Um país e um povo à espera
Nº 1731 - Primavera 2015
Publicado em Grécia por: Ana Goulart (autor)
A Grécia vive uma crise humanitária. Visível, patente, expressa por pessoas, cuja vida e sonhos se desmoronaram, na voracidade das políticas de austeridade, impostas por FMI/BCE/CE. Há quem diga que a República Helénica e o povo helénico foram sujeitos a uma espécie de "ensaio laboratorial" do neoliberalismo, do "capitalismo sem freio" - com recurso à expressão do Professor António José Avelãs Nunes -, tornada possível por o governo ser de coligação entre Nova Democracia e PASOK, partidos comprometidos com os ditames da União Europeia e do Eurogrupo. Partidos que o povo grego assim identifica e por isso votou significativamente num partido recente, o Syriza, descrito pelos media portugueses (e não só) como de "esquerda radical", embora muitos gregos não o entendam assim e haja mesmo quem o coloque próximo da social-democracia.
A crise humanitária levou o Syriza ao governo, com o apoio da esperança que reside em cada um dos que sofrem as consequências do memorando assinado em maio de 2010, com FMI/BCE/CE, conhecido como "memorando da troika". Uma esperança que, no início de Abril de 2015, se manteve e até se reforçou. No entanto, a esperança não é eterna e mesmo que se compreenda que não seja possível resolver tudo de um dia para o outro, nem sempre se identifica a Zona Euro como o espartilho que obriga a que nada mude. Um espartilho com o qual é preciso romper, como insiste Seraphim Seferiadis, professor de Ciência Política, mas que para já não consta da agenda do governo do Syriza que continua a acreditar ser possível chegar a um acordo com os "parceiros europeus". O povo grego espera.
Com uma taxa oficial de desemprego de 26,3%, a Grécia vive "uma crise humanitária", expressão utilizada pelo atual governo grego, que a generalidade do povo grego confirma e que qualquer visitante do país reconhece; nas ruas de Atenas transformadas na "casa" de centenas de sem-abrigo, nas mulheres idosas que vendem pacotinhos de lenços de papel a troco de 50 cêntimos, nos mendigos que esmolam não apenas à portas das igrejas, nos quarteirões inteiros de lojas fechadas.
"Os 26,3% de desemprego são os dados oficiais. A estes há que acrescentar mais seis por cento, que correspondem a trabalhadores que por terem empregos precários não são contabilizados pelos números oficiais", explica Giorgios Georgakopoulos, responsável pelo Departamento de Economia da Confederação Geral dos Trabalhadores da Grécia (GSEE). Em 2009, a taxa de desemprego situava-se nos 9,5%.
"Quando em 2010 [3 de Maio], foi assinado o memorando com o Fundo Monetário Internacional (FMI), Banco Central Europeu (BCE) e Comissão Europeia (CE), com a troika, a hecatombe aconteceu. As políticas de austeridade e o aumento de impostos resultaram no desemprego de 32% dos trabalhadores gregos; no encerramento de 35% do comércio de rua", indica o dirigente da GSEE, a central sindical que integra os sindicatos dos trabalhadores do sector privado.
Os números oficiais indicam que 1,3 milhões de trabalhadores gregos estão sem emprego; a GSEE contabiliza mais de 1,5 milhões de pessoas sem posto de trabalho. E deste 1,5 milhões de pessoas, menos de 500 mil têm apoio social do Estado. O subsídio de desemprego é igual para todos, independentemente do valor do salário que auferiam na altura do despedimento - 360 euros por mês, pagos durante um ano. "E depois de passado um ano?". "Nada. Para a maioria nada. Nalgumas situações de desemprego de longa duração, é possível receber mais dois meses, de um apoio social de 200 euros por mês. Depois disso, nada", esclarece Giogios Georgakopoulos.
