Educação: passado, presente e futuro

Nº 1730 - Inverno 2014
Publicado em Serviço Público e Bem Comum por: Santana Castilho (autor)

Porque é mau que percamos a memória colectiva, permitam-me que recorde:

- Recordo o altruísmo anónimo por parte de professores, que testemunho há décadas, no combate nacional ao abandono escolar precoce. Vejo, atónito, o novo desígnio governamental de promover o abandono docente precoce.

- Recordo a desvalorização de uma classe, a quem, em fartas partes, se deve o notório aumento das qualificações dos portugueses. Mau grado desencontros e desencantos.

- Recordo Maria de Lurdes Rodrigues, obreira do caminho sinistro da proletarização dos professores. Vejo, hoje, Nuno Crato, oportuno, trilhá-lo com zelo.

- Recordo a divisão dos professores em titulares e outros. Caída a aberração, persiste a tentação. De que outra forma se explica a recente disponibilidade de tantos para examinarem colegas a três euros por cabeça?

- Recordo protestos, muitos, onde hoje vejo esquecimento. Recordo a indignação nas ruas, hoje substituída pelo desalento de tantos que desacreditaram.

- Recordo vários que partiram e sinto raiva por tantos que, vivos, estão mortos para a profissão. E pergunto-me se, algum dia, muitos, com nome, responderão pelos futuros que destruíram.

- Recordo escolas fechadas aos milhares, Portugal interior fora.

- Recordo dados recentes (2013 Global Teacher Status Index, Varkey GEMS Foundation) de um estudo que apurou a atitude das sociedades desenvolvidas relativamente aos seus docentes. E recordo o estatuto social dos professores portugueses no último terço da tabela, bem atrás da maioria dos seus parceiros europeus.

- Recordo, sem espanto, que apenas 12% dos portugueses encorajam os filhos a serem professores (o segundo pior resultado do universo estudado).

- Recordo, a propósito, que a International Association for the Evaluation of Educational Achievement realiza, cada quatro anos, dois estudos conceituados internacionalmente: o TIMMS (Trends in International Mathematics and Science Study) e o PIRLS (Progress in International Reading Literacy Study). Portugal participou na edição de ambos de 1995, tendo ficado nos últimos lugares do ranking. Ausente dos estudos de 1999, 2003 e 2007, voltou a ser cotado em 2011. Entre 50 países, ficou no 15.º lugar em Matemática e 19.º em ciências. Entre 45 países, foi 19.º no PIRLS. Em valor absoluto, os resultados foram positivamente relevantes. Foram-no, ainda mais, em valor relativo: de 1995 para 2011, foi Portugal o País que mais progrediu em Matemática e o segundo que mais avançou no ensino das ciências; Portugal foi melhor que a Alemanha, Irlanda, Áustria, Itália, Suécia, Noruega e Espanha, entre outros; se reduzirmos o universo aos países da União Europeia, estamos na 12.ª posição em ciências, 7.ª em Matemática e 8.ª em leitura; se ponderarmos estes resultados face ao estatuto económico e financeiro das famílias e dos Estados com que nos comparamos, o seu significado aumenta e deita por terra o discurso dos que destratam os professores. Estes resultados, é bom e actual recordá-lo, são fruto do trabalho dos professores portugueses.

- Recordo outro estudo, promovido por Joana Santos Rita e Ivone Patrão, investigadoras do Instituto Superior de Psicologia Aplicada, segundo o qual metade dos professores portugueses sofre de stress, ansiedade e exaustão. Recordo que as causas apuradas são o excesso de trabalho e de burocracia e a pressão para o sucesso. E recordo o que o ministro Crato tem por sucesso: caminhos que desprezam a natureza axiológica da Educação, tentando impor-lhe o modelo de mercado, simples serviço circunscrito a objectivos utilitários e instrumentais, regulado apenas por normas de eficiência e eficácia.

- E recordo, a propósito e por fim, uma carta a um professor, transcrita num livro de João Viegas Fernandes (Saberes, Competências, Valores e Afectos, Plátano Editores, Lisboa, 2001): "... Sou sobrevivente de um campo de concentração. Os meus olhos viram o que jamais olhos humanos deveriam poder ver: câmaras de gás construídas por engenheiros doutorados; adolescentes envenenados por físicos eruditos; crianças assassinadas por enfermeiras diplomadas; mulheres e bebés queimados por bacharéis e licenciados...

