É preciso escolher: descansar ou ser livre
Nº 1730 - Inverno 2014
Publicado em Serviço Público e Bem Comum por: Sampaio da Novoa (autor)
Este é o tempo, o nosso tempo.
Sentimos o cansaço das palavras, habita-nos a urgência de uma acção que é resistência, que é liberdade, que é futuro, que é recusa de um país que anda sempre às voltas com o mesmo destino.
Se queremos ser livres, não podemos descansar (Tucídides). A liberdade individual nasce do trabalho colectivo, do encontro, de movimentos comprometidos com o "bem público", com o "bem comum".
Quando alguém se esconde, se omite, se demite, é toda a sociedade que regride. Não há nada pior do que o conformismo que nos torna insensíveis, do que a indiferença que nos torna desumanos.
Foi há um século que a Guerra venceu a Europa. Como todas as guerras, como todas as tragédias humanas, não aconteceu apenas por causa de "alguns", mas sobretudo pela resignação de "muitos", por uma espécie de "consentimento generalizado".
É por isso que cada um de nós tem de ser responsável pela humanidade inteira, tem de saber que os seus gestos contam e que neles está o futuro de todos. Não nos podemos abandonar ao fatalismo, à ideia de que a nossa acção de pouco ou nada serve. Quem sente, não consente.
Este é o nosso tempo, o tempo de abrirmos um tempo novo.
Quando virámos de século, tínhamos a segurança de que Abril nos trouxera, finalmente, para níveis europeus de desenvolvimento. A entrada no euro confirmava-nos esta certeza.
Os catorze anos deste século retiraram-nos as ilusões. Já lá vai mais de uma década de retrocessos, sobretudo neste último triénio, da troika. A glorificação dos mercados trouxe a destruição das sociedades, perverteu a palavra liberdade para a transformar numa arma de arremesso contra o Estado social, contra os princípios da justiça social e, até, contra os direitos humanos.
A Europa já nos explicou, de experiência feita, que ninguém nos salva, a não ser nós próprios, com as nossas forças e fraquezas, compreendendo-as e superando-as. Interdependência, sim. Dependência, não. "Sonhemos com uma Europa que não terá como sede Berlim, ficando Bruxelas para a burocracia e Estrasburgo para o entretenimento verbal" (José Saramago). Sonhemos com uma Europa de muitos centros, e não de um centro só.
O mundo já nos explicou, de ciência certa, que a tão apregoada "liberdade dos mercados" traz mais pobreza para a maioria das pessoas, traz mais desigualdades, mais fracturas e divisões. Precisamos de um outro mundo, no qual a ganância e a especulação não sejam elevadas ao lugar cimeiro das virtudes. Sem controlo público, sem controlo dos Estados ou das organizações internacionais, os poderes que dominam o mundo, e que tantas vezes nem sequer conseguimos identificar e nomear, corrompem a democracia e a liberdade.
Os combates na Europa e no mundo parecem superiores às nossas forças. Mas sabemos bem que, ao longo dos séculos, muitos "impossíveis" se tornaram "possíveis". E sabemos também que, depois de alcançados, a nossa perplexidade vira logo do avesso: porque é que demorámos tanto tempo?
Tempo de uma nova política
Comecemos hoje. Este é o tempo, o tempo de uma nova política.
O estado do País já não se descreve com palavras. Não são apenas erros e mais erros. É o resultado de políticas, de opções deliberadas tomadas ano após ano.
Muitas vezes, como Reitor, após cada corte no orçamento, após cada protesto, perguntavam-me os jornalistas: "Mas, afinal, diga-nos lá, concretamente, em que é que isso afecta o normal funcionamento da Universidade?". E eu lá tentava explicar que a degradação não se vê logo à primeira, que se não cuidarmos da casa todos os anos, ela não vem logo abaixo. Mas um dia vem... E agora veio: na Educação, na Justiça, no Trabalho...
Não é um descuido, é o resultado de um desinteresse intencional, de um abandono sistemático da "coisa pública". Não é um descuido. É uma ideologia, uma ideologia contra o serviço público, contra o Estado Social.
Precisamos de construir uma nova política, que reforce a capacidade de decidirmos sobre o nosso destino e de nos desenvolvermos num quadro de justiça social e em paz com a Terra.
Para tal, as políticas públicas têm de se construir em torno de três eixos principais.
Primeiro - investir na cultura, na educação e na ciência, com a correspondente valorização do trabalho e das qualificações, porque está aqui a nossa independência e o nosso futuro.
Segundo - trazer o conhecimento para a sociedade e para a economia, com dinâmicas de transferência de tecnologia e de inovação, porque está aqui a possibilidade de uma estrutura produtiva sólida e capaz de se adaptar ao desenvolvimento verde (ou azul, para aqueles que preferem a metáfora da água).
Terceiro - consolidar direitos e deveres, no trabalho e na vida, com uma fortíssima consciência social, porque não há sociedade forte e coesa sem igualdade, porque na pobreza não há democracia, não há liberdade.
Este é o nosso tempo, o tempo de nos juntarmos para mudar Portugal.
Precisamos de unir, de reunir as forças de mudança, que existem, mas que estão fragmentadas. Dividir é fácil, unir é que é difícil. E, para unir, precisamos de coragem, de determinação, de ideias, precisamos de nos encontrar, num trabalho concreto, persistente, paciente.
É habitual ouvir-se o verso de António Machado: "O caminho faz-se caminhando". Mas faz-lhe falta uma palavra: "juntos". O caminho faz-se caminhando juntos, quando caminhamos uns com os outros.
E, para isso, precisamos de ter a coragem de assumir novas formas de fazer política, de construir processos de diálogo e de participação, de começar uma vida política que permita a cada um ser "autor" e não apenas "eleitor", que permita a cada um estar presente (fazer-se presente) e não apenas ser representado, que permita a cada um decidir todos os dias e não apenas de quatro em quatro anos.
É através destes novos espaços de sociabilidade, e de decisão, que se pode democratizar a democracia, que se podem abrir novas possibilidades de agir. O alinhamento entre uma maioria, um governo e um presidente correu sempre mal. A política tem de ser feita de muitas vozes, diferentes, de muitas presenças, fortes, de muitos espíritos, independentes. É neste espaço público de causas, neste espaço de causas públicas, que se definirá o nosso futuro.
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"E agora trabalhar. Decisões prontas, pensamento claro. Eis o que o tempo exige de nós" - escreveu José Saramago, na Seara Nova, há quarenta anos.
Sim, este é o nosso tempo.
Não podemos ficar à espera que outros escrevam a história por nós, que outros assumam as nossas responsabilidades. Claro que não é por adiantarmos os relógios que o futuro chega mais cedo. Cada utopia, cada sonho, dá muito trabalho, obriga a muitas conversas, a muitos encontros. "Nas consciências e nas ruas".
E também aqui, nesta Conferência, porque nela se vive o nosso tempo, e temos de o habitar com "a coragem dos começos". Ninguém nos perdoaria se não conseguíssemos pôr-nos de acordo. E não pode ser amanhã. Tem de ser hoje. Porque é hoje o nosso tempo, o tempo de abrirmos um tempo novo, o tempo de nos juntarmos para mudar Portugal.