Nas ruas da zona central de Atenas, as esquinas estão todas ocupadas por quiosques; em bancas mais ou menos improvisadas vende-se fruta fresca ou seca, embalada em pequenos pacotinhos, cujos preços variam entre um e dois euros e meio; há ainda quem ofereça música tradicional aos que passam, esperando que estes lhe retribuam com alguma moeda. O que ao visitante pode surgir como pitoresco, é afinal a necessidade de sobrevivência de um povo europeu sujeito às mais severas políticas de austeridade impostas pela troika, que impõem a 70% dos que por sua causa ficaram sem emprego viverem sem qualquer apoio social do Estado, alimentando-se e vestindo-se com as escassas ajudas da Igreja Ortodoxa Grega, dos municípios e de organizações da sociedade civil.
"É preciso emprego"
Perto da emblemática Praça Syntagma, situa-se um dos dois edifícios que o Ministério das Finanças ocupa em Atenas. Sobretudo trabalhadores da limpeza urbana, maioritariamente trabalhadoras, ocuparam-no. Um protesto que relembra o despedimento de quatro mil trabalhadores da administração pública considerado ilegal pelo Tribunal Constitucional grego e a promessa do Syriza, partido agora no governo, de imediatamente após ser eleito reintegrar estes trabalhadores, o que, passados três meses, ainda não aconteceu. A sua reivindicação é apenas uma: "queremos os nossos empregos". O que não é de somenos, no atual quadro do desemprego na República Helénica.
Aliás, quando se pergunta às centrais sindicais - GSEE e ADEDY (Confederação dos Sindicatos dos Trabalhadores da Administração Pública) - qual a prioridade política, respondem unanimemente: "é preciso criar emprego".
Antonis Antonakos, vice-presidente da Comissão Executiva da ADEDY, recorda que em quatro anos 10 mil funcionários públicos com contrato efectivo foram despedidos e um número próximo dos cinco mil contratados não viram os contratos ser renovados ou foram despedidos. Só o encerramento da televisão pública (ERT) deixou no desemprego cerca de dois mil trabalhadores - "destes nem 10% conseguiu um novo emprego" - e que nas polícias municipais quatro mil trabalhadores ficaram sem posto de trabalho. Outros sectores afectados pela liquidação de emprego foram as escolas profissionais superiores e a Segurança Social, resultado das várias mudanças impostas por FMI/BCE/CE.
"Desde o memorando que por cada cinco trabalhadores que se reformam na administração pública é possível contratar apenas um", diz o vice-presidente da Comissão Executiva da ADEDY. O anterior governo, formado pela Nova Democracia (partido de direita congénere do PSD) e o PASOK (partido socialista congénere do PS), anunciou em vésperas de eleições a criação de 15 mil empregos na administração pública.
A ADEDY aguarda o desfecho das negociações com os credores internacionais, para confrontar o novo governo com a necessidade de retomar as contratações na administração pública. Em causa está igualmente a qualidade dos serviços públicos. "Na Grécia, os serviços públicos nunca foram bons. Mas com a crise e as políticas de austeridade a qualidade foi diminuindo, o que em grande medida se deve ao facto de o governo ter começado a confrontar os trabalhadores, sujeitando-os a uma forte pressão psicológica. Hoje, faltam condições de trabalho e faltam trabalhadores. A qualidade no sector da saúde foi das mais atingidas, porque faltam trabalhadores", afirma Antonis Antonakos.
Não é apenas o desemprego a explicar a situação das muitas centenas de homens e mulheres que vivem na rua, dos que se viram obrigados a voltar para casa da família, dos que passaram a viver em casas de hóspedes, dos que sobrevivem com a ajuda de familiares para satisfazerem necessidades básicas, para acederem a cuidados médicos e comprarem medicamentos. Os baixos salários impedem muitos trabalhadores gregos de conseguir uma vida digna; por falta de dinheiro fica-se sem fornecimento de energia eléctrica ou sem a casa, cuja renda ou empréstimo ao banco deixam de poder ser pagos.
Em 2011, a GSEE chegou a acordo com o governo para que o salário mínimo fosse elevado para os 751 euros, para todos os trabalhadores. Na altura, um trabalhador com menos de 24 anos recebia 490 euros de salário mínimo, se tivesse mais de 24 naos recebia 590 euros por mês. "Dois meses depois de termos firmado o acordo, o governo disse «não». Com isto, em muitos sectores e empresas, temos trabalhadores que há anos não vêem os seus salários sofrer qualquer alteração. Temos muitos trabalhadores que são pobres", denuncia o dirigente da GSEE.