... Eis o meu apelo: ajudem os vossos alunos a serem humanos. Que os vossos esforços nunca possam produzir monstros instruídos, psicopatas competentes, Eichmanns educados. A leitura, a escrita e a aritmética só são importantes se tornarem as nossas crianças mais humanas".

Ataque ao futuro colectivo

Basta um esforço ínfimo de memória para qualquer se aperceber de quanto deve aos professores. Chega uma réstia de inteligência para qualquer perceber que um ataque aos professores é um ataque ao futuro colectivo.

Mas, apesar disso, quando a presente legislatura acabar, os professores terão perdido, em sede de direitos básicos e salários, boa parte do que conquistaram em quatro décadas. Tudo em nome de uma inevitabilidade fabricada por um pequeno grupo elitista. Crato pertence-lhe e nunca surpreendeu os mais atentos. Quem tivesse ouvido com atenção a comunicação apresentada em 2009 ao "Fórum Portugal de Verdade", não se surpreenderia com o que se seguiu: o enterro definitivo da eleição aberta dos directores; a diminuição do peso dos professores nos conselhos gerais das escolas; o aumento da promiscuidade entre a política partidária e a gestão pedagógica do ensino; a protecção da tirania e do caciquismo; a adulteração do sentido mais nobre do estatuto da carreira docente; a consolidação dos mega-agrupamentos; a extinção da transparência e da universalidade dos concursos de recrutamento de professores e a subserviência à corporação do ensino privado, por forma que a Constituição proíbe.

As estatísticas publicadas permitem concluir que tínhamos no sistema público de ensino não superior, em 2000, 1.588.177 alunos para 146.040 professores. Em 2011, passámos a ter 1.528.197 alunos para 140.684 professores. Ou seja, o sistema perdeu 59.980 alunos e 5.356 professores entre 2000 e 2011. Sabemos que a alteração da escolaridade obrigatória, entretanto ocorrida, devia ter considerável impacto na necessidade de professores. E sabemos que a invocada diminuição da natalidade não tem qualquer expressão entre 2011 e 2013. Então, o que aconteceu ao número de professores entre 2011 e 2013? Passou para cerca de 111.600. Em dois anos, perdemos 29.084 professores. Diminuição da natalidade? Sejamos honestos: exclusiva preocupação com a redução de custos, sem nenhuma sensibilidade para o futuro. Porque temos 3.500.000 portugueses com mais de 15 anos, que não têm qualquer diploma ou apenas concluíram o ensino básico. Porque temos 1.500.000 portugueses, entre os 25 e os 44 anos, que não concluíram o ensino secundário. Porque, apesar dos progressos, persiste uma Taxa de Abandono Precoce de 19,2%, a segunda maior da Europa. Porque estamos de regresso ao passado e porque as políticas seguidas se têm centrado na exclusiva obtenção de ganhos financeiros: com o encerramento de milhares de escolas e a deslocação compulsiva de crianças de tenra idade para distantes giga-agrupamentos, inéditos no mundo civilizado; com a redução dos tempos lectivos de algumas disciplinas e a abolição de outras; com o aumento do número de alunos por turma; com o aumento da carga horária dos professores; com a drástica redução das iniciativas de segunda oportunidade para os que abandonaram precocemente o sistema formal de ensino; com a transferência para o Instituto de Emprego e Formação Profissional de valências que, antes, pertenciam às escolas públicas. Como se fosse possível crescer economicamente travando, sem critério nem visão, um esforço colectivo de décadas.

Acusam-me, com frequência, de ter uma visão corporativa quando analiso as políticas educativas. Pergunto a quem assim me julga: Trinta alunos por turma, 300 alunos por professor, mais horas de trabalho lectivo, mais horas de trabalho não lectivo, menor salário, carreiras e progressões congeladas vai para oito anos, obrigatoriedade de deslocação a expensas próprias entre escolas do mesmo agrupamento, exercício coercivo a centenas de quilómetros da residência e da família, desmotivação continuada e espectro do desemprego generalizado, são realidades que afectam os professores, em exclusivo? Não afectam os alunos? Não importam aos pais? Ao futuro colectivo?

