Nota de Leitura: O fim do Império memória de um soldado português
Nº 1727 - Primavera 2014
Publicado em Cultura por: J. C. (autor)
A Revolução do 25 de Abril ocorreu há já 40 anos. Esta data tem sido assinalada, um pouco por todo o País, em múltiplas iniciativas, com especial relevância para as de carácter popular, uma vez que as oficiais anunciadas deixam muito a desejar. Também se publicam, em jornais, revistas e livros, textos que podem contribuir, de certo modo, para o estudo e análise mais aprofundados sobre aquele período e sobre movimentações que visavam pôr em causa o Programa do MFA e as conquistas democráticas já obtidas.
Derrotada a ditadura, implantada a Democracia, cedo se começou a assistir à ofensiva contra os valores democráticos - que ainda prossegue - por parte dos meios capitalistas, dos sectores mais reaccionários e dos que viram afectados os ilegítimos privilégios que usufruíam. Com a agravante de beneficiarem do apoio de personalidades políticas que se opuseram ao fascismo e que, depois do 25 de Abril, ocuparam cargos de alta responsabilidade.
Talvez seja o momento oportuno para se reflectir seriamente sobre graves e antidemocráticos acontecimentos que concorreram para uma grande instabilidade e sobre os quais paira, ainda, algum silêncio comprometedor. Por exemplo, os relacionados com atitudes do general Spínola que, logo na primeira noite do 25 de Abril, quis alterar o Programa do MFA, opondo-se à descolonização e ao processo democrático que ora nascia. Assim como convém recordar a tentativa de golpe ocorrida só cinco meses depois, ou seja, em 28 de Setembro de 1974, organizada por aquele general e que ficou conhecida como maioria silenciosa. Mas não só: ele também preparou, em 11 de Março de 1975, a mais preocupante das suas acções contra-revolucionárias, com a utilização de meios aéreos de combate, num ataque contra o quartel do RALIS, em Lisboa, perpetrado por indivíduos de baixa índole moral e política, integrados no MDLP, movimento terrorista, dirigido pelo referido oficial general, organização esta que, como o ELP, foi responsável por inúmeros atentados desencadeados contra sedes de partidos e personalidades progressistas.
Este general, condecorado com a segunda maior insígnia da principal Ordem Militar portuguesa, perante a espontânea e contundente resposta popular, fugiu para o estrangeiro. Mas regressou. Não foi preso, não foi julgado, não foi condenado como seria de justiça. Antes pelo contrário, acabou por ser chamado, em Fevereiro de 1987, para assumir as altas funções de Chanceler das Antigas Ordens Militares!
Antes, porém, mexeu os cordelinhos noutra direcção: umas semanas antes da golpaça da maioria silenciosa apoiou um violento atentado terrorista desenvolvido em Lourenço Marques (definição colonialista para a capital moçambicana, hoje Maputo) por colonos brancos que causou milhares de vítimas. Exactamente numa altura em que decorriam, em Lusaka, as negociações entre Portugal e a FRELIMO com vista à transferência de poderes e à marcação de uma data para a independência de Moçambique. O interesse de Spínola era a de utilizar uma possível vitória dos golpistas para, enfim, travar em Lisboa o processo de descolonização.
Quando se comemoram os aniversários da Revolução e da Promulgação da Constituição da República Portuguesa revela-se de particular importância relembrar estas e outras lamentáveis, senão trágicas, acções. É um dever de cidadania, tanto mais que, nas escolas, poucos são os estudantes que têm oportunidade de ouvir os seus professores - sem culpa destes, diga-se - referirem-se aos pesados anos do fascismo e ao 25 de Abril.
Por isso, alertamos os leitores para um livro publicado recentemente pela Editorial Caminho. Intitula-se O Fim do Império - Memória de um Soldado Português. O 7 de Setembro de 1974 em Lourenço Marques. O seu autor é Ribeiro Cardoso, na altura alferes das Forças Armadas que viveu intensamente os acontecimentos registados aquando do assalto ao Rádio Clube de Moçambique por extremistas brancos que não aceitavam o reconhecimento do direito inalienável do Povo moçambicano à independência e o reconhecimento da FRELIMO como único representante desse mesmo Povo.
