Perama Onde a crise não se esconde

Nº 1731 - Primavera 2015
Publicado em Grécia por: Ana Goulart (autor), Andreas Vagias (autor)

Passam cinco minutos das nove da manhã quando entramos na Câmara Municipal de Perama. A chuva intensa que intensificou o trânsito e dificultou a travessia dos 15 quilómetros a que a cidade se situa de Atenas, não alargou a mais de cinco minutos de atraso o encontro marcado com o presidente da edilidade Panayotis Karagiannakis. "Somos jornalistas, portuguesa e grego, e viemos a Perama perceber como as políticas de austeridade conseguiram deixar 90% dos habitantes da cidade no desemprego", apresentamo-nos. Começou assim a jornada de trabalho que aqui se escreve.

Perama é banhada pelo Golfo Sarónico ou Golfo Egina. De fronte ficam as ilhas Sarónicas - Egina, Salamina e Poros -, atrás da cidade ficam as montanhas que caracterizam a costa do Pireu. Nela vivem 45 mil pessoas, que da zona junto ao mar se foram estendendo pela encosta da montanha, alcançável através de artérias com graus de inclinação a rondarem os 40, onde os edifícios urbanisticamente licenciados ombreiam com os que tiveram génese ilegal. Perama foi, durante muitos anos, não só partida de ferrys para as afamadas ilhas gregas. Perama foi um dos mais importantes portos de indústria naval. Cerca de 25 mil trabalhadores tinham o seu posto de trabalho nos estaleiros de Perama; agora 200, talvez 300, trabalhadores aí consigam trabalho.

"Podemos situar o surgimento dos problemas económicos que afectam Perama em 2008. O que aconteceu depois foi que toda a actividade nos estaleiros desapareceu e mais de 90% dos trabalhadores ficou sem emprego. Há uma crise na indústria naval grega, dois outros portos próximos de Perama também fecharam, ou melhor, estão sem actividade. O fim da indústria naval em Perama não atingiu apenas os trabalhadores do estaleiro, mas de muitas outras actividades, desde a indústria gráfica às pequenas oficinas de reparação automóvel", principia a contar o presidente do Município, também ele trabalhador da indústria naval, de 1970 a 2009, altura em que ficou sem emprego. E surge assim a razão de pelo caminho termos encontrado tantas pequenas empresas de portas fechadas. "Tudo colapsou", como diz Panayotis Karagiannakis.

"Quando falamos de Perama, falamos de uma cidade, cuja história está intimamente ligada à indústria naval, ligada ao porto. A indústria naval instalou-se aqui em 1927 e ao longo do tempo, a população da cidade cresceu sobretudo devido às migrações de gente que aqui vinha procurar trabalho e como encontrava, ficava. Em Setembro de 2008, a crise que se declarou do outro lado do Atlântico reflectiu-se no porto de Perama e o colapso afectou toda a cidade", prossegue o autarca. "Os anos de 2005 a 2007 foram anos bons para os estaleiros de Perama, mas em 2008, com a falência da Lehman Brothers, a indústria naval local foi particularmente atingida porque os financiamentos acabaram".

A crise do "subprime" atravessou o Atlântico até ao Golfo Sarónico, no Mediterrâneo, e acabou com a indústria naval em Perama!? "Perto de Perama situa-se um outro porto que é o maior da Grécia e o maior do leste mediterrânico, com o qual Perama tinha relações muito chegadas. Em 2010, a União Europeia mandou restringir a actividade desse porto apenas à Marinha, impedindo-o de ter qualquer actividade comercial. E isto porque este porto devia 2,3 mil milhões de euros ao Estado grego, em resultado de fundos comunitários destinados a apoiar a indústria naval. Com isto, os navios de grande porte que necessitavam de reparações deixaram de poder usar esse porto e os trabalhadores de Perama perderam trabalho. O encerramento da actividade comercial nesse porto penalizou duramente os trabalhadores de Perama", esclarece o edil Karagiannakis, eleito pela coligação que uniu o Syriza ao ANEL e à Esquerda Moderada (DIMAR), acrescentando que Perama deve ser entendida no contexto dos portos do Pireu, os quais "nunca receberam investimentos dignos desse nome, no que respeita a tecnologia e inovação".

Menos de sete mil euros para apoio social

Passam escassos minutos das 10 da manhã e ponderamos beber o terceiro (ou o quarto?) café, depois de sermos informados de que a doutora Chara Tziouvara, pediatra e voluntária dos Médicos do Mundo, está atrasada devido ao trânsito. A jornalista portuguesa recorda as palavras ouvidas há tempos a um taxista de Lisboa: "quando chove, esta cidade parece povoada de doidos" e cisma se as diferenças entre portugueses e gregos serão assim tão grandes, pese embora os segundos tenham vivido quatro séculos integrados no Império Otomano e resistido com armas (e milhares de vidas assassinadas) à barbárie nazi-fascista, mesmo tendo como chefe de governo um fascista de nome Metaxas, nome parecido com o de a uma das mais afamadas bebidas espirituosas gregas.

