Eleições para o Parlamento Europeu 2014 Resultados evidenciam contradições e dificuldades
Nº 1728 - Verão 2014
Publicado em Internacional por: Ana Goulart (autor)
O número de lugares no Parlamento Europeu (PE) sofreu uma redução, passando de 766 eleitos em 2009 para 751 em 2014. Mas esta redução não explica a perda de mandatos pelos dois maiores agrupamentos do hemiciclo europeu; o Partido Popular Europeu (onde se integram os deputados portugueses eleitos pelo PSD e CDS) perdeu 53 eleitos, a Aliança Progressista dos Socialistas e Democratas (que inclui os portugueses eleitos pelo PS) cinco e a Aliança dos Democratas e Liberais pela Europa (onde se integram os dois deputados do MPT) 16. E naturalmente, muito menos explica os ganhos obtidos pelo Grupo da Esquerda Unitária Europeia/Esquerda Verde Nórdica (no qual se integram os deputados portugueses eleitos pelo PCP e Pelo BE), com mais 17 deputados, e pelo "grupo" dos Não Inscritos, com mais 19. A abstenção também não justifica as perdas e ganhos uma vez que se quedou pelos 56,01%, contra os 57% registados em 2009.
A única forma de explicar os resultados das eleições europeias de 2014 é olhando a realidade política e social de cada um dos 28 Estados-membros e sem estabelecer comparações entre eles. Só assim poderá entender-se que na Grécia o Syriza, partido de extrema-esquerda, tenha saído vencedor do escrutínio e em França a Frente Nacional, de extrema-direita, também. Nestes dois países do sul da Europa, os povos vêem-se a braços com a austeridade imposta e com tudo o que a mesma acarreta em perda de direitos e até de rendimentos. Povos que ao votarem - 43,5% de participação no acto eleitoral em França e 58, 2% na Grécia - parecem ter maioritariamente identificado a União Europeia como responsável pelas políticas austerizadas e penalizado por isso os partidos europeístas - em França a UMP perdeu quase oito por cento de votos quando comparado com o resultado obtido em 2009 e os socialistas 2,5%; na Grécia os socialistas passaram de 36,65 % dos votos obtidos em 2009 para 8,04% em 2014 e a Nova Democracia, cujos deputados integram o Partido Popular Europeu, de 32,29% para 22,75%.
Aliás, a maioria dos analistas considerou que os eleitores da UE 28 votaram contra esta UE; no dia 26 de Maio, a BBC abriu o noticiário afirmando que "os partidos nacionalistas e eurocépticos confirmaram-se como os grandes vencedores das eleições para o PE ao conquistarem mais de 100 dos 751 assentos". Esta afirmação compreende-se por ser feita por um órgão de informação de um país - Reino Unido - em que o partido mais votado foi o UKIP de Nigel Farage (presidente do grupo Europa da Liberdade e Democracia) que quer que o seu país saia da UE. Mas "mais de 100 dos 751" lugares não permitem concluir que os eurocépticos venceram o escrutínio. Os partidos que suportam a política neoliberal de austeridade mantêm uma confortável maioria absoluta de 488 deputados, descontando na soma os Verdes/Aliança Livre Europeia em cujo seio também há eleitos frontalmente contra o rumo seguido pela União Europeia e o grupo dos Conservadores e Reformistas Europeus, a que se juntou um deputado búlgaro eleito por uma coligação da extrema-direita, anti-UE.
Porém, o comportamento anti-UE não é claro em cada um dos Estados-membros. Na Alemanha, a CDU de Ângela Merkel até viu a sua votação dilatar-se em mais cinco por cento; na Bélgica o facto de os Verdes terem vencido o acto eleitoral (de 4,9% de votos conquistados em 2009 para 16,35% em 2014) também não pode ser visto como expressão de descontentamento com a "Europa" (a abstenção na Bélgica situou-se nos 10%); na Hungria, a extrema-direita consegue eleger três deputados no PE, mas o partido de direita no poder obteve mais de 51% dos votos do eleitorado húngaro; em Itália, o Partido Democrático do primeiro-ministro Matteo Renzi saiu vencedor com 40,81% dos votos e a Liga do Norte (extrema-direita) perdeu 4% dos votos e quatro deputados comparando com 2009; no Luxemburgo (taxa de abstenção de 10%) pouco se alterou em relação a 2009, registando-se uma baixa de votação em todos os partidos luxemburgueses representados no PE; na Holanda, Liberais e Verdes reforçam as votações, mas em termos de representação no PE conseguem apenas mais um deputado cada.
Deste modo, pode concluir-se que em França, Grécia e Reino Unido - três Estados-membros em 28 - manifestou-se maioritariamente o voto anti-UE, nos restantes esta evidência não é tão clara.
Uma nota para a Irlanda. O Partido Independente foi o vencedor das eleições europeias conquistando 24% do eleitorado (4,63% em 2009); os três deputados que elegeu integram três grupos: S&D, ALDE e GUE/NGL. O Sinn Féin, partido que luta pela independência da Irlanda, no entanto, registou um significativo aumento na sua votação (11,24% em 2009, 19,50% em 2014) e representação passando a contar com três deputados no PE (nunca elegera) que integram a GUE/NGL.
O "novo" PE
No dia 1 de Julho, dia da primeira sessão do Parlamento Europeu (PE) saído das eleições de 25 de Maio, os grupos ficaram constituídos. O Partido Popular Europeu - Democratas-Cristãos (PPE) conta com 221 deputados (274 em 2009); a Aliança Progressista dos Socialistas e Democratas (S&D) com 191 (196 em 2009); os Conservadores e Reformistas Europeus (CRE) com 70 (57 em 2009); a Aliança dos Democratas e Liberais pela Europa (ALDE) com 67 (83 em 2009); a Esquerda Unitária Europeia/ Esquerda Verde Nórdica (GUE/NGL) com 52 (35 em 2009); os Não Inscritos (NI) com 52 (33 em 2009); os Verdes/Aliança Livre Europeia (Verdes/ALE) com 50 (57 em 2009); a Europa da Liberdade e da Democracia com 48 (31 em 2009).
