Apontamentos sobre as ingerências na Ucrânia

Nº 1727 - Primavera 2014
Publicado em Internacional por: Ines Zuber (autor)

Manifestações de descontentamento pacíficas sobre as condições de vida do povo, antes do aproveitamento pelas forças de direita e fascistas que levaria ao golpe de estado

Porquê na Ucrânia?

Os acontecimentos recentes na Ucrânia têm motivos concretos e a origem dos mesmos não é assim tão recente. A economia ucraniana é das mais importantes da Europa, nomeadamente ao nível da indústria, da mineração e da agricultura. Possui uma grande indústria metalúrgica que produz ferro e aço e é conhecida a denominação do "celeiro da Europa" devido aos largos terrenos férteis em trigo, cevada, milho, centeio e aveia, entre outros. Embora o PIB tenha diminuído drasticamente nos anos subsequentes à queda da União Soviética - nunca tendo recuperado - as suas potencialidades são enormes. É também evidente a importância geoestratégia da Ucrânia por possuir corredores de energia críticos - o oleoduto transiberiano - e, para o imperialismo dos EUA e da UE, pela proximidade à Rússia. O plano dos EUA de cerco à Rússia - nunca abandonado e fortemente alimentado pelas incursões da NATO , nomeadamente pela insistência no desenvolvimento de um sistema antimíssil com bases nos países do leste europeu próximos da Rússia como a Polónia e a Roménia - tem como objectivo de médio alcance a dominação da Ucrânia, politicamente, economicamente e militarmente.

Esta aliança transatlântica já tinha, em momentos semelhantes, feito notar a ingerência nos assuntos internos da Ucrânia. O que vimos acontecer no final do ano passado na Praça Maidan é uma reedição dos acontecimentos da chamada "Revolução Laranja" que colocou Yuschenko e Tymoschenko - ambos posteriormente acusados de corrupção e abuso de poder - no poder. Já aqui, em 2004, o governo Bush entregou 65 milhões de dólares para financiar aquilo que considera a promoção da democracia. Tendo sido Tymoschenko primeira-ministra entre 2007 e 2010, com o grassar das desigualdades e problemas sociais, perdeu as eleições presidenciais para Yanukovytch em 2010. Os planos de celebração de um acordo de livre-comércio com a UE, acompanhado de um empréstimo do FMI e de inúmeros condicionalismos não muito diferentes daqueles que as troikas impõem nos países "intervencionados" - reestruturações nos sectores industriais e de serviços, abertura de mercados aos grandes grupos económicos da UE, aumento das tarifas do gás, congelamento de salários, cortes nas despesas sociais - revelou-se difícil quando o Presidente Yanukovytch decide suspender as negociações, favorecendo as relações com a aliança aduaneira de influência russa na qual participam também a Bielorrússia e o Cazaquistão.

Dirigentes dos partidos de direita e extrema direita responsáveis pelo golpe na Ucrânia em reunião em Kiev, com Victória Nuland, vice-secretária de Estado dos EUA

Dirigentes dos partidos de direita e extrema direita responsáveis pelo golpe na Ucrânia em reunião em Kiev, com Victória Nuland, vice-secretária de Estado dos EUA

Os verdadeiros motivos da UE

É certo que muitos dos manifestantes contra o presidente Yanukovytch tinham apenas o anseio de sair da pobreza, de alcançar, justamente, melhores condições de vida num país onde se degladiam as elites oligárquicas. Mas quem incitou a que esse descontentamento se direccionasse a favor do acordo com a UE? Quem utilizou todos os meios ao seu dispor - incluindo as forças fascistas e xenófobas ucranianas - para prosseguir esse objectivo?

Dirigentes dos partidos de direita e extrema direita responsáveis pelo golpe na Ucrânia em reunião em Kiev, com Catherine Ashton, Alta Representante da UE para os Assuntos Externos

Dirigentes dos partidos de direita e extrema direita responsáveis pelo golpe na Ucrânia em reunião em Kiev, com Catherine Ashton, Alta Representante da UE para os Assuntos Externos

Lembremo-nos de que a chamada crise ucraniana iniciou-se no final de Novembro passado com a não assinatura pelo presidente eleito Yanukovytch do acordo de associação com a UE. Uma decisão soberana. Na altura, na sua intervenção na cimeira para a Parceria Oriental, o comissário Stefan Füle afirmou que essa decisão "não era apenas uma desilusão para a União Europeia, mas também para o povo da Ucrânia". Falou, portanto, em nome do povo ucraniano. Iniciaram-se as manifestações da oposição a Yanukovytch em Kiev, sabe-se perfeitamente, sob o comando e incitamento à violência de forças reaccionárias e fascistas como os partidos Udar ou Svoboda. Catherine Ashton, Alta Representante da UE para os Assuntos Externos, foi a Kiev reunir com Yanukovytch, a 11 de Dezembro, e em seguida visitou os manifestantes da Praça Maidan. Em relação à reunião afirmou "acreditar que o acordo deveria ser assinado o quanto antes, porque penso que é do interesse da Ucrânia fazê-lo". Sobre os manifestantes, deixou mensagens no twitter: "Continuo em Kiev. Eu estava com vocês na Maidan hoje à noite".