Abandonamos a ideia do café que substituímos por mais um cigarro e uma revista à entrevista com o presidente da Câmara Municipal de Perama, cidade onde outrora o Partido Comunista Grego (KKE) teve forte influência. "O que pode fazer o Município?". "Temos um programa para os sem-abrigo que envolve 15 famílias. Ao abrigo deste programa, estas famílias conseguem pagar uma renda de casa, comida e suportar algumas outras necessidades básicas. Este programa visa o regresso das pessoas ao mercado de trabalho e oito já estão a trabalhar. Em 2014, devia ter sido iniciado um outro programa - Solidariedade Social na Ática -, com um fundo de 320 mil euros para cantinas sociais, roupas, banco de produtos alimentares. Era um programa apoiado pelo «mecenato» privado, mas apenas alguns apoiaram. Em resultado das políticas de austeridade, as autarquias debatem-se com grandes dificuldades financeiras e vale o apoio da sociedade civil, das organizações não-governamentais (ONG), como os Médicos do Mundo, que permitiram a distribuição de comida na Páscoa a 400 famílias (cerca de mil pessoas). Dos seus fundos próprios, a Câmara apenas pôde inscrever menos de sete mil euros no seu programa de apoio social, para este ano", e o rosto do presidente Karagiannakis evidencia angústia.

Chara Tziouvara chega, carregada de sacos e quase esbaforida. Desculpa-se pelo atraso e convida-nos a entrar no espaço que lhe serve de consultório, uma vez por semana, nas instalações que os Médicos do Mundo arrendaram em Perama, na Primavera de 2012. A conversa inicia-se com as memórias que a pediatra tem de Portugal, país que já visitou mais de uma vez e onde diz ter amigos. É sempre agradável ouvir dizer que o nosso "é um país maravilhoso". A Grécia também o é. Mas como turistas somos enviados para o pitoresco. Como jornalistas queremos que nos mostrem a realidade.

A crise humanitária que em Perama é por demais evidente, levou a ONG Médicos do Mundo a instalar-se na cidade. Para quem foi habituado a saber da organização em cenários de catástrofe humanitária, mormente decorrentes de guerras e conflitos, a pergunta impõe-se: "há uma catástrofe humanitária em Perama?". "Os problemas que atingem a população da cidade colocam-na ao mesmo nível. É uma cidade de classes trabalhadores, mas de classes baixas que agora estão sem trabalho, o que torna a sua realidade muito dura. Se na Grécia não se tem trabalho, não se tem Segurança Social e não se tem acesso ao serviço nacional de saúde. Por isso, decidimos abrir este espaço para ajudar a população de Perama e dos seus arredores".

Os Médicos sem Fronteiras asseguram assim cuidados primários de saúde da população (incluindo várias especialidades), fornecem medicamentos gratuitamente que lhes são oferecidos por muito particulares, mas também pela indústria farmacêutica e hospitais privados. Se o caso for sério e necessitar de ser acompanhado num hospital a organização faz acompanhar o doente de uma nota em que explica a sua situação de pobreza. "Nos hospitais gregos há um serviço de assistência social e ninguém morre por falta de assistência. Talvez isso aconteça nos Estados Unidos da América, mas na Grécia não. Todos os que não têm emprego possuem um cartão que atesta a sua condição. Aliás, não é qualquer pessoa que tem acesso aos nossos serviços. Não seria justo. Nós também só prestamos apoio aos que efectivamente precisam", esclarece a doutora Chara que sublinha que os medicamentos "são muito caros", mesmo os que tratam doenças crónicas, para quem não tem acesso à Segurança Social. "Inclusive, no caso das crianças, os medicamentos, especialmente as vacinas, são muito caros. A vacina pneumocócica, por exemplo, custa 75 euros".

Em tempos, segundo a médica voluntária dos Médicos do Mundo, os municípios tinham serviços de saúde que forneciam vacinas às crianças a preços reduzidos "agora não têm dinheiro para isso e a maioria destes serviços fechou". Baressa, de apenas 23 anos, nasceu na Albânia e há um ano que vive em Perama com o marido, pintor na construção civil, e a filha de seis meses. Um sorriso genuíno percorre -lhe o rosto quando afirma que veio à procura de trabalho na Grécia. Ainda não o encontrou e o salário do marido é pequeno. "Vim vacinar a minha filha", responde quando inquirida sobre a sua presença nas instalações dos Médicos do Mundo. O mesmo motivo conduziu Mikalis à ONG. Taxista, com três filhos, o último dos quais de apenas meses, garante que o dinheiro que ganha "não chega para comida, roupa e médico".

Chara Tziouvara conta que quando a organização a que pertence como voluntária chegou a Perama foi recebida com "alguma desconfiança". "Ao fim de dois ou tês meses, o número de pessoas que nos procuram aumentou muito. Não prestamos apenas cuidados de saúde e damos medicamentos. Também distribuímos leite, leite para as crianças pequeninas, azeite, arroz, massas".

