Cinema: "A Rapariga que roubava livros" e "Nebraska"

Nº 1727 - Primavera 2014
Publicado em Cultura por: Dulce Rebelo (autor)

Não é possível avaliar em tempo útil todos os bons filmes que vão aparecendo nas salas, dada a periodicidade da nossa revista.

Habitualmente são escolhidos os mais recentes no momento da escrita.

No entanto como alguns continuam em exibição e merecem ser vistos, nomeia-se «Blue Jasmine» de Woody Allen, «A propósito de Llewyn Davis» dos irmãos Coen, ou «Filomena» de Stephen Frears.

Os dois filmes de que vamos falar em seguida focam realidades diferentes em tempos diferentes, mas são histórias humanas relevantes vividas na adversidade.

A RAPARIGA QUE ROUBAVA LIVROS

 

Realizador: Brian Percival (EUA, 2013)

Argumentista: Michael Petroni

Intérpretes: Sophie Nélisse, Geoffrey Rush, Emily Watson, Nico

Liersch, Ben Schnetzer

Música: John Williams

 

O filme passa-se no Terceiro Reich da Alemanha, durante a Segunda Guerra Mundial, e inspira-se no romance do autor australiano Markus Zusak, que obteve enorme sucesso.

A adaptação ao cinema levou sete anos. Um trabalho minucioso que procurou captar a magia e a densidade social que se vive no livro.

A narradora da história é a morte (voz de Roger Allam) que vai ceifando vidas. Liesel Meninger (Sophie Nélisse), uma jovem adolescente de 13 anos, viaja de comboio com a mãe (que tem de fugir a meio caminho por ser perseguida) e um irmão muito doente, mais novo, que acaba por falecer.

Liesel chega sozinha à cidade bávara de Molching onde é recebida pelo casal Hans e Rosa Hubermam, que vão adoptá-la.

Hans (Geoffrey Ruch) é um homem de talentos musicais, doce e humano. Rosa (Emily Watson) é uma mulher agreste, sempre com palavras desagradáveis, acusando de preguiça o marido, mas corajosa, esfalfando-se para, no meio da penúria da guerra, dar de comer à família.

No bairro operário na modesta casa n.º 33 Himmelstrasse sob a ameaça das enormes bandeiras nazis, as suas vidas vão modificar-se por influência mútua.

Percival adverte, e com razão, que não se trata de mais um filme sobre o Holocausto, mas está tudo lá: a violência nazi, a perseguição aos judeus, as muitas mortes, o fanatismo nas escolas e o terror daqueles que, discordando de tudo isto, têm de manter algumas aparências.

Mas a história não é só isto.

Há também o despertar da adolescência para o primeiro amor, o verdadeiro afecto de pai de Hans, que ensina Liesel a ler e a escrever, tornando-se ela numa apaixonada por livros, a solidariedade indefectível da família para com o judeu Max Ben Schnetzer jovem chegado numa noite a pedir apoio.

Há ainda a evidenciar o poder das palavras para espantar dores e sofrimentos, durante a prolongada doença de Max, a música e, mais uma vez, as palavras que procuram sobrepor-se ao terror de uma vistoria à cave onde Max está escondido, ou ao barulho ensurdecedor das bombas dos aliados caindo sobre a cidade. No abrigo onde se refugiam os residentes Liesel lê poemas e histórias que mudam o terror dos rostos e os apaziguam.

A jovem apaixonada por livros, salva da fogueira nazi um volume da sua preferência e vai roubando livros da biblioteca do burgomestre para descobrir novos mundos e dá-los a conhecer.

Liesel é uma menina corajosa, que se opõe ao fanático nazi Franz, que vê em Max o irmão perdido e nos horrores da guerra perde Rudy, seu colega preferido da escola, e aqueles que mais amava.

Sobrevivente dos destroços Liesel aprendeu que, em dificuldades extremas é possível viver com dignidade, cultivar o espírito, viver afectos profundos, praticar a solidariedade e usar as palavras como magia humana suavizadora de tormentos.

