Cinema: "Sniper Americano"
Nº 1731 - Primavera 2015
Publicado em Cultura por: Dulce Rebelo (autor)
Realizador: Clint Eastwood
Intérpretes: Bradley Cooper, Sienna Miller, Jake McDorman.
Música: Clint Eastwood
( E.U.A. 2015)
Algumas pessoas, incomodadas com o olhar crítico de Clint Eastwood, aconselharam-no a reformar-se. O realizador respondeu-lhes evocando o exemplo do grande cineasta português Manoel de Oliveira (1) que, com idade avançada, tem produzido obras magníficas. Por isso ele também ia continuar a fazer filmes.
Assim, em plena forma aos 84 anos, Clint Eastwood consagrou o seu último filme a Chris Kile (1972 - 2013) um atirador de elite das forças especiais da marinha americana que durante as suas missões no Iraque, entre 2004 e 2009, matou 255 pessoas.
Reconhecido no seu país por este "feito", ficou designado por "A Lenda"
Esta personagem real era um simples rapaz do campo que vivia numa grande quinta e a quem o pai procurava incutir virtudes "masculinas". O jovem Chris era habilidoso no "rodeo" e tinha o sonho de incarnar o mito do cowboy americano.
Esta América, ligada ao folclore, tem tendência a desaparecer para se focar nos conflitos do Médio Oriente.
Bradley Cooper, que para interpretar o personagem teve de ganhar quilos e delinear bem os músculos, insere-se na perfeição no protagonista. C. Kile tem consciência de que é terrível matar pessoas e debate-se com algumas dúvidas, mas aniquilar o inimigo torna-se numa obsessão. Está ali para defender os seus companheiros e procura esmerar-se nesta sua função. Com o olho grudado à lente da arma, visa o alvo, calcula a trajectória do projéctil e dispara. Atirador de elite é capaz de acertar num alvo a dois quilómetros de distância.
Quando regressa a casa é incapaz de viver a tranquilidade da vida de família. Distancia-se da sua mulher Taya a quem diz amar, não compreende os desejos dos seus filhos que querem atraí-lo para as suas brincadeiras.
Completamente bloqueado num clima de paz, vazio, a sua cabeça está cheia de estrondos de metralha, dos estilhaços e da morte e só se sente bem entre os veteranos e com armas na mão.
Uma "lenda", este homem que abandona o amor da família para em paragens longínquas mergulhar na violência da guerra, provocando a morte?
Um "herói", este homem que passou o seu tempo a matar os seus semelhantes?
Clint Easttwood, usando uma música discreta para sublinhar o drama íntimo da personagem, mantendo o seu estilo clássico, continua a interrogar a sociedade americana.
Além do papel principal desempenhado por Bradley Cooper de forma magistral, há que sublinhar a actuação de Sienna Miller, muito convincente na personagem de Taya que com muito amor e humanidade procura chamar à razão o seu marido. Mas C. Kyle é um ser desumanizado pela guerra.
Nos E.U.A., o filme é campeão de bilheteira, apesar de prognósticos do contrário.
