Nota de Leitura: Seiscentas páginas dedicadas a três seareiros

Nº 1731 - Primavera 2015
Publicado em Cultura por: J. C. (autor)

O Centro de Filosofia da Universidade de Lisboa lançou recentemente um livro com as Actas do Colóquio que promoveu na Faculdade de Letras de Lisboa sobre Proença, Cortesão, Sérgio e o Grupo Seara Nova. Tratou-se de uma muito séria iniciativa académica e científica no decurso da qual trinta e oito professores universitários, e outros especialistas, procederam a uma ampla reflexão crítica a propósito da acção cívica daqueles três seareiros e do seu decisivo contributo para que a Seara Nova rapidamente se impusesse como uma revista de pensamento, de cultura e de intervenção política.

A revista continua a ser publicada trimestralmente tendo atingido já as 1730 edições desde que foi criada em 1921, tentando o seu Conselho Redactorial manter a linha de continuidade que norteou o núcleo de homens de boa consciência e vontade enérgica. A propósito, informamos que todos estes números foram digitalizados através do incansável esforço do Prof. Doutor Crespo de Andrade, especialista em Ideias Políticas, e da sua equipa da Universidade Nova de Lisboa que procederam a um exaustivo trabalho de relevância para todos quantos pretendam estudar a evolução da revista e o pensamento expresso, em múltiplos domínios, por tantos vultos da intelectualidade nacional e internacional.

O fecundo Encontro foi organizado pelos Professores Doutores Amon Pinho, António Pedro Mesquita e Romana Valente Pinho, investigadores das linhas de pesquisa Pensamento Português e História da Filosofia. Na altura em que se realizou o Colóquio o Centro de Filosofia era dirigido pelo Professor Doutor Leonel Ribeiro dos Santos.

O Prof. Doutor António Reis, ao referir-se àqueles três intelectuais que marcaram indelevelmente a cultura portuguesa, recorda no prefácio do referido livro: Nascidos na década de oitenta do século XIX, mas afirmando-se na vida pública, sobretudo a partir da segunda década do século XX, Proença, Sérgio e Cortesão, pelo modo como aliam a produção intelectual com a intervenção cívica e política, bem como pela intensidade dos laços afectivos que os unem, evocam irresistivelmente a famosa Geração de Setenta de Antero, Oliveira Martins e Eça, apesar de tudo o que desta os separa nos subsequentes percursos de vida e orientações ideológicas.

Sobre as intervenções produzidas no decurso da iniciativa salienta, ainda: Na diversidade das temáticas abordadas em torno de cada autor, sempre com inegável qualidade e profundidade, na originalidade de algumas das análises empreendidas, este Colóquio tornou-se num marco que honra os seus participantes e organizadores e não deixará de estimular novos contributos e investigações.

O volume, com seiscentas páginas, agora posto à disposição do público, subdivide-se em quatro capítulos: I - O Grupo Seara Nova; II - Raul Proença; III - António Sérgio; IV - Jaime Cortesão.

Para se aquilatar do nível que o Colóquio atingiu referimos os títulos das teses e os seus respectivos autores. Assim, no primeiro capítulo foram apresentados onze trabalhos: O Grupo Seara Nova Em Seus Ideais e Propósitos Fundadores, por Amon Pinho; A "Renascença Portuguesa" e a "Seara Nova", por Pinharanda Gomes; Leonardo Coimbra e a Seara Nova, por Manuel Cândido Pimentel; Depois da Renascença Gráfica, por Joaquim Domingues; Entre os Movimentos da Renascença Portuguesa e da Seara Nova - da Lusitanidade à Lusofonia: O Caso de Agostinho da Silva, por Renato Epifânio; Uma Efémera União de "Almas Republicanas", por José Manuel Quintas; Sobre a Revista Homens Livres. O Que é a Liberdade dos Livres, por Rui Lopo; O Grupo Seara Nova, a Crise Nacional e a "Ilusão Sobre os Governos de Técnicos". Alguns Aspectos (1921-1924), por Ernesto Castro Leal; As Prespectivas Educativas Abertas Por Faria de Vasconcelos na Seara Nova, por Manuel Ferreira Patrício; A Seara Nova Na Actualidade, pelo nosso saudoso director, Ulpiano Nascimento.