Dirigentes dos partidos de direita e extrema direita responsáveis pelo golpe na Ucrânia em reunião em Kiev, com John Kerry, Secretário de Estado dos EUA

Dirigentes dos partidos de direita e extrema direita responsáveis pelo golpe na Ucrânia em reunião em Kiev, com John Kerry, Secretário de Estado dos EUA

Em Janeiro declarou-se "profundamente preocupada" com a adopção das leis anti-motins, que foram posteriormente revogadas. Ainda assim, a meio de Fevereiro, ameaçou com sanções contra os "responsáveis pela repressão na Ucrânia". Finalmente, e após o golpe de Estado consumado na Ucrânia, Ashton apressou-se a reunir com o novo governo, legitimando-o, prometendo ajuda financeira a troco de um "programa de reformas". Governo que, aliás, foi determinado pela concertação entre Victoria Nuland, vice-secretária de Estado dos EUA e o embaixador dos EUA em Kiev, o que ficou claro na conversa telefónica entre os dois, tornada pública, e na qual a UE não é propriamente bem tratada (ver reportagem RTP em http://www.rtp.pt/noticias/index.php?article=715285&tm=7&layout=121&visual=49). Nuland que, em Dezembro passado, anunciou orgulhosamente o financiamento de 5 mil milhões de dólares para "democratizar" a Ucrânia.

Desfile em Kiev do Partido Svoboda (fascista)

Desfile em Kiev do Partido Svoboda (fascista)

A reunião do passado dia 3 de Março dos ministros dos Negócios Estrangeiros da UE saudou os esforços do novo governo para estabilizar a situação e empreender reformas, reafirmando a necessidade de uma reforma constitucional na Ucrânia. E, como não podia deixar de ser, a UE apressou-se a garantir que o seu objectivo era atingido finalmente. No dia 21 de Março o primeiro-ministro "interino" da Ucrânia - que resultou, clarifiquemos, de um golpe de Estado com contornos ainda pouco esclarecidos - Arseni Iatseniuk, assinou a parte política do Acordo de Associação, ao lado do presidente da Comissão Europeia, Durão Barroso e do presidente do Conselho Europeu, Herman Van Rompuy. Acordo assinado sem que ninguém nas instituições europeias questionasse a sua legitimidade e que Tymoschenko considerou a "segunda vitória da Praça Maidan".

Activistas fascistas perseguindo e agredindo na rua um dirigente comunista

Activistas fascistas perseguindo e agredindo na rua um dirigente comunista

Partidos nacionalistas-fascistas conseguem altos cargos no "novo" governo, tendo uma influência decisiva. Andriy Parubiy, co-fundador do Partido Svoboda foi apontado como Secretário do Comité da Segurança e da Defesa Nacional da Ucrânia, Partido que também nomeou o seu líder Oleh Makhnitsky como Procurador-Geral da República. Uma das primeiras medidas que o "governo" saído do golpe de Estado proclamou foi a abolição do russo como uma das línguas oficiais da Ucrânia, instando ao ódio contra a minoria russa e os russófonos, provocando temor e medo na parte leste da Ucrânia, o que apenas agudizou e acicatou os nacionalismos. Alvo histórico dos fascistas, o Partido Comunista da Ucrânia viu a sua sede ser selvaticamente ocupada, os seus militantes atacados e está em discussão a ilegalização deste Partido.

Enquanto isto, a maioria do Parlamento Europeu alinha com a política da UE, sem pestanejar. No passado dia 12 de Março aprovou uma resolução na qual "rejeita veementemente a campanha de difamação dos manifestantes contra a política de Yanukovytch, considerados fascistas pela propaganda russa", mesmo que alguns meses antes, a 13 de Dezembro de 2012, tenha aprovado uma resolução onde se declarava preocupada com o crescer dos sentimentos nacionalistas na Ucrânia, expressos no apoio ao Partido Svoboda, e instava os demais partidos a não cooperarem com este.

Mas o mundo e os tempos dão muitas voltas e é hábito do imperialismo utilizar os "fantoches" que necessita no momento certo, independentemente de serem terroristas religiosos da Al-Qaeda na Síria, militares no Egipto ou nazi-fascistas na Ucrânia. A maioria do Parlamento Europeu vai dando o seu "amén" evangelizador daqueles que chama os "valores europeus".

A propósito do envio de tropas russas para a Crimeia, Barack Obama afirmou que "o mundo está unido para reconhecer que as medidas tomadas pela Rússia na Crimeia são claramente uma violação da soberania ucraniana e do direito internacional" (Público, 4/03) e os ministros das relações externas europeus, reunidos por convocatória urgente da Baronesa Ashton, a 3 de Março, proferiram exaltados clamores à defesa da soberania ucraniana. Em comunicado condenam "a clara violação da soberania e integridade territorial ucraniana por acto de agressão das Forças Armadas russas", acções que "violam claramente a Carta das Nações Unidas e a acta final de Helsínquia da Organização para a Segurança e a Cooperação na Europa (OSCE)". É curioso que tais importantíssimos documentos históricos para a segurança e a paz mundial só tenham sido recordados agora, pois a história dos últimos meses diria que aqueles que "defendem" hoje tão nobres princípios estiveram activamente a violar os mesmos sem nenhum problema de consciência. A Carta das Nações Unidas, no seu artigo 1.º, estabelece o desenvolvimento de "relações de amizade entre as nações baseadas no respeito do princípio da igualdade de direitos e da autodeterminação dos povos", e entre os princípios da Acta de Helsínquia, estabelece-se a "igualdade soberana dos Estados" e a "não intervenção nas questões internas". Se o governo de Putin não as respeita, os EUA e a UE estão exaustos de as desrespeitar. Hoje, cada vez mais despudoradamente, aos olhos de todos.

O povo ucraniano e as forças solidárias com ele têm agora verdadeiros desafios. Não deixar que as suas aspirações sejam instrumentalizadas pelas oligarquias ao sabor dos interesses externos. Só essa união, baseada em interesses de classe comum, conseguirá resistir às operações de desmembramento e divisão do País, de dividir para melhor reinar. Terão a nossa solidariedade.

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