Os actores magníficos. Mas é justo realçar o papel da jovem actriz australiana Nélisse, pela sua maturidade, o de Rush como pai de família, convincente de verdade, e o de Watson a quem coube uma personagem difícil, pouco atractiva, desagradável, mas cujo desempenho foi plenamente conseguido.

NEBRASKA

 

Realização: Alexander Payne (EUA, 2013)

Argumento: Bob Nelson

Intérpretes: Bruce Dern, Will Forte; June Squibb, Stracy Keach

Fotografia: Phedon Papamichael

 

Para não nos desviarmos da acção deste filme, o realizador resolveu fazê-lo a preto e branco, possivelmente para lhe dar mais densidade dramática.

A personagem principal da história é um homem velho, Woody Grant (inexcedível Bruce Dern) em busca dum sonho, receber um milhão de dólares, prémio atribuído por uma revista.

Apesar da mulher e dos filhos lhe revelarem o pouco fiável que é o documento que tem em mãos, Woody persiste e põe-se a caminho do Estado de Nebraska partindo de Montana, onde reside, a pé, de bicicleta, de autocarro. Tentativas falhadas, ficando perdido algures na estrada.

É então que o filho mais novo, David (Will Forte), receando que algo de grave lhe aconteça, resolve levar o pai até ao seu destino de carro, com algumas paragens pelo caminho.

Payne leva-nos a uma América profunda, quando o carro sai da auto-estrada para atravessar planícies insondáveis e parar na terra do pai.

Aqui não é visível o sucesso americano. Na terra onde Woody e Kate (June Squibb) se conheceram, a cidade de Hawthorne, encontram os parentes (irmão, cunhados, filhos) e é confrangedor assistir ao modo como velhos e novos passam o tempo sentados diante da televisão para verem jogos de futebol e beberem cervejas não há possibilidade de conversar.

Os filhos, desempregados e abúlicos, só se animam para falar da maior ou menor velocidade conseguida por um automóvel na estrada.

À volta da casa só se vislumbram igrejas, casas e celeiros abandonados onde toda a actividade rural cessou. Não há perspectivas nem futuro.

A esta desolação junta-se a cupidez humana quando julgam que o velho homem vai realmente recebeu uma fortuna, envolvendo-se os parentes em querelas, todos exigindo o pagamento e a recompensa de dívidas antigas.

Quem põe cobro a estas exigências é Kate, a mulher de Woody, que viaja de autocarro ao encontro do pai e do filho.

É ela que, lúcida e determinada, revela que são eles todos que devem favores ao casal que os ajudou e não o contrário.

Mas também entra na contenda da "caça ao dinheiro" um antigo amigo Ed Pegram (Stacy Keach), a exigir partilha do milhão, e para isso vai até à violência.

Quando chegado ao destino, Woody perde a ilusão ao ver que o seu número de talão não foi contemplado (nos sorteios fictícios das revistas elas prometem prémios, numa publicidade enganosa, para angariarem mais vendas). O pai confessa a David que gostaria de ter o dinheiro "para deixar algo aos filhos".

É David, que dando provas de grande amor filial, vai restituir a dignidade ao pai, que fora escarnecido por aqueles que na véspera o lisonjeavam pela lotaria que ia ganhar.

As magníficas imagens de Papamichael mostram-nos um mundo desolado, parado, onde os velhos são esquecidos e os novos não encontram nada para fazer, cobiçando apenas alcançar dinheiro de forma fácil.

Mas nesta desolação há ainda os grandes afectos comoventes.

Kate, que vitupera o marido por beber e não a ajudar, revela-se carinhosa e efusiva quando o visita doente no hospital, revelando, apesar de tudo, a profunda afeição que os une. Os filhos amam os pais e há filhos que querem os pais felizes, seja qual for a sua idade.

Todas a actuações do filme são impecáveis, sobressaindo a interpretação de Bruce Dern na personagem de Woody Grant, um homem orgulhoso, amigo da bebida, confuso, mas honesto e que merece a nossa estima.

Ver todos os textos de DULCE REBELO