A diminuição do financiamento dos serviços de acção social escolar, quando o desemprego dos portugueses disparou e a fome voltou às nossas crianças, bem como a remoção sistemática, serviço após serviço, das respostas antes existentes para necessidades educativas especiais, é problema corporativo dos professores ou razão para que a comunidade civilizada se mobilize?

A drástica diminuição dos funcionários auxiliares e administrativos, a redução das horas de apoio individualizado aos alunos, o aumento do preço dos manuais e dos passes e a deslocação coerciva de crianças de tenra idade para giga-agrupamentos são problemas exclusivos dos professores?

Dizer não à educação como negócio

Rejeito a modéstia falsa para afirmar que poucos como eu terão acompanhado o evoluir das políticas de educação dos últimos tempos. Outorgo-me por isso autoridade para afirmar que é irrecuperável a desarmonia entre este Governo e os professores. A confiança, esse valor supremo da convivência entre a sociedade civil e o Estado, foi definitivamente ferida de morte quando a incultura, a falta de maturidade política e o fundamentalismo ideológico de Passos e Crato trouxeram os problemas para o campo da agressão gratuita. Estes dois artífices da política vigente confundiram a legitimidade eleitoral, que o PSD ganhou nas urnas, com a legitimidade para exercer o poder, que o Governo perdeu quando escolheu servir estrangeiros e renegar os portugueses e a sua Constituição. Com muitos acidentes de percurso, é certo, a Nação cimentada pela gestão solidária dos princípios e valores de Abril foi posta em causa por um Governo apostado em recuperar castas e servidões. Alguém tem que dizer a esse Governo que a educação, além de direito fundamental, é instrumento de exercício de soberania. Alguém tem que lhe dizer que princípios que o Ocidente levou séculos a desenvolver não se podem dissolver na gestão incompetente do orçamento. Alguém tem que lhe dizer que o desemprego e a fome não são estigmas constitucionais. Que sejam os professores, que no passado se souberam entender por coisas bem menores do que aquelas que hoje os ameaçam, esse alguém. Alguém suficientemente clarividente para vencer medos e comodismos, relevar disputas faccionárias recentes, pôr ombro a ombro contratados com efectivos, velhos com novos, os a despedir com os já despedidos. Alguém que defenda o direito a pensar a mais bela profissão do mundo sem as baias da ignorância. Alguém que diga não à transformação da educação em negócio. Alguém que recuse transferir para estranhos aquilo que nos pertence: a responsabilidade pelo ensino dos nossos alunos.

O último ano lectivo ficou marcado, pobremente marcado: pelo afastamento da profissão de muitos e dedicados professores; pela redução, a régua e esquadro, sem critério, de funcionários indispensáveis; pela amputação autocrática da oferta educativa das escolas públicas, para benefício das privadas; pela generalização do chamado ensino vocacional, sem que se conheça qualquer avaliação da anterior experiência limitada a 13 escolas e depois estendida a 300, via verde de facilitismo (pode-se concluir o 3.º ciclo num ano ou dois, em lugar dos três habituais) e modo expedito de limpar o sistema de repetentes problemáticos; pela imposição arbitrária de decisões conjunturais de quem não conhece a vida das escolas, de que as metas curriculares, a eliminação de disciplinas, o brutal aumento do número de alunos por turma e as alterações de programas são exemplos; pelo medo do poder sem controlo, que apagou ao dobrar de qualquer esquina contratos de décadas e compromissos de sempre; pela selva que tomou conta da convivência entre docentes; pelo utilitarismo e imediatismo que afastou a modelação do carácter e a formação cívica dos alunos; pela paranoia de tudo medir, registar e reportar, para cima, para baixo, para o lado, uma e outra vez, e cujo destino é o lixo, onde termina toda a burocracia sem sentido; pelo retrocesso inimaginável, a que só falta a recuperação do estrado e do crucifixo.

O que "ganhou" com a greve

Ao evoluir da situação que acabo de sintetizar, os professores não têm logrado opor-se com eficácia. A história recente do confronto com os dois últimos ministérios, o de Maria de Lurdes Rodrigues e o de Nuno Crato, é uma história pírrica. Evoco um exemplo: Quando em Junho de 2013 foi anunciada a greve dos professores, surgiram, cândidos, dois discursos: o dos que a queriam condicionar a não perturbar a tranquilidade do chá das cinco e o dos que só militam na solução que nunca é proposta. É curioso ver os primeiros invocarem o direito de uns, do mesmo passo que ignoram o sistemático desrespeito dos direitos dos outros. Recordemos o que alguns destes então disseram:

- Marques Mendes: "... marcar uma greve para coincidir com o tempo dos exames nacionais ... não é um direito ... é quase criminoso ... é uma falta de respeito ...";

- Paulo Portas: "... se as greves forem marcadas para os dias dos exames, prejudicam o esforço dos alunos, inquietam as famílias ...";

- Nuno Crato: "... lamentamos que essa greve tenha sido declarada de forma a potencialmente criar problemas aos nossos jovens, na altura dos exames ...".

