Cinema: "Os gatos não têm vertigens" de António Pedro Vasconcelos

Nº 1730 - Inverno 2014
Publicado em Cultura por: Dulce Rebelo (autor)

Realizador: António Pedro Vasconcelos
Argumentista: Tiago R. Santos
Intérpretes: Maria do Céu Guerra, João Jesus, Fernanda Serrano, Ricardo Carriço, Nicolau Breyner, Gustavo Alves, Tiago Delfino, Victor Gonçalves, Manuel Santiago.
(Portugal, 2014)

A história aborda questões importantes do nosso tempo como a delinquência juvenil, o abandono dos idosos cada vez mais isolados, tendo como pano de fundo a crise económica e social, a vivência das pessoas, cada vez com mais dificuldades, o aumento do desemprego.

Em primeiro plano põe-se em destaque a falência dos laços de família, o vazio entre gerações.

A narrativa centra-se assim em duas personagens, uma viúva de 73 anos e um jovem delinquente de 18 anos, mostrando-nos como se torna possível uma relação de amizade e afecto entre pessoas tão diversas de vida e de experiência.

Rosa (Maria do Céu Guerra) perdeu o marido, um companheiro de toda uma vida feliz. A filha e o genro visitam-na, mas não a acompanham. Aliás parece ser comum os filhos, quando já são independentes, não terem tempo para os pais e se estes vivem sozinhos só pensam em colocá-los num lar para se livrarem de eventuais trabalhos. Rosa, mulher dinâmica, comunicativa, sofre intensamente com a solidão.

Um dia um jovem, que faz pequenos roubos e vive num bairro da periferia da cidade, é expulso de casa, depois de ter sido espancado por um pai bêbado. Deambulando pelas ruas vai parar ao terraço de Rosa, adormecendo num sofá velho. Daqui nasce uma relação de afecto improvável noutras circunstâncias.

Rosa renasce cuidando de Jó, incentivando-o nos seus dotes de escrita. O rapaz aprende com Rosa a sua vivência no fascismo e afeiçoa-se a esta mulher terna, viva e dinâmica, corajosa perante a vida.

Reflexos da crise política e social aparecem na realidade vivida pelas pessoas: o vizinho que fica desempregado e se vê obrigado a regressar à terra, a casa que não se consegue vender, o talho que fecha as portas por falta de clientela.

O que sobressai no filme não é a saída para os problemas presentes, mas a importância dos afectos nas relações humanas para enfrentar dificuldades na vida.

A ternura de Rosa pelo jovem livra-o da solidão e Jó fica-lhe a dever a ajuda crucial num momento de abandono, assim como a realização do seu sonho.

A representação dos artistas consagrados é sempre da maior qualidade.

O jovem João Jesus, estreante no cinema, teve uma história semelhante à da personagem do filme sem as agravantes de Jó.

Oriundo dum bairro problemático viu muita coisa que ocorria nas ruas estreitas, com rusgas policiais frequentes. Num período vacilante mão amiga levou-o à Escola Profissional de Teatro de Cascais, ao completar o 12º ano. Hoje, entusiasmado pela profissão, tem vários projectos.

A proximidade de vida entre o actor e a personagem ajuda-o mais facilmente a desempenhar de forma correcta o seu papel. Para ele foi também fascinante contracenar com actores de tão grande sabedoria e qualidade, uma experiência que o vai ajudar na construção do seu futuro.

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