No segundo capítulo, dez teses: Raul Proença: Republicano e Panfletário, por Daniel Pires; A Matriz Socialista Liberal no Pensamento Político de Raul Proença, por António Pedro Mesquita; A Ideia de Democracia em Raul Proença e António Sérgio, por António Braz Teixeira; Ordem e Ditadura no Pensamento de Raul Proença, por Luís Bigotte Chorão; Os Valores em Raul Proença, por Mário Barroso; O Heroísmo Trágico em Proença Como Superação do Positivismo, por Pedro Baptista; Raul Proença: A Moral Epicurista e o Homem de Elite, por Celeste Natário; A Leitura de Raul Proença do "Eterno Retorno" em Nietzshe, por Paulo Borges; E7/2060, 2061, 2062, por Luís Prista e A Enfermidade Que Abateu Raul Proença, por Anita Vilar.

No tocante ao capítulo dedicado a António Sérgio: António Sérgio, a Primeira Seara Nova e a República Moderna. Algumas Notas, por Guilherme d'Oliveira Martins; António Sérgio e os Nacionalismos, por Sérgio Campos Matos; A Doutrinação Económica em António Sérgio - Algumas Notas de Leitura, por António Almodovar; O Idealismo de António Sérgio: Algumas Considerações Cartesiano-Espisonistas, por Romana Valente Pinho; A Percepção Em António Sérgio: Do Sensível Ao Inteligível, por Luís Lóia; "Uma Filosofia para as Alforrecas": Sérgio Crítico de Bergson, por Magda Costa Carvalho; Inspirações Para Um Ensaio: O Considerações Sobre o Problema da Cultura, por João Príncipe; Sérgio e Einstein: Aspectos de Uma Empatia Intelectual, por João Maria de Freitas Branco.

Finalmente sobre Jaime Cortesão: Jaime Cortesão - Pensar e Cantar "A Vida Intensiva e Expansiva" (Entre Guyau e Voz Que Falava Baixo a S. Francisco), por José Carlos Seabra Pereira; Do Mito da Águia ao Simbolismo da Seara (Modos e Processos da Poesia de Jaime Cortesão), por António Cândido Franco; Entre História e Poesia, Entre Pascoaes e Pessoa: Jaime Cortesão nos Inquéritos Literários de 1912 e de 1920, por Duarte Drumond Braga; Jaime Cortesão Contista, por Miguel Real; O Teatro de Jaime Cortesão: História, Cultura, Política, Literatura. Uma Reflexão Pessoal, por Duarte Ivo Cruz; A "Parábola Franciscana" de Jaime Cortesão, por Maria de Lourdes Sirgado Ganho; O Civismo Político nos Homens da Seara Nova: O Caso de Jaime Cortesão, por Carlos Leone; António Sérgio, Jaime Cortesão e a Necessidade Seareira da Concepção de uma História de Portugal, por Joaquim Romero Magalhães e A Obra de Jaime Cortesão no Contexto da Historiografia Portuguesa do Seu Tempo, por José Manuel Garcia.

O livro também contempla um Anexo intitulado: Repercussão do Colóquio nas Páginas da (Actual) Seara Nova, onde se insere um texto da autoria da Redacção da Revista e uma tese da Prof. Romana Valente Pinho sobre Idealismo e Neokantismo no Pensamento de António Sérgio e uma outra tese de Manuel Ferreira Patrício, A Seara Nova no Itinerário Pedagógico de Faria de Vasconcelos.

Numa concorrida e solene cerimónia na Faculdade de Letras, o Prof. Doutor António Ventura, na apresentação do livro proferiu uma conferência onde explanou o seu pensamento sobre a Revista e sobre o papel histórico desempenhado em Portugal por Proença, Cortesão, Sérgio e o Grupo Seara Nova.

 


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