Marques Mendes não se cansou de afirmar, na altura, que a greve era um direito constitucional. Mas aquela, que os professores haviam anunciado, essa, qualificou-a como um abuso e uma falta de respeito. Faltou-lhe dizer o que propunha. Provavelmente que se ressuscitasse o papel selado para que Mário Nogueira e Dias da Silva requeressem ao Governo a indicação da data que mais convinha à troika.

Conheceria Paulo Portas greves com cores de arco-íris, acetinadas, que fossem cómodas para todos?

E Nuno Crato? Que pretenderia Nuno Crato? Que os professores marcassem a greve às aulas que estavam a terminar? Ou preferiria o 10 de Junho?

A candura cínica destes políticos experimentados tê-los-á impedido de ver o óbvio, isto é, que os professores, humilhados como nenhuma outra classe profissional nos últimos anos, decidiram, finalmente, dizer que não aceitavam mais a desvalorização da dignidade do seu trabalho. Porque se sentiam governados por déspotas de falas mansas, que instituíram clandestinamente um estado de excepção. Porque, conjuntamente com os demais funcionários públicos, se sentiam alvo da raiva do Governo, coisas descartáveis e manipuláveis, joguetes no fomento das invejas sociais que a fome e o desemprego propiciam. Porque tinham mais que legítimo receio quanto à sobrevivência do ensino público. Porque viram, na prática, os quadros de nomeação definitiva pulverizados pelo arbítrio. Porque rejeitavam a vulgarização da precariedade como forma de esmagar salários e promover condições laborais degradantes. Porque a dignidade que reivindicavam para si próprios era a mesma que reclamavam para todos os portugueses que trabalham, sejam eles públicos ou privados. Porque sabiam que a tragédia presente de professores despedidos seria o desastre futuro dos estudantes e do País. Porque a disputa por que então se expunham defendia a sociedade civilizada, as famílias e os jovens.

As razões que levaram 100.000 professores a abraçar a greve foram remotas e longas. Remontam a toda uma política que Maria de Lurdes Rodrigues começou e Crato prosseguiu e reforçou com denodo. É minha convicção que a expressão da adesão à greve surpreendeu o Governo e os próprios sindicatos. Não é pois possível medir-lhe os resultados sem a consideração do que é mais profundo, do que está para lá do evidente.

Há hoje um grupo de bem-pensantes que desconhece ou esqueceu a história do sindicalismo. Para eles, o exercício do direito à greve não deve ultrapassar um certo simbolismo coreográfico, que termine rápido num acordo. Ignoram, assim, a consciência política dos que não aceitam trocar por um prato lentilhas aquilo que outros conseguiram com décadas de padecimento e sacrifícios.

Não há greves cómodas. Não há greves com resultados se não forem para doer. Aquela greve, como outras tantas lutas recentes, poderia ter ido mais além. A chave do sucesso estava nos conselhos de turma do 12.º ano. Mas claudicámos antes.

Recordemos o que se "ganhou", com ganhou entre aspas.

A direcção de turma passou a estar incluída na componente lectiva. Mas era lá que estava antes! Passou para 100 minutos. Mas antes dos 90 que valia na altura, estava em 120! E que ganho objectivo resultou para os horários disponíveis, se a direcção de turma passou a poder ser atribuída no quadro dos 100 minutos previstos para apoio pedagógico? Não ficou anulado o efeito sobre a potencial recuperação de horários disponíveis?

Ganhou-se o limite de 60 quilómetros para a mobilidade exigível aos vinculados, depois de se ter perdido uma estabilidade com mais de meio século. Mas é isso que já existia para todos os funcionários públicos! E 120 quilómetros de deslocação são aceitáveis para o dia-a-dia de quem trabalha?