No novo PE há alterações importantes: o CRE passa de quinto para terceiro grupo, a GUE/NGL de sexto para quinto, a ALDE de terceiro para quarto e os Verdes/ALE de quarto para sétimo. Porém, estas alterações não são suficientes para mudarem o rumo da UE. Isso mesmo atesta a texto de Frank-Walter Steinmeier, candidato do SPD a chanceler alemão em 2009, publicado no Público, a 5 de Julho: "as famílias políticas democráticas continuam a dispor de uma clara maioria no Parlamento Europeu (PE) recém-eleito. O novo Parlamento está operacional e tem poder de deliberação. A experiência da última legislatura é prova de que, com toda a competição política, os democratas europeus no PE - sociais-democratas [socialistas], conservadores, liberais e verdes - conseguem agir e dar enquadramento político em conjunto com o Conselho e a Comissão Europeia".
Por isso, o chamado "acordo de cavalheiros" (acordo não passado a papel) entre socialistas e populares continua a vigorar permitindo aos primeiros deter a presidência do PE, com Martin Schulz, durante metade do mandato, e aos segundos a presidência da Comissão Europeia (CE), com Jean-Claude Juncker a suceder a Durão Barroso.
Esta Europa de pendor federalista, militarista e neoliberal afirma-se preocupada com o avanço da extrema-direita. "Preocupa-me profundamente que tantos eurodeputados de extrema-direita tenham sido eleitos para o Parlamento. Quase 10% dos mandatos de mais de dez Estados-membros por toda a UE foram atribuídos a partidos que se posicionam frontalmente contra a liberdade de circulação e contra os direitos das minorias. Os partidos populistas que recusam o caminho da integração europeia têm hoje um número de mandatos nunca antes alcançado. Em alguns Estados-membros, os grupos extremistas contar-se-ão entre os maiores partidos, senão mesmo o maior, a representar o seu país no PE. Desde 25 de Maio que se fazem sentir as ondas de choque desencadeadas por estes resultados eleitorais. Partidos declaradamente de extrema-direita têm assento e voz no novo Parlamento. É deveras vergonhoso que o NPD tenha conseguido uma entrada para Estrasburgo e Bruxelas. Depois de o Tribunal Constitucional federal ter mandatado a eliminação da cláusula-barreira de 3%, entram para o PE partidos de franja da Alemanha que simplesmente não têm um programa político sério" (Frank-Walter Steinmeier, no referido artigo publicado no Público).
Uma preocupação curiosa tendo em conta que um deputado búlgaro, os finlandeses e os dinamarqueses da extrema-direita foram acolhidos pelo CRE e que os partidos de ideologia nazi conseguiram eleger sete deputados - um alemão, três gregos e três húngaros -, numa Europa que ainda hoje contabiliza as vítimas da 2.ª Guerra Mundial.
Nota: Os Não Inscritos não formam um agrupamento parlamentar. Para a constituição de um grupo político no PE são necessários 25 deputados originários de pelo menos sete Estados-membros. Os deputados de extrema-direita e fascistas são a maioria dos Não Inscritos, porém, também dois deputados eleitos pelo KKE (Partido Comunista Grego) optaram por não integrar o GUE/NGL em protesto contra a aceitação deste em acolher os deputados eleitos pelo Syriza.
Partidos do Governo perderam mais de meio milhão de votos
Os resultados das eleições europeias em Portugal confirmam o isolamento do Executivo PSD/CDS. Coligados, PSD e CDS, perderam 517.386 votos; isolado o PSD conseguiu em 2009 31,71% dos votos (o CDS recolheu 8,37%); em 2014 a coligação governamental PSD/CDS ficou-se por 27,71%; em 2009 o PSD elegeu oito deputados e o CDS dois, em 2014, juntos, elegeram sete deputados. CDU e PS cresceram em número de votos e mandatos, mas a surpresa veio do MPT que conseguiu eleger dois deputados ao Parlamento Europeu (PE).
Portugal ficou com direito a eleger 21 dos 751 deputados do Parlamento Europeu, menos um deputado que em 2009. Este facto dá particular expressão à vitória da CDU, no escrutínio do passado dia 25 de Maio: a coligação PCP-PEV somou mais votos (quase mais 40 mil que em 2009), mais percentagem (12,68% em 2014; 10,66% em 2009) e mais mandatos (de dois deputados, passou a contar com três). O PS registou igualmente um crescimento eleitoral: 946. 465 votos em 2009, 1.033.110 votos em 2014; 26,58% em 2009; 31,46% em 2014; sete mandatos em 2009, oito mandatos em 2014.
O Bloco de Esquerda (BE) também viu o seu eleitorado encolher. Em 2009, os bloquistas haviam conseguido 382.005 votos, em 2014 não foram além de 149.621; de 10,73% em 2009, desceram para 4,56% em 2014; dos três mandatos alcançados em 2009, ficaram com apenas um em 2014. O Livre, o mais recente partido político português criado em vésperas do ato eleitoral europeu pelo ex-deputado europeu eleito pelo BE em 2009, Rui Tavares, não foi o único responsável pela erosão eleitoral do BE.
A noite eleitoral revelou a surpresa da eleição de dois deputados pelo MPT. Um resultado alcançado essencialmente pelo mediático candidato ex-Bastonário da Ordem dos Advogados, Marinho e Pinto.