Quanto aos trabalhadores da administração pública, o memorando da troika impôs que lhes fossem retirados os 13.º e 14.º mês (subsídios de férias e de Natal) e os poucos novos contratos têm valores salariais inferiores aos de antes de 2011. "As políticas de austeridade impuseram também um brutal aumento de impostos que reduziu os salários em 40%. Os impostos são tão elevados que os salários ficam quase reduzidos a metade. Por outro lado, as progressões nas carreiras estão congeladas", aponta Antonis Atonakos, dirigente da ADEDY, que, pessoalmente, não crê terem sido as privatizações iniciadas em 1999 a fazerem crescer o desemprego - "não há dados que o indiquem, embora a privatização da companhia aérea tenha lançado trabalhadores no desemprego" -, mas a crise.
"Governado pelo povo"
A crise humanitária de que fala o governo do Syriza é visível e tem rosto: Ionnis, Andreas, Antigoni, Mikalis, Baressa são pessoas cuja vida se viu transformada em dependência: da solidariedade, mas também da caridade que, por vezes se misturam e confundem, porque há vidas que reclamam urgência, para o poderem ser.
Antonis Atonakos é também professor de Matemática, no ensino secundário, e faz uma afirmação que é confirmável: "Os gregos fazem o que pensam e não o que a lei diz. Um escritor grego distingue os povos entre os que são governados pelo povo e os que são governados pela lei. Os gregos acreditam e querem ser governados pelo povo". Tendo em conta que também à Grécia (a da época clássica) se fica a dever o conceito de democracia, a afirmação do dirigente da ADEDY leva a compreender que mesmo tendo a União Europeia e o governo grego determinado a proibição de fumar em espaços fechados e de servir o azeite em garrafas sem rótulos, em muitos cafés e restaurantes os fumadores estejam misturados com os que não fumam - no Parlamento, uma funcionária passa de cigarro aceso - e o azeite venha no galheteiro que, há muito, muito tempo, conquistou o seu lugar à mesa.
O dirigente da GSEE, Giorgios Georgakopoulos, alude à injusta repartição da riqueza no país, com "bancos e grandes industriais como os armadores" a beneficiarem de uma carga fiscal muito reduzida quando comparada com aquela a que estão sujeitos os trabalhadores, esclarecendo que "um trabalhador com contrato não tem como escapar ao pagamento de impostos". Um esclarecimento que ajuda a desmitificar a ideia de que o povo grego não paga impostos; a dívida fiscal é elevada e há efectivamente evasão fiscal. "Pequenos comerciantes, cooperativas que se pagassem impostos não poderiam continuar a sua actividade. Porém, é a banca e as grandes indústrias quem menos cumpre".
"O governo e a União Europeia decidiram que a crise do capitalismo tinha de ser paga pelos trabalhadores e não pelo capital. O país já estava doente e os «medicamentos» que os «médicos» lhe receitaram serviram apenas para piorar a doença", remata Georgios Georgakopoulos. E o povo grego quando disso se apercebeu optou pela democracia e não pelas leis que lhe chegavam impostas de fora. Até porque, "os gregos são um povo que pensa com os sentimentos", diz o dirigente da GSEE. E o sentir generalizado era o de estar a ser vítima de políticas que o agrediam, que o impediam de viver dignamente; políticas que levaram à quase total erosão da classe média, empobrecendo-a e transformando a República Helénica num país dividido entre ricos (alguns e muito ricos) e pobres (muitos e muito pobres).
O "grande fosso social" de que fala Chara Tziouvara, pediatra e voluntária dos Médicos do Mundo, organização que, em 2012, abriu um espaço em Perama, cidade onde 90% da população está sem emprego e desta percentagem a maioria sem qualquer apoio social do Estado.
Entre a esperança e a espera
Nas legislativas de 2012, o então recém-criado Syriza, obteve 16% dos votos expressos pelos eleitores gregos, o que lhe garantiu a eleição de 50 deputados; em Janeiro de 2015, recolheu 36,3% dos votos e elegeu 149 deputados, ficando a apenas dois deputados de conseguir a maioria absoluta.