E os contratados, com vidas de mobilidade permanente? É decente, sequer concebível á luz das leis do trabalho, terem contratos sucessivos, durante 20 anos, com o mesmo patrão, que despoticamente lhes recusa estabilidade de emprego?

Quando o Papa proclama, em boa hora, que não há mães solteiras, mas tão-só mães, não foi ainda que se gritou que não há professores de primeira e professores de segunda, mas tão só professores. Caímos na armadilha de calar as aspirações legítimas de uns com o retrocesso das aquisições de outros, contentes por termos evitado o vandalismo maior que o Governo projectava sobre eles.

Professores

O que este Governo mudou no sistema de ensino português terá consequências cujo alcance não está a ser percebido pela maioria dos portugueses. Mas há um universo, o dos professores, que se assume como espectador num processo em que é actor. Por omissão, concedo. Com gradientes diversos de responsabilidade, volto a conceder. Mas com o ónus global de não dizer não. Um não veemente quanto necessário para pôr cobro aos dislates de uma política que nos reconduz ao passado e nos recusa o futuro. A crise financeira e económica não justifica o pacifismo reinante face à crise da democracia. Os sindicatos, as associações profissionais, os directores de escola e os professores, pese embora o que têm feito, o que dizem e escrevem, acabam por ser espectadores num processo em que, historicamente, serão julgados como actores. Actores de uma tolerância malquista, que vai poupando a besta que não os poupa. A todos, valeria uma boa reflexão sobre as palavras sábias de Sun Tzu: "... Se conheces o inimigo e te conheces a ti mesmo, não precisas temer o resultado de cem batalhas. Se te conheces mas não conheces o inimigo, por cada vitória sofrerás uma derrota. Se não te conheces nem a ti próprio nem ao inimigo, perderás todas as batalhas. ...".

A arrogância, o ódio aos professores, a ignorância sobre a realidade do sistema educativo e das escolas e a impreparação política e técnica são os eixos identificadores daquilo que poderemos designar por bloco central de governo da Educação da última década. Se apelarmos à memória, salta à vista a convergência ideológica entre Maria de Lurdes Rodrigues e Nuno Crato, relativamente ao papel dos professores. Uma ou outra divergência quanto a processos não apaga o essencial. Do outro lado da barricada, a classe dos professores não interiorizou, enquanto tal, a dimensão política da sua profissão. E, em momentos vitais das lutas a que tem ido, soçobrou por isso.

A distorção nas representações sobre as condições de exercício da profissão docente, ardilosamente passada pelo Governo para a sociedade em geral, atingiu o limite do suportável e ameaça hoje a própria integridade profissional dos professores, que não se têm afirmado suficientemente vigorosos para destruir estereótipos desvalorizantes. Com tristeza o digo, mas a classe dos professores manifesta-se cada vez mais como uma classe de dependências. E quem assim se deixa aculturar, dificilmente compreenderá o valor da independência e aceitará pagar o seu custo.

É neste contexto que devemos olhar para os concursos de recrutamento e mobilidade e para a Prova de Avaliação de Conhecimentos e Capacidades.

Os concursos de professores tornaram-se coreografias sinistras, danças macabras de lugares para despedir docentes. É isso que está em causa. Não as reais necessidades das escolas, muito menos as do país vindouro. Navegar por entre a teia kafkiana da legislação aplicável aos concursos é um desesperante exercício de resistência. Só legisladores mentalmente insanos e socialmente perversos a podem ter concebido, acrescentando sempre uma nova injustiça à anteriormente perpetrada.

A PACC, criada por Maria de Lurdes Rodrigues, importa não esquecer, e então fortemente contestada pelo PSD, importa recordar, não é coisa de alguns. É coisa de todos. Enquanto chamarmos básica, ridícula, elementar, insultuosa, apatetada, desadequada, absurda, a uma prova que é tudo isso, não nos ocupamos de uma política, que vem de longe, que a utiliza para descredibilizar os docentes da escola pública e para os apontar como responsáveis pela degradação da Educação. A todos aqueles vocábulos há que acrescentar a palavra que falta para qualificar um e outro instrumento: violência. É o que os concursos e a prova são: uma violência. Dizem os dicionários que a violência é a qualidade de tudo aquilo que opera com ímpeto, que se exerce com força, que se opõe ao direito ou à justiça. Porque há vários tipos de força, o conceito de violência é, de forma mais lata, aplicado comummente a todo o tipo de comportamento que, com intencionalidade, agride ou intimida. Não só do ponto de vista físico, mas, também, do ponto de vista psíquico e moral. O rompimento abrupto das normas e dos princípios constitutivos da moral social vigente é, no meu entendimento, sempre, uma violência. Quantas vezes mais bárbara que a que se exerce de bastão na mão.

