Cinema: "Sono de Inverno"
Nº 1731 - Primavera 2015
Publicado em Cultura por: Dulce Rebelo (autor)
Realizador: Nuri Bilge Ceylan
Argumento: Nuri Bilge Ceylan e Ebru Ceylan
Intérpretes: Haluc Bilginer, Melisa Sözen, Serhat Mustafá Kiliç, Demet Akbag, Ayberk Pecikan, Nejat Isler
(Turquia, 2014)
O realizador, que já nos deslumbrara com o drama policial em câmara lenta, "Era uma vez na Anatólia", situou a sua história em cenários vastíssimos e deslumbrantes cobertos de neve, onde sobressaem rochedos e grutas arqueológicas.
Aydin ( Haluk Bilginer) é um actor reformado, proprietário abastado de terrenos e dono dum pequeno hotel turístico, que explora com a sua jovem esposa Nihal (a bela actriz Melisa Sözen), numa aldeia longínqua da Capadócia.
Com eles vive a irmã do actor, de nome Neela (Demet Akbag), mulher divorciada, amarga e desiludida.
Há um fosso entre o rico proprietário, alheado da realidade, e a pobreza circundante, bem evidente na família do imã (Serhat Mustafá Kiliç), um dos inquilinos de Aydin e que, por não poder pagar a renda, é constantemente ameaçado de despejo. O imã diante do proprietário desfaz-se em mesuras para poder negociar o atraso da renda, embora o injurie pelas costas. Aydin, receoso de perder a esposa, pois está convencido de que ela tem um caso extra conjugal, desabafa as suas mágoas nas colunas dum jornal local, só lido pela sua irmã Neela, que frontalmente lhe revela que o que ele escreve é uma nulidade, sem qualquer interesse para a população.
O cineasta Ceylan que se inspira em Tchecov, escritor da densidade das emoções, procura mostrar que os conflitos familiares tal como os da comunidade resultam do confronto entre as duas culturas da Turquia, a da elite que frequentou a escola, e absorveu a cultura do Ocidente, e a cultura tradicional com os seus códigos próprios e fortemente enraizados na população.
Aydin, dono e senhor duma terra de ninguém, onde a espantosa paisagem nevada parece submergir o homem, é um intelectual em decadência, incapaz de comunicação e de compreender a realidade, desprezado por todos, inclusive pela própria irmã e pela jovem esposa que deixou de amá-lo.
Sons e imagens povoam o filme: as vastas áreas nevadas do exterior, onde se ouve o silêncio, e a câmara percorre lentamente, os interiores fechados, onde crepita a lenha na lareira e se ouve o estalido dum galho, o ruido dum objecto que rola no chão. Os rostos das mulheres herméticos, iluminados pela luz do fogo, ou o rosto de Nihal, mudo e pasmado, diante do rosto de Ysmael (Nejat Ysler), irmão do imã, ex-presidiário e desempregado, que a fita com desprezo quando ela os visita para lhes oferecer dinheiro. A tensão de ambos frente a frente, onde os olhos expressam as mais fortes emoções, é surpreendente nesta cena decisiva.
Ceylan critica uma Turquia apática, indiferente à realidade circundante, envolvida em conflitos internos que a impedem de mudar.
O filme recebeu os seguintes prémios: Prémio Palma de Ouro do Festival de Cinema de Cannes e Prémio PRESCI do Festival de Cinema de Cannes.
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Foi uma dolorosa surpresa o falecimento de Manoel de Oliveira ocorrido em 2 de Abril de 2015 aos 106 anos.
Cineasta talentoso e único de repercussão internacional,
que durante anos foi incompreendido no seu país, o seu desaparecimento é motivo de desgosto profundo para todos os que admiram o seu génio inventivo, a integridade do seu trabalho e o apreciavam como homem, como cidadão, como autor de filmes de imensa qualidade. Imediatamente apareceram notícias em jornais de todo o mundo e nas televisões e foram muitas as evocações e declarações de realizadores produtores, actores e actrizes que com ele conviveram e filmaram, demonstrando o alto apreço pela sua obra e pela sua personalidade.
O cinema está de luto. Manoel de Oliveira, cuja vida se confunde com a própria história da arte cinematográfica, deixou um legado fílmico riquíssimo que urge conhecer e divulgar para benefício da cultura portuguesa.