Os até então dois maiores partidos gregos - Nova Democracia e PASOK - sofreram assinaláveis perdas em votos e mandatos. Estes dois partidos governaram em coligação desde 2012 até às legislativas de 2015 e a larga maioria do povo grego identifica-os como responsáveis pelas políticas de austeridade, pelo seu empobrecimento, pelas dificuldades com que vivem nos dias que correm. O que igualmente ajuda a compreender a vitória do Syriza e a derrota do "centrão", utilizando uma expressão muito mais portuguesa do que grega.
Os sindicatos tiveram um papel essencial na denuncia das políticas de austeridade, organizando e convocando sucessivos protestos que mobilizaram centenas de milhar de trabalhadores. Em apenas dois anos, registaram-se vinte greves gerais. A Praça Syntagma, onde fica o Parlamento grego, tornou-se conhecida no mundo pelas enchentes de manifestantes que, quase mensalmente, nela se concentraram exigindo o fim da austeridade.
Porém, desde as legislativas de janeiro, os protestos quase desapareceram - em Atenas, apenas os trabalhadores da administração pública ilegalmente despedidos mantêm ocupado um edifício do Ministério das Finanças, exigindo a sua reintegração, e alguns alunos, apelidados de "anarquistas", ocupam a Universidade velha, exigindo a libertação de presos que afirmam estarem detidos por motivos políticos -, embora praticamente nada se tenha alterado na situação económica e social grega. "Vêem-se menos polícias nas ruas, desde que o Syriza está no governo" é a resposta recebida para a pergunta "já se notam alterações na realidade e quotidiano do povo grego?".
"No passado, houve grandes e importantes lutas que serviram para devolver a esperança ao povo. Muitos trabalhadores votaram no Syriza e mantêm a esperança. Agora acreditam no resultado das eleições e não em manifestações. Temos um novo governo e é preciso ver como as coisas vão correr, o que vai acontecer", informa Giorgios Georgakopoulos, dirigente da GSEE. "Usamos as manifestações para demonstrar o nosso sentimento, do mesmo modo que não as realizamos para demonstrar o que sentimos", reforça o vice-presidente da Comissão Executiva da ADEDY. Recorrendo a Homero e à sua "Odisseia", Antonis Antonakos explica que os protestos podem ser desaconselháveis, neste momento: "Tal como Odisseu, o capitão tem de encontrar o caminho, tem de estar focado na realidade. Se ouvir "canções" ou se apenas ouvir estas pode ir contra as rochas e fazer naufragar o barco".
Nos primeiros dias de Abril, os jornais gregos deram a conhecer uma sondagem que indicava que o Syriza recolhia quase dois terços das preferências dos eleitores. Se nessa altura, se realizassem eleições legislativas, o Syriza, partido anti-austeridade, vencia com a maioria absoluta que lhe faltou em janeiro e o obrigou a coligar-se com o Partido dos Gregos Independentes (ANEL), partido eurocéptico e incluído no campo da direita.
Os dias e a vida difícil da generalidade do povo grego fê-lo depositar a esperança no Syriza. Um capital de esperança enorme que o segundo vice-presidente do Parlamento helénico e deputado do Syriza reconhece e afirma ser determinação do partido corresponder-lhe. Porém, acredita que estar na Zona Euro não sendo a melhor solução "é a solução" e defende que o problema da Grécia não é económico, é político: "os parceiros europeus não querem que a Grécia seja exemplo", reforça Yiannis Balafas.
Ainda munido de esperança, o povo grego espera. O governo também espera que dos "parceiros europeus" venha um sinal positivo e insiste em que não fará mais despedimentos, mais cortes nos salários e nas pensões, enquanto deixa cair a recusa de novas privatizações.
Vencido o medo, como insistentemente sublinha o partido maioritário no governo, resta saber qual a dimensão da capacidade de resistência da esperança. Resta pois, esperar. Esperar inclusive que a esperança não se desvirtue e não se transfira para o campo político oposto.