Não bastava, por si só, o facto de Ribeiro Cardoso ter acompanhado directamente as movimentações dos golpistas para se limitar a um mero relato, sem qualquer interpretação dos factos ocorridos. Não, a isso não se prestou o autor, o que não é para admirar já que se trata de um jornalista com trajecto profissional invejável, que não fica a aguardar à secretária um qualquer telefonema amigo, uma qualquer fuga de informação, que não aceita favores de nenhuma espécie de pessoas, pressões de organizações privadas ou políticas, ou de um qualquer adido de imprensa estrangeiro, para manipular a opinião pública com notícias ou reportagens superficiais sobre temas não confirmados que visam obscuros objectivos pondo em causa o legítimo direito dos cidadãos a uma informação responsável e rigorosa. Aliás, não foi por acaso que chegou a presidente do Conselho Deontológico do Sindicato dos Jornalistas. Acresce que tem obra publicada de que se realça uma outra esclarecedora e séria investigação jornalística sobre o que se passa na ilha da Madeira, intitulada Jardim, a Grande Fraude.
Ao longo de quatrocentas páginas revela-nos as diversas facetas de que se revestiu o ataque à Rádio Clube de Moçambique, os seus objectivos e as suas graves consequências, "com a cumplicidade da polícia e o desnorte das cúpulas das Forças Armadas em Lourenço Marques". É evidente que não se pode, em breves linhas, resumir e dar uma ideia tão completa quanto possível, do extenso e profundo trabalho que, sem dúvida, é valorizado, ainda, por uma boa escrita. É um livro denso que, logo a partir das primeiras linhas, apetece ler até ao fim. Contém informações detalhadas e fidedignas, depoimentos e interpretações certeiras sobre aquele assalto, as suas motivações e consequências.
Diz o autor: "Em Setembro de 1974, Lourenço Marque testemunhou um crime sem perdão que originou incontáveis mortos, na esmagadora maioria negros - graças à loucura e irresponsabilidades de um punhado de brancos que, sentindo o seu mundo de privilégios a ruir, se lançou numa aventura sem sentido, arrastando milhares de compatriotas que, desinformados e impreparados politicamente, naquele contexto eram presa fácil de qualquer patrioteirismo rasteiro. O resultado foi, num primeiro momento, uma euforia balofa, difundindo via rádio desejos e boatos como realidades - com os seus membros mais exaltados entregando-se, ao som do Rádio Clube de Moçambique assaltado a uma autêntica orgia de sangue negro nas ruelas sem esgoto do caniço".
"Ao terceiro dia, o medo que se havia apoderado da população negra, que ouvia a rádio apelando à intervenção sul-africana e rodesiana, transformou-se em levantamento geral sob a forma de uma marcha de catanas sobre a cidade branca. O feitiço virara-se contra o feiticeiro. Chegara a hora de a população branca ser tomada pelo medo, primeiro, e pelo pânico, depois. Polícia incluída quando as suas comprometidas chefias descobriram, tarde demais, que não tinham capacidade para enfrentar milhares de negros em fúria [...]".
Recomendamos, sobretudo aos mais jovens, a professores, a historiadores, a investigadores, a leitura desta obra esclarecedora a propósito de um episódio ocorrido num período da nossa História que, não obstante os obstáculos colocados à Democracia e as tentativas para entravar a Revolução de Abril, deve orgulhar Portugal uma vez que se pôs termo a uma injusta e dolorosa guerra, se concedeu a independência às colónias e se implantaram no País as liberdades cívicas por que o Povo português tão sacrificadamente lutou.
Acresce que o autor enriqueceu ainda mais culturalmente a sua obra com poemas de poetas moçambicanos como José Craveirinha, Jorge Viegas, Glória de Sant'Ana, Armando Guebuza, Noémia de Sousa, Rui Nogar e, até, Marcelino dos Santos e, também, de poetas de relevo portugueses como Fernando Assis Pacheco, Ary dos Santos, Sophia de Mello Breyner ou António Gedeão.
