (inflação, com diferentes graduações a partir dos anos 60) e por outras causas pontuais que influenciaram os andamentos do indicador em que não nos deteremos. Mas deixa-se como ilustração e apoio gráfico meramente indicativo, subdividindo o período de 1956 a 1980 em subperíodos de 5 anos, depois de igualar a 100 o PIB de 1956.

"Surpreendentemente saudável"

A economia portuguesa, há 40 anos, estava dominada por grandes grupos económicos, sem relevante penetração de capitais vindos do exterior (o que não quer dizer que não os houvesse nalguns sectores e actividades), e com uma forte intervenção do Estado. Cada um desses grupos tinha o seu banco, ou teria sido formado em torno de um banco. Não era uma economia financeirizada mas, para a sumária caracterização, pode dizer-se que existia um Ministério das Finanças e um Banco de Portugal de determinante intervenção na área financeira, com esta ao serviço da economia produtiva em controlado crescimento económico.

Para usar uma expressão que não terá todo o rigor mas que poderá servir de ilustração, tratar-se-ia de um "capitalismo monopolista de Estado" formado ao invés, não por os monopólios terem tido o seu processo de criação e, assim, terem vindo a modelar o Estado a sua feição, mas por ter sido o Estado, com a sua intervenção e estratégia, e toda a espécie de proteccionismos - aduaneiras, condicionamento industrial, política de preços, sindicalismo corporativo, repressão política -, a criar os grandes grupos e a colocar-se na sua dependência.

Depois do 25 de Abril e do 1.º de Maio de 1974, e a partir do 2.º governo provisório, o controlo da actividade económica pelos trabalhadores e pelo poder político foi procurando dar resposta aos problemas, até se atingirem situações de ruptura, como foi a das nacionalizações, para que esse controle fosse efectivo e ao serviço do interesse geral. O que aconteceu depois de tentativas sempre proteladas e adiadas de programas e planos que, na nova correlação de forças e no ambiente envolvente, possibilitassem uma economia num novo caminho. De emprego e de satisfação das necessidades da população, também na sequência de medidas já insertas no 3.º Plano de Fomento (1968-73) quanto a ordenamento do território para combater as assimetrias regionais e a desertificação do interior, de descentralização e Poder Local democrático, enfim.

Vindos de um período de crescimento económico era preciso, em nome dos princípios e dos valores afirmados, que este crescimento passasse a ser integrante de desenvolvimento económico, com as vertentes social e regional, avançando quanto a correlação de forças o possibilitasse para a mudança, para a real mudança, para a mudança nas relações sociais de produção.

Muito se avançou nos escassos pouco mais de 400 dias em que o poder político e militar esteve, entre o 2.º e o 5.º governos provisórios, em mãos de quem lutava por essa mudança. Embora partilhadamente com quem não a desejava, ou outra desejasse que não beliscasse as relações sociais, que desse face humana ao desumano capitalismo. Mas tanto - e tão bem - se avançou que, depois do 25 de Novembro, uma missão da OCDE, composta por reputados (ou afamados... ou o que se quiser adjectivar) economistas, vindos decerto para dar outros pareceres sobre as consequências económicas dos "desvarios revolucionários pós-25 de Abril", acharam a economia portuguesa "surpreendentemente saudável"iv.

Com o 25 deAbril tinha sido criado o salário mínimo, o subsídio de desemprego, tinham-se instituído reformas e outros benefícios sociais, o Serviço Nacional de Saúde estava em estaleiro, afirmava-se a educação como um direito universal e gratuito, avançava a reforma agrária, o controle operário impedia as sabotagens, diversificavam-se as relações externas. Tudo, depois, consagrado formal e solenemente numa Constituição redigida em pouco menos de um ano, por eleitos na maior votação que alguma vez se fez em Portugal, e promulgada por esmagadora maioria da Assembleia Constituinte que compunham, em 2 de Abril de 1976. Com uma parte económica privilegiando o até então explorado e desfavorecido trabalho, definindo e articulando três sectores: i) público, ii) cooperativo, iii) privado

Escrevemos isto e orgulhamo-nos de o ter vivido como parte de uma geração do Povo Português.

Mas ainda mais intensamente o vivi - e neste caso pessoalmente - quando tive tarefas e corresponsabilidades numa equipa multinacional, criada pelo BIT/OIT para, a expensas da Secretaria de Estado do Emprego (porque assim foi então optado... o que discutível foi dada a existência de alternativas de financiamento da missão sem

Vasco Gonçalves discursando num encontro com trabalhadores no verão de 1975, Almada

Vasco Gonçalves discursando num encontro com trabalhadores no verão de 1975, Almada

"ajudas" pagas com juros de "língua de palmo") e sob a tutela da Secretaria de Estado do Plano, elaborar o "Plano de Médio Prazo - 1976-80v, que concretizava uma estratégia do Programa (e Conferência) Mundial do Emprego - com a esclarecedora designação de emprego e necessidades essenciais -, plano que, depois de aprovado no 1.º Governo Constitucional, acabou por ficar fechado numa das muitas gavetas do seu Primeiro Ministro, cujas algumas têm de ser abertas, a exemplo de tantas portas que Abril abriu para o futuro.

Não é (só) com nostalgia que lembro o que a "encomenda" deste artigo-testemunho suscitou. Embora muito me convidasse um mais largo e melhor aproveitamento do que há quase meio século foi publicado, como ilustração da mudança de que é composto o mundo e a nossa vida. E para sublinhar a tão-só aparente repetição do que mais não é que a mudança "tomando sempre novas qualidades". Ficará para outra altura.

Lembro tudo, sim ou também, como expressão de um testemunho e uma vontade de contribuir para contrariar que tão mal se faça história do vivido por nós. Com acrescida disposição para a luta de sempre, procurando juntar sempre mais vontades às vontades que não mudam.

i - muito obrigado pela recuperação, Ana Goulart

ii - apetece recomendar a leitura de Rumo à Vitória, o relatório (depois adoptado em Congresso) de Álvaro Cunhal.

iii - A Cultura Integral do Indivíduo-problema central do nosso tempo, conferência de 1933, publicada, em 1939, por Cadernos da «Seara Nova», pgs.. 86/7

iv - hoje, o que surpreende é que se ache que a economia está a melhorar ao mesmo tempo que é reconhecido que a situação das pessoas está a piorar!

v - o BIT editou um livro a partir desse trabalho - Employment and basic needs in Portugal -, mais tarde traduzido pela Instituto Damião de Góis

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