"I need a job"
Nº 1731 - Primavera 2015
Publicado em Grécia por: Ana Goulart (autor)
Chamemos-lhe Ioannnis. Ioannis tinha uma vida. De trabalho. Na construção civil. "A fazer de tudo. Pintava, punha tijolos", diz num inglês quase fácil de entender. Ioannis vivia numa casa. Não a tinha ajudado a construir, mas todos os meses pagava o valor da renda exigida pelo senhorio. Ioannis tinha uma casa a que chamava sua.
Nunca teve um contrato de trabalho, mas trabalho nunca lhe faltou. "Na construção civil", explica. E acrescenta com o orgulho de quem, sem qualquer especialização profissional, usou as mãos para ajudar a construir o complexo olímpico para as Olimpíadas de 2004. Um complexo agora sem qualquer uso (literalmente às moscas), na cidade que inventou os Jogos Olímpicos antigos e modernos. Um complexo que custou ao povo grego milhões de euros.
Por muitos anos, a Ioannis não faltou trabalho. Apresentava-se numa espécie de "praça de jorna" e calhava ser escolhido. Para qualquer trabalho. Por muitos anos, Ioannis conseguiu ser "cooptado" para obras, maiores ou menores, o que lhe permitia ganhar o suficiente para comer, beber, comprar sapatos e abafos, para fazer frente ao frio do Inverno ateniense. E para pagar a tal casa a que chamava sua.
Depois, na "praça de jorna", Ioannis deixou de ser apontado. Não tinha especialização e os pedreiros e soldadores e carpinteiros viraram "pau para toda a obra". Ioannis, grego de gema, deu mais valor à vida do que à poupança. E havia ainda quem precisasse de um pintor para dar um jeito na cozinha, de um "homem de vários saberes" - rudimentares, é certo -, construídos empiricamente na partilha diária de vários saberes das artes de construir civilmente.
Mas um dia, os saberes de Ioannis deixaram de ter qualquer valor. Viraram uma espécie de acção da Torralta. E Ioannnis deixou de ter "valores". Aguentou vários meses de rendas de casa em atraso e de auto-estima em decréscimo. Até ao dia em que a ordem do Tribunal chegou: "Rua da casa a que ousaste chamar de tua!".
Ioannis, agora "homeless" (sem-abrigo) como centenas e centenas de outros na Grécia, juntou o que ainda lhe pertencia. Pouco. Que o resto tinha vendido, para conseguir comer, beber, pagar algumas contas. Deambulou pelas ruas de Atenas à procura de "casa". Por fim, encontrou/escolheu as traseiras de uma igreja ortodoxa datada do século XVI. Ergueu aí o seu "quarto" que deixa, pontualmente, todas as manhãs para "fazer recados". Recados que lhe retornam em poucos euros. Os suficientes para o "freddo expresso", para o pão e para pagar o telemóvel. Sim, o telemóvel.
Ioannis tem telemóvel. E fala ao telemóvel. Perscruta no aparelho resultado da revolução tecnológica (a mesma que abriu fosso nas desigualdades culturais e na aculturação de tantos povos, incluindo o português) um eventual biscate. Porque quando se pergunta a Ioannis o que precisa, a resposta em inglês é entendida por qualquer português: "job".