Em 1974 havia apenas 26.000 professores. Desses, apenas 6.000 eram profissionalizados. Em 40 anos de democracia formaram-se e profissionalizaram-se milhares de professores. Antes dos predadores que hoje governam, eram 150.000.

A trave mestra do desenvolvimento da sociedade portuguesa, a Educação, foi liminarmente implodida pelo actual Governo, que rejeitou uma das bandeiras de Abril, a educação para todos. Agora que Abril dobra a esquina dos 40, é urgente que a denominada sociedade civil desperte para o sombrio que mancha a paisagem humana das nossas escolas: preocupantes sinais de violência na relação entre alunos e no seu relacionamento com professores e funcionários; esgotamento físico e psíquico do corpo docente, vergado pelo grotesco burocrático de tarefas inúteis, impostas por políticas despóticas; êxodo precoce dos professores mais experientes; clima de luta insana por uma carreira sem futuro, donde se esvaiu a cooperação e a confiança que cimentava a comunidade humana dos docentes.

Celebrar Abril, adiado para a Educação até um dia, passará, imperiosamente por:

- Gerar um compromisso nacional duradouro entre as forças partidárias quanto às políticas que estruturam o sistema de ensino, despolitizando os serviços técnicos, desburocratizando a vida das escolas e protegendo a administração superior da volatilidade da política.

- Reestruturar a Inspeção-geral da Educação, orientando-a prioritariamente para a supervisão pedagógica organizada em áreas científicas e colocando-a sob dupla tutela (Assembleia da República e Governo).

- Subtrair o financiamento básico do ensino obrigatório à lógica casuística de qualquer Governo, para que a escola inclusiva, para todos, não seja presa fácil de derivas de austeridades de ocasião.

- Adoptar a verdadeira e sempre adiada autonomia das escolas, como alternativa à municipalização do ensino, vertente falsa da falácia da desconcentração do poder.

- Reverter a política de privatização da escola pública, separando claramente o que é público do que é privado e clarificando os modelos de financiamento: financiamento público para o que é público, financiamento privado para o que é privado.

- Reorganizar globalmente os planos de estudo e os programas disciplinares, em sede de estrutura profissionalizada e especializada em desenvolvimento curricular, dando-lhes coerência, recuperando a dignidade das humanidades e das expressões e adequando-os, em extensão, ao que a psicologia do desenvolvimento postula como limites.

- Devolver dignidade e autoridade aos professores, devolver-lhes a confiança do Estado e devolver-lhes espaço e tempo para a indispensável reflexão sobre a prática profissional e sobre o ensino que professam.

- Devolver às escolas a democraticidade perdida, adequando a natureza dos órgãos às realidades sociais existentes e abandonando a lógica concentradora do poder num só órgão.

- Reverter a solução dos mega-agrupamentos, que provocaram custos humanos inaceitáveis para alunos, famílias, professores e funcionários.

Termino retomando um pequeno texto que enderecei aos professores no dia em que iniciaram a greve a que antes me referi.

Se eu fosse músico, apanhava todos os sons do riso das crianças, mais os gritos de raiva que abalam a injustiça, o bater do coração que finalmente alcança, juntava tudo num cantar de Esperança e, neste dia, enchia com ele o ar à tua volta.

Mas, sabes bem, eu sou apenas mais um...

Podia ser pintor e agarrar o Sol, o Mar e o Voo, meter-lhes dentro a alma da tua Escola, marcá-los com o brilho dum olhar - claro como gelo ao sol do despertar, quente como fogo a arder no peito de quem luta - e encher com as suas cores o espaço do teu mundo.

Mas, sabes bem, eu sou apenas mais um...

Se eu fosse escritor, sim! Inventava as palavras que dizem a Justiça por que anseias - desde a raiz da Vida até ao fim do Tempo -, as mesmas palavras que dizem Liberdade e Razão, e com essas palavras que inventasse, fazia da Vida que constróis o teu Poema.

Mas, sabes bem, eu sou apenas mais um...

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