Andreas e Antigoni

Despedimo-nos da simpática médica Tziouvara que nos informa que embora seja costeira, Perama não é "como Cascais". "Há um grande fosso social na Grécia. Houve uma verdadeira classe média que, entretanto, empobreceu e agora temos gente muito rica e muita gente muito pobre".

À mesa do café República esperamos dois habitantes de Perama, cuja história aguardamos com curiosidade, enquanto depenicamos pedacinhos de queijo frito.

Andreas e Antigoni chegam. O proprietário chega depois com o "freddo expresso" de Andreas e o "cappuccino" de Antigoni. Na mesa ao lado, entre mariscos, calamares e outros petiscos, acompanhados de vinho e de "ouzo", ex-colegas de Andreas comem, falam e riem. Um sentido, mas não percebido, ambiente de tensão leva-nos a anuir imediatamente ao pedido de não haver gravadores ou máquinas fotográficas.

Andreas é soldador naval. Ao fim de 30 anos a viver em casas paternas conseguiu concretizar o sonho de ter uma casa sua. Construi-a na encosta da montanha que olha o Golfo Sarónico e as ilhas defronte a Perama. Uma vista deslumbrante que Andreas quis que ficasse inscrita na larga janela que abriu para o mar. Corre o risco de o banco lhe ficar com a casa, por lhe ter pedido dinheiro emprestado para a construir, mas acredita que o novo governo cumpra a promessa de apoiar os que como ele correm o risco de deixar de poder pagar o empréstimo.

Antigoni, com 52 anos e quase tantos cabelos brancos quanto escuros, tal como Andreas, é a companheira do soldador desempregado. E também ela desempregada. Rostos tisnados, característica de quem vive à beira-mar, distingue-os a cor dos olhos: escuros os de Andreas, azuis os de Antigoni.

"Queremos trabalho e não que o governo nos apoie", enfatiza Antigoni, designar gráfica de profissão, desempregada desde 2001, como atesta exibindo o seu cartão de desempregada, pejado de vinhetas que, anualmente, têm obrigatoriamente de ser coladas, para atestar uma condição que não se quer, que se recusa. E os olhos azuis banham-se, uma vez, por ondas de lágrimas. Porque Antigoni já teve vários trabalhos, em cafés e bares essencialmente, e agora não consegue nada. Ofereceu-se para fazer limpezas. Disseram-lhe que era "velha" para limpar.

Andreas não tem cartão de desempregado. Nunca foi empregado, no sentido de ter um emprego certo, um trabalho certo. Apresentava-se no estaleiro de Perama e esperava que, numa espécie de praça de jorna, o selecionassem para trabalhar num navio. Tinha trabalho. Até veio a Lisboa para trabalhar num navio que aportou no cais de Santa Apolónia. "Gostei muito de Lisboa, da zona velha. Como se diz "al...?". "Alfama".

Com o fim da indústria naval no porto de Perama, Andreas perdeu o trabalho, o sustento. Andreas e Antigoni não têm qualquer fonte de rendimento. Os pais, reformados sem aumentos desde 2010, ajudam com 250 euros mensais. É também na casa dos pais que fazem uma refeição diária. "E como pagam a água, a electricidade?". "Reduzimos as despesas ao mínimo. Há quatro anos que não ligamos o aquecimento", explica Antigoni que confessa ser o mito de Narciso, da mitologia grega, o seu preferido.

"Temos tido algum apoio do Município", diz Andreas. "Um quilo de macarrão, um quilo de pão, um quarto de quilo de esparguete, um litro de azeite, dez batatas, cinco porções de carne de porco, cinco laranjas, quatro maçãs, três tomates, um pão para torradas, uma garrafa de calda de tomate, três ovos. Para duas pessoas comerem durante um mês", elenca Antigoni. "São donativos que fazem à Câmara Municipal de Perama. A Câmara Municipal também não tem dinheiro", adiciona Andreas.

O cinzeiro transborda de beatas e em Atenas há outros compromissos que nos aguardam. Sobra algum tempo para subir ao topo de Perama e uma questão que se foi avolumando em pertinência. "Que esperam do novo governo?".

Andreas, até então menos falador do que Antigoni, responde: "Não há soluções milagrosas. O governo do Syriza está muito pressionado pela União Europeia. Mas também não há por que desconfiar do governo. Durante anos, o Syriza foi o único partido que esteve ao nosso lado. Foi solidário. Deu dinheiro para comida e medicamentos (e ainda o faz). Tenho a certeza de que vai cumprir as suas promessas".

Passam mais de 20 minutos das duas da tarde e o encontro com o Professor Seraphim Seferiadis está marcado para as três da tarde. Mesmo assim, há tempo para uma despedida emocionada de Andreas e Antigoni, que confessam gostar "muito de fado".

Entramos no carro alugado e regressamos a Atenas. Um terço do trajecto é feito em silêncio, até que a jornalista portuguesa o quebra, cismando com voz audível: "Acho que vocês estão pior do que nós". "Reparaste na dignidade de Andreas e Antigoni?", responde, pergunta o jornalista grego. "Sim. De que falaste tanto tempo em grego, com eles?". "De filmes e livros que vimos e lemos recentemente".

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